Manifesto anti bicho

Por: JOSÉ MANUEL DIOGO

Queria ter saído hoje de casa, mas em vez disso fi quei em cima do muro gritando impropérios contra ti miserável vírus, berrando palavrões e indecências na esperança que tenhas ouvidos e orelhas e me escutes. Vai-te embora bicho feio, foge daqui. Eu gritei muito forte e muito alto e muito mau, mostrando um desagradável desagrado, bruto e forte, maldade em estado puro destilada. Vociferei falando grosso. Fui mal-educado, bandido e bandoleiro.

Cafageste e salafrário. Mau caráter, mau de mais. Mesmo o pior. Chamei-te todos os nomes. Todos os que havia e eu sabia. Fui à estante e agarrei o meu dicionário da Porto Editora e depois os outros brasileiros, o Buarque d’Hollanda e o Priberam e outro que não recordo que tem nome de gente, acho que é Aurélio, mas não me lembro bem.

E fui à Wikipédia que agora há e é uma Babel; e à unbabel que traduz todos os palavrões para sânscrito e chinês e japonês e braille e mais uma série de línguas mortas e vivas — com as mutações a gente não sabe bem que língua tu podes falar e não podemos arriscar que não entendas o que te digo, oh verme! E ainda inventei outros nomes para te chamar que não encontrei catalogados.

Nomes tão maléfi cos, tão horríveis, tão horrendos, que nem os escrevo porque só funcionam gritados ao teu ouvido, seu imbecil! Porque eu sou claro! Vai-te catar bicho mau! Desampara-me a loja, desópilóifígado, fi lho de uma mãe fraca. Ninguém te quer aqui, ninguém. Baza. Cresce e aparece! Para de ser invisível seu indecente! Vem lutar com armas de gente! Não te escondas em toda a parte como se não existisses. Não me procures no armário das sandices.

Baza. Baza. Põe-te a milhas. A minha pele tu não trilhas. Baza. Baza. Baza. Arruaceiro! Quero a tua morte primeiro. E segundo. E terceiro. No quarto. No quinto dos infernos, do sexto andar abaixo, no sétimo céu, onde só estejas tu e eu. Olhos nos olhos para te gritar ao ouvido que não tenho medo. Esquece. Sou homem e tu menos que um rato, menos que um morcego. Menos que o mal branco e a peste negra, menos que um fi lho bastardo desses dois.

Queria ter saído hoje de casa e não pude. Fiquei em cima do muro gritando contra ti. Podes até esconder-te em toda a parte que não tens para isso engenho e arte e nem te vais escapar assim. Não te esconderás do meu grito, não te salvarás no meu clamor, não sobreviverás ao meu castigo. Porque eu sou homem e tu és bicho e o vírus do feitiço eu te lanço. Excomungo o teu sussurro e condeno-te assim. Nem tu sendo surdo te esconderás de mim.

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