Covid-19: Autoridades dizem que não foram notificados da detenção da médica denunciante Constantino

As autoridades sanitárias dizem não terem sido notificadas da detenção da médica Manuela Adão, que anunciou, nas redes sociais, que um cidadão chinês teria “sim” Covid-19, contrariando, assim, a posição do governo, soube oPAíS de fontes governamentais. A mesma descarta, desde já, que tenha sido um dos membros da Comissão Provincial Multissectorial a ordenar a detenção da médica

Constantino Eduardo, em Benguela

O serviço de Investigação Criminal deteve, na Quarta-feira, 18, a médica Manuela Adão, por alegada denúncia da existência de um caso de Coronavírus em Benguela feita nas redes sociais. A detenção foi confirmada por fontes do SIC. O Governo provincial de Benguela diz que não corresponde à verdade a informação posta a circular pela médica de que os testes ao cidadão Chan Haro deram positivo. A médica dá entender, no áudio a que este jornal teve acesso, que as autoridades estariam a guardar a sete chaves os resultados verdadeiros do doente, que recebe assistência médica nos cuidados intensivos do Hospital Geral de Benguela.

“Não queria ser portadora de más notícias, mas queria vos informar que hoje a direcção do nosso hospital reuniu com todos os médicos e, posteriormente, com todos os chefes de secção e o que chegou é que eles tiveram uma reunião à porta fechada…O caso que está no hospital de Benguela foi confirmado positivo o Coronavírus”, denúncia a médica do Hospital Municipal de Benguela, segundo soube este jornal.

No áudio, a médica acredita que a informação ainda não terá sido tornada pública por, alegadamente, as autoridades estarem a organizar o hospital da Polícia Nacional na Catumbela, para onde serão transferidos todos os casos suspeitos: “Enquanto não estiver tudo bem preparado…eles não querem pôr a população em pânico”, refere.

Versão institucional

O Governo Provincial de Benguela, por via do director do Gabinete da Saúde, disse serem infundadas as denúncias da médica e desmente que tenha havido qualquer reunião secreta, como a médica faz crer. Manuel Cabinda – ele também médico – reafirma que Benguela não tem nenhum caso de Covid-19 e tem-se activado o sistema de vigilância epidemiológica: “Como é natural, quando o existe o sistema activo, deve notificar todos os casos suspeitos”, disse, reiterando que no caso do cidadão chinês os testes, que tinham sido enviado à capital do país, deram negativo e não há qualquer tentativa das autoridades de sonegarem informações relativas ao Covid-19.

Médicos indignados

Quem não está nada satisfeito com a acção do Serviço de Investigação Criminal é o Sindicato dos Médicos em Benguela, que, por via do seu responsável, Edgar Bucassa, não descarta a promoção de uma manifestação, embora esclareça que, antes de qualquer iniciativa vão criar uma comissão de inquérito para apurar a veracidade dos factos e entender o que, efectivamente, aconteceu. “Nós, na verdade, estamos indignados e pensamos em criar uma comissão de inquérito para aferir o que está na base e, posteriormente, nos posicionarmos.

Se nós constatarmos muita insuficiência neste processo, podemos partir para uma manifestação ou greve”, disse à Ecclésia. Juristas em Benguela consideram estranha a detenção da médica, uma vez que, segundo argumentam, não haverá indícios criminais. “Não vislumbrámos, no momento, algum indício criminal que permitisse a privação da liberdade da médica”, sustenta Chipilica Eduardo, advogado, para quem a detenção fora do flagrante delito obedece a pressupostos práticos, pois é “preciso aferir se este áudio é efectivamente dela…No caso em concreto, …é um acto intimidatório aos médicos”, justificou o jurista também à Ecclésia.

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