Yuri Quixina: “A gestão macroeconómica tem todos os ventos contra si”

O professor de Macroeconomia Yuri Quixina disse que o mercado internacional não vai corresponder à emissão de títulos de Angola de três mil milhões de dólares por estar assustado com o Covid-19

O Covid -19 continua na ordem do dia. O Presidente aprovou um Decreto que define medidas de contenção e propagação do vírus. O país já conta três casos positivos. Qual é a sua opinião?

Esperamos que para Angola não passemos dos três e que os três recuperam rapidamente. É importante dizer que o coronavírus é um teste à seriedade dos políticos dos tempos de hoje, a nível global. Quando começou, os políticos mundiais, para além da China não estavam a levar à sério o problema, a ponto de vários presidentes terem ordenado o repatriamento dos seus cidadãos que residiam na China. E como consequência, importaram o vírus. A China desaconselhou, mas os presidentes ignoraram a medida. O mundo precisa de políticos sérios.

Em Angola também está provado que precisamos de políticos sérios. Como justifica essa afirmação?

Diga-me o nome de um só país que quando se despoletou o vírus começou a fazer estudos profundos para que desse cobro a essa situação! Nenhum. Faltou seriedade nos políticos para o Coronavírus.
O estrago já foi feio e a crise instalada. Mas nota-se também comportamentos pouco responsáveis de cidadãos. Que soluções? Mas isso é resultado da falta de seriedade dos políticos. A crise do Coronavírus no mundo dependeu dos políticos sem responsabilidade. E isso também tem a ver com a cultura de cada povo. O povo de Angola não é de seguir regras.

Lembra-me o discurso do Presidente Putin que ameaçou, numa conferência de imprensa, que quem não cumprisse regras, quem não cumprisse os 14 dias de quarentena, arriscava-se a cumprir cinco anos de cadeia. A prevenção deve ser antecipada.

E pelo mundo continuam os estímulos financeiros dos governos à economia.

Você insiste que o mercado não precisa disso?

Claramente.

Ouvi alguns economistas keynesianos a dizerem ‘onde estavam os liberais?

agora os Estados é que estão a tirar a economia do sufoco’. Repara, desde 2008 até hoje os Estados estão sempre a intervir na economia. É esse intervencionismo que está fazer a economia não crescer acima de 3,8%. Não é isso que vai tirar a economia do sufoco, porque o mercado tem muito dinheiro. As taxas de juros estão próximo do zero, outras até negativas. Os títulos da Alemanha continuam negativos. Isso é sinónimo de que o mercado tem dinheiro. Os Estados deviam investir na investigação sobre a cura do Coronavírus.

Mas se as empresas reduzem a produtividade, também reduzem os lucros, há prejuízos…

Quem é empresário sabe como lidar com essas situações. Tem de se reinventar, sabe que há fenómenos que ocorrem nas economias. Quando uma empresa quer financiamento deve
ir a um banco.

Enquanto isso, na Matala, província da Huíla, espera-se uma colheita estimada em 185 mil toneladas de produtos diversos. Vamos precisar de muitas notícias dessas, certo?

O Coronavírus vai obrigar-nos a ir mais para os nossos campos agrícolas, na mediada em que teremos poucos produtos nos próximos três meses, uma vez que quase todas as fábricas no mundo estão paradas. É uma notícia muito interessante. Precisamos pensar em programas de redução de custos dos agricultores.

As estradas são um veículo importante o escoamento desses produtos. Mas aqui, também, uma grande
oportunidade de negócios. Os produtores têm muita produção, mas não podem escoar. E há aqui jovens com carrinhas que poderiam ir à compra desses produtos e distribuir aos centros comerciais. É um nicho de mercado para os empreendedores. Lançamos aqui um repto aos jovens.

Dum total de 15 mil vendedores do mercado do Quicolo, em Luanda, cerca de 75% está fora do sistema financeiro, segundo o chefe de sector de Análise e Acompanhamento de Conduta das Instituições Financeiras do BNA, Mário Camacho. O que isso pressupõe?

Primeiro reflecte que a nossa economia não é sofisticada. E não é tarefa dessa instituição formalizar a economia. No Brasil, por exemplo, há bancos comerciais que vão abrir conta bancária no mercado informal. O sistema bancário devia ser mais competitivo e atacarem esses nichos de mercado. Emprego e formação é o caminho para a formalização de uma economia.

O Presidente da República aprovou, em despacho, uma emissão Títulos da Dívida Soberana nos mercados internacionais, sob forma de “Eurobonds”, na ordem de três mil milhões de Dólares. O mercado tem capacidade de resposta neste momento? Parece azar. A gestão macroeconómica tem todos os ventos contra si. O mercado internacional está assustado com o Coronavírus e não sei se os investidores podem olhar para os títulos de Angola com interesse, para cobrarem taxas de juros baixas. É pouco provável. Mas essa emissão também reflecte que não temos uma estratégia para que o Estado viva dentro das usas posses.

SUGESTÃO DE LEITURA: Título da obra: Desafios para o Século XXI Autor: Paul Kenedy Ano de lançamento: Julho de 1993

FRASE PARA PENSAR: “A falta de políticos sérios num país é sinónimo de descoordenação dos processos, nepotismo e pobreza”, Yuri Quixina economista

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