Autoridades “cercam” viajantes em quarentena domiciliar

Em casa, em segurança, mas com receio de terem sido infectados pelo Coronavírus estão centenas de cidadãos nacionais e estrangeiros que nos últimos dias escalaram o Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, a cumprir a quarentena de 14 dias. Outros furtam-se da medida, porém, as autoridades tentam mantê-los sob controlo. Benguela e Luanda viram ontem famílias serem recolhidas. Mas há histórias de cumpridores

O psicólogo clínico Nvunda Tonet, um dos cidadãos cadastrados na Quintafeira pelo grupo de técnicos de distintos departamentos ministeriais que esteve de serviço no aeroporto de Luanda, revelou, a OPAÍS, que foi recentemente contactado pelas autoridades. “Fisicamente ainda não, mas recebi, não sei se as outras pessoas também receberam, um documento do Ministério [da Saúde] a dizer que nos próximos dias seremos contactados”, frisou.

Acredita que tal promessa poderá ser concretizada com a visita à sua casa de um dos especialistas da Comissão Interministerial criada pelo Titular do Poder Executivo para traçar e executar as medidas de prevenção e combate ao vírus.

Ele fez parte do grupo de cidadãos que viajou de Lisboa, Portugal, a Luanda neste dia e acabaram por ser orientados a cumprir a quarentena nos seus domicílios. Recordou que antes mesmo de embarcar, todos os viajantes foram informados sobre os cuidados a ter antes e durante a viagem, bem como no Aeroporto 4 de Fevereiro, para evitarem o contágio e propagação do Coronavírus. “Sair do aeroporto com mascara, com gel desinfectante no carro ou próximo para passar as mãos de duas em duas horas e evitar contactos mais estreito com as pessoas (nada de beijos e abraços), foram as recomendações que recebemos logo à saída do aeroporto e que se mantêm”, enumerou.

Apesar de não se recordar na íntegra do conteúdo do “termo de compromisso” que todos os passageiros foram obrigados a assinar para não cumprirem a quarentena no centro de Calumbo, Nvunda Tonet confirmou que todos os viajantes se comprometeram a ficar os 14 dias em casa.

“Os procedimentos que o Ministério da Saúde tem estado a divulgar e os cuidados a ter estavam também explícitos no termo de compromisso”, frisou. De acordo com o nosso interlocutor, uma das cláusulas prevê que quem não cumprir será compulsivamente levado ao Centro de Quarentena do Calumbo até cumprir o tempo que o vírus leva a manifestar-se.

Decidido a cumprir escrupulosamente a orientação do Executivo, o também docente universitário conta a seu favor com a suspensão das aulas neste subsistema de ensino. Acrescido do cumprimento obrigatório de todas as instituições, tal como as em que trabalha, como psicólogo, dispensarem os técnicos que regressaram ao país recentemente, por um período de 15 dias. Esta orientação emana do Presidente da República, João Lourenço, por via do Decreto Legislativo Presidencial Provisório n.º 1/20, de 28 de Março. “Só nos resta cumprir, visto estarem justificadas as faltas”, frisou o jovem, que se encontra em sua com a família, apesar de ter sido o único que esteve de viagem.

Garantiu que a presença dos demais membros de sua família não constitui perigo, por estarem a cumprir as orientações do Ministério da Saúde acima mencionadas e a proibição de receber visitas. Por outro lado, disse que o Covid-19 passou ser um dos temas de conversa em sua casa, uma vez que no serviço da sua mulher foram adoptadas as medidas de prevenção e, antes da suspensão das aulas, foi um dos temas abordados na escola da sua primogénita.

A jornada de quem está de quarentena

O escritório que tem em casa se transformou no “refúgio” por estes dias. É lá onde passa algumas horas a rever as matérias em preparação para a universidade e a ler livros que adquiriu em Outubro último, mas que não conseguia “devorar” por falta de tempo. Quando não está numa dessas duas actividades, fica ligado ao televisor, seguindo duas séries televisivas, algo que também não conseguia fazer por falta de tempo. Ele considera esta como sendo a sua segunda quarentena.

A primeira ocorreu em Portugal. “Lá fiquei quatro dias numa pequena quarentena porque não podia sair de casa. Cheguei e a única coisa que depois fiz foi ir ao Aeroporto”, frisou. Nvunda Tonet deslocou-se à Portugal para fazer uma consulta médica previamente marcada, porém, estando na capital lusa, Lisboa, foi informado sobre o seu cancelamento. Em causa estava a propagação do Covid-19, pelo que a direcção da unidade sanitária recomendou-lhe a permanecer no local onde estava alojado para evitar o contágio até à data do seu regresso.

O jovem psicólogo clínico nada mais fez do que marcar a viagem de regresso ao país, para cinco dias depois, sem imaginar o que estava por vir. Na Quinta-feira, acabou por estar entre centenas de cidadãos de diferentes nacionalidades que ficaram horas no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro e que corriam riscos de permanecerem internados por 14 dias no Centro de Quarentena de Calumbo

“Era uma medida acertada as pessoas estarem de quarentena num local”
Para Tonet, o tempo que as pessoas permaneceram no aeroporto na Quarta-feira, expostas ao sol ardente, podia ter sido evitado, no entanto, hoje, mais calmo, diz compreender a posição das autoridades ao pretenderem internar todos no centro de quarentena. “Do ponto de vista epidemiológico, era uma medida acertada as pessoas estarem de quarentena num local criado pelas autoridades, mas do ponto de vista logístico e humano não era possível”.

Fundamentou a sua posição, alegou que tudo isso envolve muitos gastos e, possivelmente, nesta fase em que o país se encontra, não seria oportuno o Executivo manter mais de 600 pessoas num sítio e proporcionar-lhes três refeições por dia, um litro e meio ou dois litros de água a cada um deles. Isto porque nesta fase as pessoas têm de beber muita água.

Sublinhou que, em seu entender, a quarentena domiciliar, neste momento, foi a atitude mas correcta e ponderada, tendo em conta a nossa realidade. “Todas as pessoas têm que ser responsáveis. Aqui não é só o Governo. Todos nós temos que ser responsáveis. Assinamos um documento e temos que cumprir para evitar eventual propagação, uma vez que não sabemos se alguém tem o vírus”, frisou, enfatizando que nesta altura deve-se meter as diferenças políticas, ideológicas e cívicas de lado.

Salu Gonçalves evacua família para permanecer em quarentena
O radialista e apresentador de televisão Salu Gonçalves diz, num vídeo que partilhou pelas redes sociais no segundo dia de quarentena domiciliár, que evacuou a sua família de casa para evitar qualquer risco. “Dispensei os meus secretários do lar e estou absolutamente sozinho”, garante. Com o sentido de humor que lhe é característico, contou que recebeu a conta da luz debaixo da porta por ter recusado abri-la para que os técnicos da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE) a entregassem pessoalmente.

Confessou que não é agradável estar sozinho numa casa, mas há essa necessidade. “Costumo ser uma pessoa de palavra. Vou fazer aqui sete dias, 14 dias… Vou fazer o que for necessário”, garante. Acrescentou de seguida que se sente optimamente. Não tem dor de cabeça, a garganta seca, não está a tossir, a espirrar, nem tem febre, “ou seja, não tenho nenhum dos sintomas comuns nas pessoas que têm o Covid-19”. Por outro lado, apelou às pessoas que viajaram nos voos do Porto e de Lisboa de Quartafeira a manterem as promessas que fizeram às autoridades angolanas.

Disse que o facto de terem feito o trajecto Portugal/Angola num meio de transporte em que o ar fica confinado num determinado espaço, constitui um risco e o mesmo se sucedeu durante as seis horas que permaneceram na sala de desembarque, com uma deficiência no ar-condicionado. Supõe que o mau funcionamento desse aparelhe se deveu ao número de pessoas acumuladas na aludida sala. “Vamos cumprir a nossa quarentena em casa. Vamos fazer com que isso não se multiplique, porque nós precisamos de ter uma Angola de exemplos”, disse, apelando às pessoas que estão a regressar “de países onde o risco de contaminação é grande” a cumprirem a quarentena.

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