Soraia Santos: “Prioridade é formação de quadros e renovação da imagem aos museus em Angola”

Depois de ter assumido a direcção do Museu regional da Huíla, durante 8 anos, Soraia Santos, abraça um novo desafio: a direcção Nacional dos Museus. Entretanto, já em funções, a nova directora traça como metas a contínua formação de quadros e a renovação da imagem dos museus nacionais com vista a atrair o maior número de visitantes. Além disto, a arqueóloga tem no alinhamento a construção de novos museus, face ao espólio existente em várias regiões do país, a exemplo do lubango, que pode vir a conhecer um “Museu do Cinema”

Encara hoje uma nova tarefa, que é a da coordenação dos Museus em todo país, quais são os principais desafios nesta nova missão?

Vamos procurar resolver alguns problemas que poderão ser comuns a todos os museus. Na província da Huíla existem ainda muitas coisas a serem feitas pelo e para o museu. O que pretendo fazer enquanto Directora Nacional dos Museus é trabalhar mais em sintonia com todos os museus de Angola. Julgo que deve haver uma interacção maior entre a Direcção Nacional e os demais museus, que deva ser algo como funcionam as equipas, com um coordenador e depois esse trabalho é feito em equipa de acordo em estratégias comuns, que nos permitam atingir determinados objectivos.

Há já projectos em concreto?

O que se pretende, pelo menos é essa ideia que tenho comigo para trazer à Direcção Nacional dos Museus, é a de trazer a experiência que adquiri enquanto directora do Museu Regional da Huíla, pegar nos bons exemplos e nas boas experiências que tivemos lá e tentar aplicar aqui ao nível dos restantes museus de Angola. Portanto, é um desafio muito grande, mas julgo que todos juntos poderemos alcançar
bons resultados.

Os museus, cada um deles tem a sua especificidade e, como tal, os problemas diferem um do outro. Por essa razão pergunto: qual é o quadro, ou, se quiser, o estado actual dos museus em Angola?

Julgo que alguns problemas devam ser resolvidos com a maior brevidade possível, designadamente, a formação de quadros. Os museus são instituições específicas com formas de trabalhos muito específicos igualmente, e que necessitam obrigatoriamente de pessoas com formação na área. São instituições que trabalham ao serviço do público, com património móvel que se encontra dentro dos museus e que pode ser visitado pelas pessoas em geral e para funcionarem de forma adequada precisam de pessoas com formação específica para conseguirem corresponder às expectativas quer do público, quer ao próprio trabalho que seja necessário fazer dentro do museu.

Quais esses trabalhos?

Temos áreas muito específicas, como conservação e restauro, como a museografia. São só duas das áreas em que não é possível trabalharmos sem pessoas formadas nestas especialidades. Porque são especialidades que requerem o bem-fazer. E, portanto, esse é um dos problemas que vamos ter que enfrentar juntos e resolver juntos, é uma necessidade urgente. Estou a falar de forma transversal pois todos os museus carecem de pessoas especializadas em determinadas matérias e esse é um dos problemas que conseguiremos, de certeza, resolver.

A formação de quadros é uma preocupação, como avançou, mas de certeza que existirão outras… Obviamente. Além desta situação da formação, a meu ver, outra questão que a mim preocupa é a própria imagem dos museus. É necessário reabilitarmos, reformular as exposições permanentes dos museus. Por uma série de razões não foi possível realizar durante os anos anteriores, fazermos essa remodelação e reabilitação, mas julgo que para atrairmos mais visitantes, para estarmos mais enquadrados dentro daquilo que é a museologia internacional, precisamos de fazer esse esforço de reabilitar, e depois conferir uma nova dinâmica a cada instituição, tendo em conta a especifi cidade de cada uma. E isso vai de encontro a política do Governo, que tem como objectivo até 2022 a construção de novos museus e, consequentemente, a sua reabilitação.

Tudo está alinhado no sentido de se conseguir essa nova imagem que os museus necessitam para atraírem cada vez mais público. Por outro lado, mais atenção inclusive do empresariado nacional do ponto de vista do mecenato.

Acredita que a reabilitação da imagem dos museus seja a única saída para atracção de mais visitantes, uma vez que notamos uma certa letargia do ponto de vista da comunicação externa dos museus?

Isso não depende única e exclusivamente de um esforço do Governo em reabilitar e remodelar museus. É preciso dizer que independente dos museus virem a ser reabilitados e remodelados, é necessário que haja dentro de cada instituição equipas que trabalhem precisamente nesta questão da dinâmica e da dinamização externa dos museus. E isso depende muito das pessoas que trabalham em cada museu. Não tem a ver necessariamente com a imagem que os museus podem ter ou falta de condições actuais que os museus podem ter, mas sobretudo com o dinamismo que cada responsável da instituição queira imprimir. E isso é possível fazer-se independente das reabilitações ou renovações.

Julgo que tem de haver trabalho de equipa e delinear-se estratégias de como fazer essa dinamização. É isso que está a faltar e é isso que precisamos trabalhar enquanto profi ssionais que já estão inseridos nos museus.

A procura por museus e o que se cobra por ingressos satisfazem as necessidades de cada museu?

O Ministério da Cultura está a trabalhar nos instrumentos normativos que nos permitirão ter uma tabela universal de cobrança de ingressos. Por via desse instrumento é que vai estabelecer um valor mínimo para determinados grupos em visitas, que vão ser cobrados de acordo com essa tabela.

Qual é o nível de procura pelos museus nacionais?

Julgo que anualmente temos assistido a um número progressivo de visitantes. E isso tem a ver com a informação que as pessoas vão obtendo através dos meios de comunicação social, sobre a importância que os museus têm no panorama de um país. No fundo, os museus contam a história dos povos, a realidade do país em si, do ponto de vista cultural, abordam a história de várias vertentes dentro daquilo que é a história de um povo. Portanto, a procura tem aumentando. Ainda não é um nível que satisfaça. Podemos obter números bem mais satisfatórios e julgo que tudo isso vai depender de um trabalho que vamos ter de fazer progressivamente e dependem também de uma série de condições que se devem criar para que os museus sejam mais atractivos.

Qual é a informação que nos pode passar sobre o Museu da Tentativa no Bengo?

É um museu no qual estamos a trabalhar ao nível do Ministério da Cultura, não sei se posso falar deste museu em particular, por uma questão de estarmos a tratar de algumas questões como documentação, mas é um museu que tal como outros, estão em cima da mesa do Mincult para serem tratados e criados.

Angola perdeu bastante acervo, sobretudo na fase da transição colonial e a Fundação Sindika Dokolo tem estado, nos últimos tempos, a recuperar algumas peças, quais são os números e o valor simbólico e comercial delas?

Nós estamos a trabalhar num dossier que se vai encarregar precisamente deste assunto. É algo que estamos a tratar com o Mincult, e que está em fase de início de processo. Portanto, também não tenho por ora muitos elementos a dar, mas é um assunto prioritário ao qual vamos dar uma maior atenção e que vai merecer, com certeza, depois, tratamento especial.

Existem muitas peças por recuperar e estão identifi cados os locais em que se encontram?
Temos sim muitas por recuperar, sobretudo fora do país. Algumas delas estão identifi cadas e as condições em que partiram foi e pelo conhecimento que temos, por altura do pós-Independência, quando em alguns dos museus, nomeadamente o Dundo, foram saqueadas peças, e por essa via saíram. Temos peças em França, Portugal e em outros países europeus devidamente identifi cados com peças que fazem parte do espólio angolano, e esses países já se mostraram disponíveis para negociações com o Estado angolano.

Os museus militares são tutelados pelo Mincult?

Não são. A esses museus apenas coordenamos e apoiamos metodologicamente naquilo que pretenderem desenvolver e estamos sempre disponíveis para trabalhar em conjunto com eles, mas não são tutelados pelo Ministério da Cultura.
Podemos ter a curto, médio e longo prazos o país a conhecer novos museus? Sim. Museus que poderão estar integrados em determinadas regiões e que poderão tratar de temáticas específi cas. Neste momento, ao nível internacional, só para ter uma ideia, temos inclusivamente o Museu da Água. Portanto, dependerá muito do que cada uma das regiões reunir do espólio que tiver para se poderem criar novos museus e com especifi cidades diferentes.

Quais as regiões em que possa vir a surgir um novo museu tendo em conta o espólio que apresenta?

Nós temos condições para termos uma diversidade muito grande de museus, depende, obviamente, da região estudando melhor cada uma delas. Por exemplo, na região do Lubango, que é aquela que conheço melhor, na Huíla, podemos ter, por exemplo, o “Museu do Cinema”.

Porquê?

É uma cidade com uma tradição muito grande no que diz respeito ao cinema. Existem salas de cinema que foram desactivadas e deixaram algum equipamento que podiam ser recuperados para um museu do género. É apenas um exemplo. Temos os caminhos-de-ferro, também podíamos ter um ligado a essa especifi cidade.

Em função da particularidade da história angolana.

Estamos muito distantes daquilo que são os demais museus espalhados pelo mundo?

Olha, se formos falar em termos de infra-estruturas ainda estamos um pouquinho. As infra-estruturas precisam ser próprias, adequadas a função museológica. Desse ponto de vista, tirando o Museu Nacional da Antropologia e o de História Natural, que são museus com uma estrutura bastante sólida e interessante do ponto de vista da museologia, os outros museus, de uma forma geral, precisam de infra-estruturas próprias para funcionarem de acordo com aquilo que é o normal do ponto de vista internacional.

Agora, em termos de conservação do espólio, aquilo que são as práticas de preservação preventivas, nós não estamos assim tão mal. Apesar das difi culdades que temos, temos conseguido preservar o espólio e o património de forma aceitável.

Perfil
Soraia Santos é cidadã angolana nascida e crescida na cidade do Lubango, província da Huíla, onde viveu quase toda sua vida. Saiu do Lubango para fazer apenas a formação superior licenciando-se em História na variante Arqueologia. Apaixonada pela área dos museus, especializouse em Museus e Património Cultural, na Universidade de Coimbra, Portugal, onde igualmente fez a sua licenciatura. Em 2009, de regresso à pátria, ingressa nos quadros da direcção provincial da Cultura da Huíla. Nessa altura havia passado por uma série de experiências que lhe permitiram adquirir conhecimentos em diversas áreas da cultura.

Enquanto estudante em Coimbra, foi voluntária em vários projectos que envolveram escavações arqueológicas, biblioteconomia, entre outras, acabando por ser a sua escola da vida. Depois de um concurso público em 2011 integra os quadros do Museu Regional da Huíla. Depois da aprovação do estatuto orgânico do mesmo museu em que já trabalhara, em 2014 assume efectivamente a direcção do mesmo até fi nais de Fevereiro de 2020.

Soraia

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