Isilda Hurst // Uma historiadora que tornou-se uma contadora de estórias

Dramaturga, realizadora, professora e curadora de Arte, Isilda Hurtst é também guionista para o Canal Vida TV. Com uma experiência de mais de 25 anos e colaboração em várias produções nomeadas para prémios conceituados como os Grammy, Isilda acredita que tem ainda muitas cartas a dar no sector do áudio-visual em Angola

Por: Estefânia Sousa* 

O percurso de Isilda Hurst está dividido entre Angola, onde nasceu há 53 anos, e Portugal, onde viveu em diversas fases, juntamente com as suas quatro irmãs. Proveniente de uma família de mulheres fortes e interventivas, desde cedo teve de ocupar uma função decisora no seio da família, fruto da ausência da sua mãe As artes sempre estiveram presentes na sua vida, visto que o pai é músico e a mãe bailarina. Ainda assim, quando terminou o ensino médio, o seu sonho era ser advogada mas não tendo sido admitida no curso de Direito, decidiu ir para a Holanda, para aprender a língua e ingressar na universidade nesse país. Dois anos depois regressa a Portugal, onde conseguiu entrar na Faculdade de Direito, mas o curso acabou por ser uma desilusão.

“História” acabou por ser a alternativa natural, tendo em conta a área em que estava, e não se arrependeu. Após terminar a licenciatura trabalhou como bailarina, casou-se e foi no período sabático da gravidez da primeira filha que começou a escrever a sua primeira peça. Mostrou-a ao então marido, Miguel Hurst, que lhe deu uma crítica bastante positiva. A partir dessa data começou a dedicar-se à dramaturgia, tendo assinado cinco peças para instituições cultuaris de renome em Portugal, tal como a Culturgest e o Centro Cultural de Belém.

O Regresso a Angola Em 2006, Isilda e o então marido foram convidados pelo então viceministro da Cultura, André Mingas, para regressar a Angola, juntamente com outros quadros na diáspora. Nessa altura, começou a colaborar com a TPA sob a direcção de Fernando Cunha. Não tendo nenhuma experiência em escrever para televisão, a migração para esta indústria acabou por ser mais natural do que inicialmente pensava.

No percurso, chegou a escrever um episódio por dia para a novela “Sede de Viver”, passando por “Minha Terra Minha Mãe”, “Vôo Directo”, “Conversas no Quintal”, passando por experiências de realização, com o documentário “Ritmos Urbanos: Melodias de uma Identidade”, e com o programa de televisão “Estrangeiros em Angola”. Além disso, foi guionista de outras produções, nomeadamente “Windeck” e “Jikulumessu”o ou da “Série República”.

Uma Estória com História Conversar com Isilda é perceber a sua paixão pela História, mas também por conceptualizar e desenvolver estórias, criar personagens ricas, dar-lhes vida e transformálas em pessoas reais. Talvez por isso, revele com naturalidade que o processo de pesquisa e documentação para o filme “Njinga, Rainha de Angola”, de 2014, foi o maior desafio e conquista da sua carreira até ao momento.

O rigor e a responsabilidade implícita, exigiu um esforço imenso, com mais de um ano de pesquisas sobre tudo o que existe acerca daquela que é considerada a 2ª maior rainha de África, e cerca de sete meses a escrever uma mini-série de cinco episódios com 50 minutos, que permitisse resumir a história de vida intricada e com muito legado desta grande estratega angolana. A apresentação do projecto final a historiadores e diversas pessoas ligadas às artes, com uma crítica bastante positiva, deu-lhe a confiança para saber que estava no caminho certo. Foi feita toda a análise da época, desde o ambiente ao guarda-roupa para tentar garantir a maior aproximação possível do reino de Njinga.

Todavia, os esforços de produção que exigia a série, num país em que não havia produção naquela escala, obrigaram-na a fazer adaptação para o cinema, que seria mais exequível. No entanto, Isilda, para quem o trabalho árduo e dedicação acabam sempre por gerar frutos, não desiste, acreditando que ainda vai conseguir produzir este material. Como referências que a inspiraram, além do pai e da mãe, identifica Ana Maria Mascarenhas, compositora e letrista, Ariel de Bigot, sua amiga artista e muito dedicada à cultura africana e Raúl Indipwo, que foi seu tutor legal e uma enorme referência para a sua formação cultural, desde a música clássica ao teatro ou cinema e até botânica.

Um optimismo contagiante Com uma fluidez de pensamento e uma constante teia de enredos por escrever, Isilda tem como objectivo conseguir realizar todos os projectos escritos que tem alinhavados e conceptualizados. Acredita que o sector do áudio-visual precisa de uma rede funcional que faça a ligação entre o financiamento, produção e distribuição, mas está confiante de que há muito talento bruto para transformar a indústria criativa angolana numa fonte de contribuição para o desenvolvimento da cultura e da economia do país. Para tal é preciso investir na leitura, em papel, começando pelos grandes clássicos da literatura angolana e perseverar para conseguir realizar os sonhos.

*Gentileza Vida TV

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