Viajantes cumprem quarentena no hotel Vitoria Garden

Um grupo de cidadãos provenientes de Lisboa e Porto (Portugal) na noite de Sábado, foi alojado no hotel Victoria Gardian para cumprir a quarentena de 14 dias ditada pela Comissão Multissectorial para resposta à Pandemia Covid-19

A selecção dos indivíduos, entre nacionais e estrangeiros, que foram alojados na aludida unidade hoteleira e no Centro de Quarentena de Calumbo, teve como critério a idade e o facto de estar a viajar sozinho, de acordo com uma fonte de OPAÍS. São no total 500 cidadãos, maioritariamente angolanos, que regressaram de Portugal. Segundo apurou o jornal, tão logo abriu-se as portas da aeronave, os passageiros foram divididos em grupos em função dos critérios acima mencionados.

Os idosos e as pessoas que se faziam acompanhar por crianças subiram em autocarros com destino ao hotel Vitória Guarden, ao passo que os demais, jovens e senhores, para o centro de Calumbo. Apesar da diferença de locais de hospedagem, todos eles têm os passaportes retidos pelas autoridades e estão devidamente cadastrados. “Chegamos ao hotel de madrugada e só horas depois nos deram uma racção fria como refeição. Semelhante às que são atribuídas aos seguranças”, frisou, via telefónica, a nossa fonte, que se encontra no referido hotel por se fazer acompanhar pelos seus filhos menores de idade.

Na manhã de ontem, segundo ele, o pequeno-almoço servido nos quartos foi constituído por uma sandes, leite e uma garrafa de água de menos de 33 mililitros. No período da tarde o almoço foi melhor em relação ao mata-bicho, porém, persiste a incerteza sobre como serão os próximos 13 dias que terão de aí
permanecer.

“Começo a ter algum receio se as autoridades vão conseguir suportar as despesas de alimentação de todas as pessoas que aqui se encontram”, desabafou. De acordo com a nossa fonte, muitas pessoas que se encontram aí internadas estão a recorrer aos seus familiares ou amigos para conseguir alguns bens alimentares. Um procedimento que reprova a todos os títulos, mas que está a tornar-se usual. “Não sei como, mas algumas pessoas estão a conseguir receber aqui dentro tais bens”, contou.

Segurança reforçada, mas contornável

Disse estar surpreendido com isso por ter sido montado no local um sistema de segurança bastante apertado, que não permite sequer às pessoas transporem as portas da recepção. Uma situação que, em seu entender, devia ser ponderada, tendo em atenção que há quartos em que a entrada do sol é deficitária. “Em Portugal, por exemplo, é permitido que as pessoas que se encontram em quarentena desçam do edifício para apanhar sol, mas não podem sair do local onde se encontram”, frisou.

Acrescentando de seguida que “aqui nem chegar à porta do hotel é possível, mesmo tendo os nossos passaportes retidos, estão com suspeitas de que há quem possa fugir”. Por outro lado, contou que até ao final da tarde de ontem não havia aparecido no hotel nenhum especialista da comissão multissectorial para medir-lhes a temperatura.

A única coisa que fizeram foi perguntar se estavam a sentir-se bem. O nosso interlocutor manifestou arrependimento por não ter permanecido em terras lusas, invocando que só regressou ao país por ter viajado sozinho com os filhos. A sua companheira, mãe das crianças, está em Angola e decidiu acalentar o coração dela trazendo os filhos. Confessou que a sua esposa temia pelo pior por saber que o Covid-19 está em expansão em Portugal, onde até ontem havia o registo de 1600 infectados e 14 mortos. As bagagens foram-lhes entregues ontem.

Alojados em Calumbo clamam por melhores condições

As reclamações que chegam de Calumbo diferem um pouco. Os viajantes tiveram um “choque” mal chegaram ao local, por se terem deparado com um grupo de indivíduos a montarem as camas hospitalares onde deveriam descansar. Os jovens e senhores que foram lá alojados, denunciaram, optaram por registar o momento com filmagens para divulgar nas redes sociais. “As camas só estão a ser montadas agora por pessoas que nem estão protegidas”, frisou uma cidadã filmando o amontoado de colchões e os técnicos encarregues de montarem as camas. É visível que alguns dos técnicos a que ela faz menção que não estão protegidos, usam máscaras hospitalares.

“Estão a colocar as nossas vidas em causa”
Noutro vídeo a que OPAÍS teve acesso, uma cidadã desabafa que no termo de compromisso que assinaram consta que deviam ficar em quarentena no país, mas não vinha especificado o local. No seu ponto de vista, isso é algo que lhes devia ter sido dito antes. “Nós não sabíamos onde estávamos a ir e podíamos ter a liberdade de escolher onde devíamos ficar. Esse elemento também é importante. Ninguém está a querer desrespeitar regras e normas.

Não estamos a querer arranjar guerra”, desabafou. A senhora que aparece no vídeo confessou que estavam todos indignados com a acção do Executivo. Estavam em Portugal desesperados para regressar ao país, porém, acabaram por concluir que apesar da situação precária lá, estavam em melhor segurança. Considerou que estavam a ser tratados como criminosos. Foram levados a vários locais, mas acabaram por não permanecer por falta de espaço.

Ela dizia que se encontravam, naquele momento, num centro infantil que estava a ser apretrechado para os acomodar. Foram instalados em quartos partilhados com poucas casas de banho. “Todos nós estamos a trabalhar por uma Angola melhor. Temos consciência do que é a propagação desta pandemia, mas sabemos muito bem que ao estarmos aqui, vocês [as autoridades] estão a colocar as nossas vidas em causa”, disse.

Em seu entender, o ideal seria ter-lhes sido concedida a possibilidade de ficarem em quarentena nas suas residências, acreditando que estariam em melhores condições. Enfatizou que são cidadãos dignos que trabalham para o desenvolvimento do país. desabafou que havia no local mulheres menstruadas com dores e sem comprimidos. Haviam também mulheres diabéticas que tinham de cumprir com rigor a hora das refeições, mas não tinham o que comer.

Num outro vídeo alguns deles gritam do interior dos autocarros da transportadora TCUL que pretendem sair do centro. Algumas pessoas se acomodaram nos quatro autocarros e outras estenderam os colchões ao relento para descansarem. Aparentemente mais calmos, num outro vídeo feito na manhã de ontem, o seu autor desabafa que o relógio assinalava ser 10 horas e ainda não tinham recebido o pequeno-almoço. “O que nós queremos, na realidade, é só que as condições melhorem.

Que vamos ficar aqui de quarentena, vamos ficar, porque estamos a sair de um país que tem o vírus e não queremos propagá-lo”, frisou. Sublinhou que por ser também do interesse de todos eles que o vírus seja eliminado, vão permanecer lá em quarentena, “mas temos fome. Precisamos comer. Melhorem só isso”.

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