René Tavares//O percurso de um artista de São Tomé e Príncipe para o mundo

Desde muito cedo apaixounou-se pelas artes, mesmo contra a vontade dos seus pais, em São Tomé e Príncipe, sua terra natal. Seguiu o seu caminho e hoje é um artista renomado no continente e no mundo. Em Angola, inaugorou, ontem, a sua exposição individual “Migrações e Coisas, Retalhos de uma História Só”, que está patente na Galeria do banco Económico, em Luanda, onde pode ser visitada até ao dia 27 de Maio

O nosso interlocutor é o artista santomense René Tavares. No país onde tem patente a sua primeira exposição individual, “Migrações e Coisas, Retalhos de uma História Só”, nos conta o seu trabalho, as fontes de inspiração, os projectos em que está envolvido, bem como as similitudes entre a arte de São Tomé e de Angola “Comecei cedo! Foi ainda no liceu que comecei a pintar e a desenhar, embora contra a vontade dos meus pais.

Em São Tomé e Príncipe a Arte nunca foi vista como um factor de rendimento ou como profissão. Ser artista seria, talvez, a última coisa que alguém pensaria ser. Naquela altura, eu estudava arquitectura, mas a arte assumiu um maior peso na minha vida e o meu caminho fez-se através dela”, conta. René Tavares revela que frequenteou a primeira casa das artes em São Tomé, fundada por João Carlos Silva (uma pessoa referência para ele) e foi na Teia d’Arte em que começou afirmar-se na pintura. “Foi algo que, desde o início, vivi de um modo muito apaixonado, até começar a participar em exposições e formações”.

Em 2002 ganha o prémio de artista revelação na II Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe. A Bienal era por si só um evento inovador, que colocava também a nu o total desconhecimento da população sobre o que é e o que envolve este mundo das artes. Foi nesse contexto que lhe foi atribuída uma bolsa para estudar Belas Artes no Senegal.

Inspiração

Quando ruma para estudar Arte no Senegal, levou consigo algumas temáticas que já explorava em São Tomé, dada a necessidade que sentia de divulgar a cultura do seu país, ao mesmo tempo que sentiu a necessidade de reconhecer-se no meio de uma nova cultura africana, que fez-lhe começar a investigar o seu “Eu” e as suas origens. “Como artista e como africano que defende os valores da globalização, o Tchiloli tem sido, desde sempre, uma grande fonte de inspiração.

Através deste tema, questiono-me e procuro encontrar respostas, usando a produção de obras de arte em diferentes meios, como fotografia, pintura e desenhos. ‘Migrations and Things’ é um exemplo desse tipo de pesquisa, e o “Tchiloli” é o mecanismo que desencadeia a sua narrativa”.

Tchiloli Unlimited”

O Tchiloli Unlimited é um projecto que desenvolveu em torno do Tchiloli, mas com uma ousadia maior, a de levar o Tchiloli alémfronteiras e de fazer o cruzamento entre o património e a actualidade de São Tomé e do mundo, ou de São Tomé para o mundo, ou de África para o mundo.

Arte Angolana Sobre o conhecimento que tem sobre a arte angolana, René Tavares, na sua simplicidade, começa por dizer que a cultura angolana é de uma imensidão e riqueza: a música, a arte popular…

O património angolano está no centro da memória do continente africano, e está muito presente também na partilha da história entre Angola e São Tomé e Príncipe. “Tenho vindo a acompanhar o
ritmo e a dinâmica da arte contemporânea e devo dizer que, em muitos, graças aos artistas angolanos através do seu trabalho há hoje um outro reconhecimento da arte africana e dos artistas africanos em África e no mundo”, reconhece o artista.

Arte Angolana vs Santomense

René Tavares considera que a arte contemporânea tem uma particularidade interessante, em que os artistas buscam discursos e têm fontes muito diversificadas para a construção da sua linguagem e discurso artístico, e assim, para ele, é difícil enumerar semelhanças entre ambas.

“Há sim, muitas vezes, afinidades naquilo que transmitem, mas essa partilha não ocorre só entre Angola e São Tomé, existe um pouco por todo o mundo. São Tomé e Príncipe e Angola têm muita coisa em comum no passado, e ainda hoje partilham essa herança que marca o dia-a-dia”, salienta. .

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