EMERGÊNCIA DESCUMPRIDA // Mototaxistas trabalham normalmente no ramiro apesar da proibição

Depois de decretado o Estado de Emergência, que começou a vigorar ontem, 27 de Março, com a duração de 15 dias, os mototaxistas teriam de paralisar temporariamente a sua actividade. Contrariamente ao que se prevê, no ramiro, município de Belas, boa parte dos mototaxistas continuam a transportar passageiros

No primeiro dia de vigência do Estado de Emergência decretado por causa do Covid-19, o jornal OPAÍS fez uma ronda na cidade capital para ver até que ponto as obrigações estão a ser cumpridas ou como os cidadãos encarram esta situação emergencial.

Na comuna do Ramiro, por exemplo, onde temos destacada uma equipa de reportagem, constatamos que a maior parte dos mototaxistas não está a acatar com as orientações do Estado de Emergência. Quando deviam paralisar esta actividade de táxi, dado o facto que o passageiro e o motorista ficam muito próximos, o que facilita o contágio do Covid-19, está-se a trabalhar normalmente. Para quem não conhece a comuna do Ramiro, os mototaxistas são diariamente contactados para facilitar a mobilidade, sobretudo, da estrada principal (a conhecida Nacional 100) para as profundezas dos mais variados bairros.

A maior parte dos moradores que ali reside depende desta forma de locomoção. Assim, nas duas principais paragens de mototáxis do Ramiro, nomeadamente a paragem da Bomba da Sonangol e a da Verdinha, pelo menos, até ao meio dia de ontem, 27 de Março, viase estes cidadãos a levar/deixar passageiros. A nossa reportagem registou, em conversa com alguns desses jovens, que eles sabem da proibição temporária, mas que não têm como acatá-la porquanto este tipo de actividade é vista como a única forma de subsistência.

“Não sabemos como vamos fazer, porque nós não trabalhamos num escritório, não temos um patrão que nos paga o salário no final de cada mês. Nós dependemos das pessoas que carregamos todos os dias. É destes 100, 150 ou 200Kz cobrados a cada viagem que conseguimos sustentar a nossa família”, pontualizou, Eduardo, um dos mototaxistas.

Apesar da necessidade de trabalhar, Eduardo está preocupado com a doença, por isso usa uma máscara feita de pano africano num alfaiate da zona. Entretanto, quando questionado se esta era a única forma de prevenção contra o Covid-19 que conhecia, respondeu negativamente, tendo apontado também a lavagem das mãos e o uso de luvas. Quando a conversa desembocava para o contacto com os clientes, já que ao transportá-los na sua mota há maior probabilidade de o contágio acontecer, Eduardo disse que “é só deixar tudo na mão de Deus, mas também não vamos morrer de fome por causa do Corona. Não podemos sentir muito medo”, tendo sustentado essas declarações com um sorriso.

Registo de fraca clientela A insistência dos mototaxistas em trabalhar não está “abençoada”, porquanto as ruas do Ramiro estão parcialmente isoladas e os principais clientes, normalmente os estudantes e encarregados, desapareceram. O primeiro grupo está de pausa e o segundo está a evitar este tipo de movimentação.

Ontem, alguns dos moradores que saíram para trabalhar e que regularmente fazem o uso deste meio de transporte, de dentro para fora do bairro e viceversa, é quem sustentaram o dia dos mototaxistas. Por outro lado, registamos também que a paragem das motas não estava muito cheia de motoqueiros, o que leva a crer que um número significativo destes trabalhadores entende e acata as orientações do Estado, de paralisar temporariamente esta actividade para evitar a propagação do Covid-19.

Enquanto a nossa equipa esteve nos dois locais a acompanhar o movimento dos mototaxistas, não registamos, pelo menos até ao meio dia, alguma intervenção da Polícia (nem a de Ordem Pública nem a de Trânsito). Não se pode dizer o mesmo, quanto aos estabelecimentos comerciais, pois aqueles cuja actividade não consiste na venda de produtos essenciais foram encerrados, como é o caso da loja de plásticos defronte ao BPC do Ramiro, por exemplo.

Taxistas andam com lotação acima da exigida

Da mesma forma que os mototaxistas não paralisaram a sua actividade, embora não tenha sido pedido o mesmo aos taxistas, os vulgo azul-branco do ramiro não obedecem o número exigido de passageiros, por cada viagem

Normalmente, no período entre as 6h e as 9h da manhã, as paragens do Ramiro registam uma enchente, principalmente de trabalhadores que lutam para conseguir um táxi. Dado o pouco número de taxistas que trabalhou ontem, o táxi estava difícil e as pessoas não mediram as consequências de lotar todos os lugares do vulgo “quadradinho”.

Chama-se atenção para que os Hiace não transportem mais do que sete passageiros, de formas a se ter em atenção o distanciamento entre os mesmos, para a sua segurança, já que não devem estar a menos de um metro de distância.

A Comissão Instaladora do Sindicato dos Taxistas de Angola fez sair um comunicado no qual apela o bom senso dos entes patronais na compreensão da tarifa diária exigida, a ser aplicada enquanto durar o Estado de Emergência. “Para os carros diesel a tarifa fosse reduzida a 12 mil Kz e para os carros a gasolina 10 mil Kz por dia”, lê-se, no comunicado, para além dos outros aspectos, como a observância das medidas de bio-segurança e obediência as abordagens policiais.

Trabalhadores da Elisal reclamam por meios de biossegurança

Os trabalhadores da Empresa de Limpeza e Saneamento de Luanda (ELISAL) reclamaram, ontem, devido a falta de meios de biossegurança para o exercício das suas actividades. A reclamação dos trabalhadores surge face ao incumprimento, por parte da direcção da empresa, das medidas impostas pelo Executivo sobre a prevenção da pandemia Covid-19.

O operador de recolha de resíduos sólidos da Elisal, Agostinho Neto, declarou, à Angop, que os trabalhadores estão numa condição de vulnerabilidade e expostos a uma eventual contaminação do Covid-19, visto que saem à rua sem o material de protecção. O segundo secretário do Sindicado dos Trabalhadores da Elisal, Francisco Muondu, disse, a aludida agência, que os meios de biossegurança deveriam estar disponíveis para os operadores de recolha de lixo, à semelhança do que ocorre em outras instituições públicas.

Lamentou o facto de estarem a ser equipadas as unidades hospitalares sem pensar em instituições como os da recolha de lixo. Francisco Muondu referiu que não adianta proteger as comunidades se os trabalhadores do saneamento e outros similares estiverem desprotegidos durante este período da pandemia. “Ainda não recebemos nada para a prevenção contra a epidemia.

Estamos sem mascaras, luvas e água com sabão para lavar as mãos nos acessos do estaleiro ou recinto de trabalho”, explicou. No exercício das suas actividades de recolha do lixo, disse, os trabalhadores lidam com animais em estado de degradação e material hospitalar. A propósito, o chefe de departamento de comunicação da Elisal, Pedro Faica, disse que apenas esta sexta-feira foram colocadas à disposição dos trabalhadores equipamentos de biossegurança.

“O Conselho de Administração fez um esforço e forneceu luvas, mascaras e batas para que os homens trabalhem em segurança “, explicou. Referiu que a Elisal tudo está a fazer para que os trabalhadores possam estar em segurança para prevenir a Covid-19.

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