Os Intelectuais e as Redes Sociais de Internet

Por: JOÃO DEMBA*

No livro Representações do Intelectual de Edward Said, dentre as distintas dimensões que o autor faz em torno do papel dos intelectuais na sociedade, refere que uma das tarefas deste “consiste no esforço em derrubar os estereótipos e as categorias redutoras que tanto limitam o pensamento humano e a comunicação”. Como sabemos, nos últimos tempos, é cada vez mais comum à utilização das redes sociais de internet pelos intelectuais, para tornar comum no meio social as suas reflexões.

No entanto, nem sempre esta acção acontece de forma tão fácil e linear como se pensa, pois, é cada vez mais real a presença de Gatekeepers (indivíduos que determinarem que conteúdo seja tornado público ou não), que nas redes sociais de internet, vão “policiando” quem e o tipo de conteúdos divulgados nestas redes.

Os Gatekeepers das redes vão desde economistas, advogados, sociólogos, historiadores, músicos, politólogos, desportistas… e não apenas jornalistas ou comunicólogos, como comummente se conhece. Os polícias (Gatekeepers), vigilantes ou ainda, agitadores das redes, inclusive nas mais segmentadas, podem exercer um dos dois papéis: (i) orientar a abordagem nas redes – através da divulgação de conteúdos do seu interesse, para alimentar o seu ego, ou até mesmo justificar a posição social, politica ou profissional que ostenta, e (ii) contrair as diversas abordagens nas redes – ainda que sem argumentos válidos e ou coerentes, todo tipo de conteúdos divulgados nas redes com ponto de vista diferente do seu, do adoptado por si ou propagado pela instituição que representa.

“Os intelectuais se situam assim, em dois extremos: ou são contra as normas vigentes ou,
de uma forma basicamente acomodados, para garantir a ordem e a continuidade da vida pública voltadas para os seus e para os interesses de quem representam”. Qualquer um destes papéis que estes intelectuais exercem, em nada contribuem para eliminar estereótipos, esclarecer discursos manipuladores e até hegemónicos, melhorar o conteúdo dos debates sobre questões comuns várias, só para citar estes, tão pouco, contribuem para o tão almejado desenvolvimento económico, social, político, etc. Talvez esta realidade justifique o que escrevera António Gramsci, “todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens desempenham na sociedade, a função de intelectuais”.

Em países do ocidente, por exemplo, e se quisermos hegemónicos, entretanto, diferente da nossa realidade, tem havido alguma preocupação com este tipo de profissionais e de instituições – legalmente constituídas para este fim, que dada à influência que exercem no debate público e na tomada de decisões sobre os mais variados temas, no ambiente social, no comportamento dos indivíduos, um conjunto de procedimentos tem sido adoptado para à profissionalização e regulamentação destes, fundamentais para limitar a esfera e influência social das acções deste tipo de profissionais: Spin Doctors e Lobbistas são assim, dois exemplos que podemos citar.

Segundo Gramsci, o papel do intelectual na sociedade pode ser exercido em dois tipos: (i) os intelectuais tradicionais (professores, lideres religiosos, autoridades tradicionais, escritores, e outras profissões similares de longa data), e (ii) os intelectuais orgânicos (advogados, economistas, jornalistas, sociólogos, politólogos, músicos, desportistas) cuja actividade que desenvolvem é intrínseca ao poder político e ou económico, quer público como privado, com o objectivo de organizar o interesse destes, para que tenham mais poder e possam obter mais controlo social.

Os intelectuais orgânicos movidos constantemente, à caça do lucro, actuam como filtros que delimitam a acção dos indivíduos no quotidiano. Porém, o nosso contexto tem evidenciado a existência de intelectuais tradicionais com este tipo de postura. Para Said, o verdadeiro intelectual, quando movido por paixão e princípios desinteressados de justiça e verdade, nunca é ele mesmo, pois, ajuda a denunciar a corrupção, defende os mais frágeis, indaga e desafia a autoridade incorrecta e injusta, ou seja, contribui para um ambiente melhor para se viver em comunidade.

Assim como há intelectuais que não exercem o seu verdadeiro papel, há também aqueles intelectuais, que apesar das inúmeras dificuldades desenvolvem o seu esperado papel, ou seja, há na nossa sociedade, maus e bons intelectuais. Aos bons intelectuais, num momento tão desafiante para a estabilidade social e económica, a paz espiritual, e não só, numa analogia a “preocupação sobre o silêncio dos bons e o grito dos maus” proposta por Martin Luther King, apelamos ao reforço, continuidade e a intensidade das suas acções, para que o bem comum, a harmonia social, o progresso, possam ser uma realidade o quanto antes, evitando assim, além de outras, que as redes sociais de internet sejam transformadas num campo de inibição de expressões coerentes, e positivas.

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