Antigo jornalista do Cultura II e do ABC, ex-membro da Sociedade Cultural de Angola, Adolfo Maria é um nacionalista angolano que participou na luta anticolonial. Em alguns dos seus livros, o ensaísta aborda o processo que culminou com a independência nacional. A entrevista que se segue teve como pano de fundo o seu livro Angola – a Hora da Mudança, (Edições Colibri, Lisboa, 2019) onde o autor aborda, entre outros assuntos, o jornalismo exercido no período colonial

Por:João Ngola Trindade

Trabalhou no ABC, no entanto, as autoridades tudo faziam para o que O Diário de Luanda saísse à rua muito antes do vosso jornal… Trabalhei nesse jornal cerca de um ano: de Abril de 1961 a Março de 1962. O director era Machado Saldanha e o chefe de redacção Acácio Barradas. O meio mais efi caz de as autoridades atingirem o jornal ABC era o gabinete de censura cortar vários textos e, sobretudo, demorar a entregar os textos censurados para podermos publicá-los. Isso e o facto de termos de os refazer conforme os cortes da censura fazia com que o fecho da edição para a impressão ficasse atrasado.

Esclareço que a composição era feita em chumbo através do método intertype, método quase inimaginável no mundo da actual tecnologia de composição e impressão). Assim, muitas vezes, o jornal ia para as mãos dos ardinas cerca das seis horas ou seis e meia da tarde, impossibilitando a sua compra pelas pessoas que habitavam os musseques ou mesmo pelos habitantes da zona da Baixa (recordo que os serviços públicos encerravam às cinco da tarde e o comércio às seis). Deste modo, o único jornal da tarde disponível à hora de as pessoas regressarem dos seus empregos a casa era o Diário de Luanda, o órgão do partido fascista português. Pelo seu conteúdo, este jornal não tinha problemas com a censura, logo era mais rapidamente despachado pelo gabinete de censura que, por outro lado, além do tempo gasto para examinar cuidadosamente o material do ABC, demorava a entrega dos textos já examinados.

Era obrigatório enviar cada edição do jornal às autoridades antes que ela fosse à gráfi ca e a rua?

O regime político que vigorava em Portugal e suas colónias (Angola uma delas) era uma ditadura que proibia partidos políticos e impedia a liberdade de expressão de várias maneiras. No que respeita à comunicação social (naquele tempo só havia imprensa e rádio, não havia televisão) existia, como acima referi, um organismo que realizava a censura prévia. Ou seja, nada podia ser publicado sem antes ser enviado a esse organismo que ora cortava frases inteiras nos textos, esvaziando ou deturpando o seu conteúdo original, ora, pura e simplesmente, traçava uma cruz com o lápis azul sobre todo o texto com a indicação de proibição de sua publicação na totalidade.

Lembra-se do “caso Alfredo Margarido”, proibido de regressar a Angola por ter escrito um artigo anti-colonial?

Creio que Alfredo Margarido foi expulso de Angola para a “Metrópole” (Portugal) por “actividades inconvenientes” ao regime. Juntamente com o artista plástico surrealista Cruzeiro Seixas, ele frequentava assidua e ostensivamente os musseques onde, junto das pessoas, procurava obter conhecimentos sobre a cultura popular angolana. Não sei se, depois, tentou voltar a Angola.

Lembra-se de alguns artigos, editoriais ou reportagens de cariz racista publicados no Diário de Luanda?

A esta distância no tempo, sessenta anos, não posso recordar textos aparecidos nesse jornal. Lembrome que o tom geral dos seus editoriais, artigos de opinião ou notícias era de constante exaltação da “missão civilizadora de Portugal” e das “virtudes” e obras do regime político em vigor. Este jornal era, em Angola, o órgão do partido único português, chamado União Nacional, portanto era a voz oficial do regime colonial-fascista.

Curiosamente, foi no Diário de Luanda onde Castro Soromenho trabalhou de 1936 a 1937. Um dos artigos deste escritor e jornalista, publicado neste jornal, intitula- se “Duas literaturas – a literatura como factor de mentalidade colonial” (14.02.1937).

Atenção! Só nos anos 1950 é que o jornal Diário de Luanda passou a ser o órgão do partido fascista português União Nacional. Antes disso era um jornal diário vespertino “normal”, a par dos dois jornais diários matutinos: A Província de Angola e O Comércio. Quando apareceu o vespertino ABC, passou a haver quatro jornais diários em Luanda; saíam dois de manhã e dois à tarde. Não conheço o texto que menciona.

Será que estamos diante de um jornalista e de um escritor imbuído do espírito colonial?

Não conheço os artigos que publicou em 1936 e 1937 no Diário de Luanda. Procurando ver o contexto da época, não surpreende que um funcionário da Administração Colonial portuguesa, tivesse uma visão, pelo menos imperial, das terras e das gentes sob o domínio de Portugal. Contudo, através dos livros de Castro Soromenho, vê-se que ele se foi debruçando com interesse crescente sobre usos e costumes das gentes angolanas. E tal sucedeu apesar da vigorosa e fanática actuação do regime salazarista quanto à questão colonial.

O “bárbaro” e o “selvagem” são adjectivos que Castro Soromenho atribui ao negro em várias obras como Homens Sem Caminho e Noite de Angústia. Na trilogia de Camaxilo o autor dá voz aos colonos brancos que consideram Angola o “cu do mundo”, o “fim do mundo”, uma terra empestada de “mosquitos”. Serão estes os motivos pelos quais a obra deste autor seja considerada literatura colonial?

Numa obra literária, a descrição de comunidades ou indivíduos implica a reprodução de como agem e pensam, as suas ideologias, os conceitos e imaginários que os enformam. Os colonos, que são os dominantes num país que é colónia, têm, em geral, uma relação de estranheza com a natureza do país. O mesmo sucede quanto à sua percepção das gentes nativas, que são as dominadas e vistas como inferiores.

Embora seja considerado um escritor colonial por críticos como Mário António e Luís Kandjimbo, Samba, um dos contos de Castro Soromenho, foi incluído na Antologia dos Contistas Angolanos, editada pela Casa dos Estudantes do Império (1960) e a trilogia de Camaxilo foi editada no período pós-colonial em Angola. Não sei que critérios foram utilizados para a sua publicação. Possivelmente foi reconhecido valor literário nessas obras que descrevem paisagens e gentes angolanas, seus modos de vida, costumes, sofrimentos e comportamentos. Quanto à catalogação de Castro Soromenho como escritor, há que ter em conta o conjunto da sua obra, a evolução do seu pensamento e da sua postura política ao longo do tempo em que escreveu. Antes de se rotular o escritor há que dissecar a sua obra e o contexto em que foi produzida.

Segundo Paulo Jorge, Castro Soromenho colaborava no sector da documentação/correspondência do MPLA, colaborando na redacção de documentos como comunicados. Conheci Castro Soromenho no minúsculo apartamento de Mário Pinto de Andrade, em Paris em 1959, numa breve passagem que ali fiz, em viagem de missão política nacionalista. Ele era amigo do Mário e do Marcelino dos Santos e, embora ligado à oposição portuguesa, interessava-se profundamente pela nossa luta. Mais tarde, em 1962, quando fui para o exílio e estive alguns meses em Paris, voltei a encontrar Castro Soromenho que convivia intensamente com Inocêncio da Câmara Pires, o representante semi-clandestino do MPLA na capital francesa. Possivelmente que colaborava com o Câmara Pires na redacção de comunicados e nos contactos com alguns jornais franceses e outros internacionais.

Há também testemunho de que ele participou na divulgação de escritores angolanos, como Agostinho Neto, e de obras de outros autores angolanos.

É natural, porque Castro Soromenho tinha contactos com intelectuais de vários países nomeadamente franceses, ingleses, russos, brasileiros e portugueses (no Brasil era editado o jornal da oposição portuguesa ao regime salazarista Portugal Democrático, onde se falava da questão colonial e eram publicadas notícias sobre a luta nacionalista nas colónias portuguesas e textos de personalidades dessa luta).

Apesar de tudo isto, a imagem de agente colonial (recrutador de mão-obra e funcionário colonial), presente na mente de alguns contemporâneos seus, condicionou negativamente a apreciação feita a sua obra?

Assim sendo, parece-me que só se quer encarar uma parte do percurso de uma pessoa e não o seu todo. Castro Soromenho foi durante uma parte da sua vida funcionário administrativo (como foram vários angolanos). Sabemos que, nessa situação, tinha as funções que o João Ngola mencionou. Interessa ver também como ele as exercia: se com zelo colonialista, se apenas como funcionário. Há um outro aspecto: esse funcionário administrativo observava as pessoas que tinha como função “administrar” e escrevia sobre elas. Essa observação levou-o a interessar-se pelos seus próprios modos de vida, matéria para romances e outros escritos. Mais tarde, o tal funcionário da Administração Colonial torna-se militante oposicionista ao regime fascista português e é companheiro de exílio de personalidades que combatem o colonialismo português: Marcelino dos Santos, Câmara Pires, Mário de Andrade. Na minha opinião, estes factos não nos levam a uma opinião negativa sobre Castro Soromenho, quer como indivíduo, quer como escritor.

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