‘Os negócios nunca mais serão iguais’

Optimista por natureza, Tomasz Dowbor é o presidente do Conselho de Administração do Grupo Boa Vida, um conglomerado com interesses nos sectores da construção civil, agricultura e indústria. Como todos os outros empresários e grupos, ele também está consciente dos entraves provocados pelo momento actual por que passa a economia nacional e mundial. Tudo por causa do coronavírus. Mas, apesar disso, acredita que este período deve ser aproveitado com inteligência porque algumas oportunidades se irão abrir, garantindo que os sectores da saúde e das tecnologias de informação são os que mais devem crescer nos próximos tempos. Pisca o olho à banca e ao Executivo, mas destaca a necessidade de se investir seriamente no agronegócio

Por:Dani Costa

O que pode representar a COVID 19 para a economia angolana?

A onda do vírus tem os seus efeitos directos na saúde da nossa sociedade, mas acima de tudo ela tem e terá cada vez mais crescente impacto na economia. Porque a economia é movimentada através de um motor de consumo: quando há consumo, quando há pessoas a comprar os bens, então surge a proposta que é a oferta, surge empreendedorismo, empreendedores, empresários que proporcionam os produtos que estão sendo procurados, consequentemente surgem lojas, empresas, indústrias. Isto é tudo que vai atrás de soluções geradas na demanda pelo consumo.

Até que ponto a doença poderá estrangular o deficitário sistema económico já existente no país?

Com as restrições do estado de emergência reduziremos de forma significativa o consumo. Não imaginamos que alguém agora se vá endividar para comprar um carro, um sofá ou uma televisão ou outros bens de consumo normal. Isso impactará directamente no volume dos negócios dos empresários ou da economia de uma forma geral. Portanto, o volume de consumo será reduzido de forma significativa e radical nos próximos dias e semanas. O impacto na economia será substancial. O coronavírus e as restrições impostas pelo Executivo, para salvaguardar ou nos precaver do vírus elas abrandam, travam e impedem o funcionamento normal da economia. Por esta razão, devem surgir novas soluções.

Como é que as empresas devem lidar com esta situação?

Estamos a viver um momento de estado de emergência, onde o Executivo assume o papel de orientador e mandatário de todos os processos, incluindo de empresários e especificamente economistas. Nossos direitos serão restringidos de acordo com regulamentos parciais. Portanto, temos de estar atentos e devemos nos adaptar de uma forma elástica, de acordo ao que é permissível. Mas, a vida não pará. A vida empresarial vai abrandar sim, mas nós temos de ter essa capacidade de adaptabilidade para poder gerar soluções que vão se encaixar e que nos permitam prosperar e desenvolver os negócios exequíveis dentro deste cenário, obviamente, observando as recomendações do Governo. Esta profunda baixa, que se vai gerar na economia, provocará o abrandamento e o vácuo específico que vai permitir uma explosão com maior velocidade quando esta crise passar, sendo ela temporária de acordo com toda a previsão, não só do Governo, como também da Organização Mundial da Saúde (OMS). A economia, com certeza, vai ter essa oportunidade de decolar depois de todo sofrimento e todas dificuldades que vamos passar diante dessa crise.

Temos ouvido regularmente que as crises são momentos para se fortalecer as instituições. A dimensão dos estragos causados pelo coronavírus permitirá o surgimento de instituições mais fortalecidas?

Empresas devem focar naquilo que é possível neste momento. Se os trabalhadores estão a ficar em casa, se têm restrições de locomoção impossibilitam as reuniões comerciais, então comecem o dia com reunião online, traçem uma agenda, aperfeiçoem aquilo que sempre foi o nosso ponto fraco que é a organização interna das empresas, as rotinas, procedimentos, sistema de gestão. É o momento de gerar todos os trabalhos ligados à avaliação de desempenho diário semanal e mensal. De organizar empresas, focar no desenho, na estrutura, na implementação que se pretende como a empresa de sonho, no que se pretende numa empresa que quer ser a melhor do mercado e organizar. Nós sempre pecamos neste sentido e é exactamente uma excelente oportunidade para se preparar quando a economia abrir.

Em alguns países, o serviço de entregas registou um crescimento. Até que ponto esta área terá influência face ao problema que vivemos?

Nós não temos influência daquilo que está a se passar no mundo. Nós só estamos a seguir as recomendações do Governo que nos ajudam na prevenção contra o vírus, mas, nós como empresa, temos de focar naquilo que é o essencial: estrutura da organização, que é a capacitação das pessoas, se nós reclamamos que as pessoas não são capazes, não têm performance, este é o momento de você diariamente, de uma forma disciplinada, orientar os trabalhadores para aumentas as suas capacidades profissionais todo conteúdo que está disponível online. Nos Estados unidos, nas universidade de Havard, Oxford e no Brasil, todos os cursos estão online e são gratuitos. Aproveitandose estes dias e semanas, é possível orientar-se o trabalhador paraa que faça uma grelha de programação de actividades diárias do que é possível em termos de cursos, habilidades em termos de livros e de auto capacitação. É uma grande oportunidade para quando sair da crise sair com habilitações.

Quais são os sectores mais prejudicados com esta situação do coronavírus? Será possível observarmos o surgimento de novas áreas de negócios?

Mundo está a entrar numa modalidade de funcionamento totalmente destinta. As restrições impostas mundialmente aceleraram rapidamente o processo de tornar todo o negócio online, incluindo as entregas. Os Estados Unidos já criaram uma forma de protecção nos sistemas dos drones, que por via área efcetuarão entregas. Todo processo vai-se acelerar drasticamente agora :para evitar contacto, para seguir ou cumprir restrições. Tudo que for possível entregar , será entregue desta forma em Angola. Não será diferente os aplicativos relacionados à intermediação dos serviços, que precisaremos em casa e para o serviço, passará um boost que será uma oportunidade para os jovens empreendedores poderem garantir o que a sociedade precisar.

Quais são os passos que o Estado deve tomar no sentido de preservar os empregos? Estamos à espera dos regulamentos do governo que vai detalhar exactamente a paralisação dos sectores que não são essências. Evidentemente, a economia esta a abrandar de uma forma geral, por isso penso que o sector da saúde e os serviços online terão oportunidade de crescer e ter desenvolvimentos diferentes e outros métodos de actuação. O sector petrolífero vai permanecer, embora abrande. Outros serviços vão abrandar, mas não se pode dizer hoje que um sector especificamente vai parar. Isso depende muito do comportamento e atitude individual das empresas, dos seus lideres e das pessoas. Penso que grande boost é fácil prever: boste nos conteúdos online, cursos , livros, treinamentos, palestras eventos organizados com formato online , para nos conectarmos, traçarmos as pontes de comunicação e interligação das trocas de sms e experiência e conteúdo nas plataformas online. O mundo está a fazer uma aceleração profunda que vai até 2021 em diante, os negocios nunca mais serão iguais. Será uma mudança radical.

É fácil uma empresa preservar os postos de trabalhos depois desta fase?

Alerta é para os indivíduos trabalhadores e colaboradores que há uma oportunidade para eles não ficarem parados, para se desenvolverem e capacitarem. O Estado exerce um papel essencial na preservação dos empregos, onde através do regulamento permite a actuação dos empresários, com todas as restrições, evidentemente, respeitando as regras e possibilitando a actuação, quer seja mínima da actividade, mantendo a viabilidade dos serviços prestados às empresas, porque o momento é crítico para economia de uma forma geral.

As empresas são responsáveis pela geração de postos de trabalho e nesse momento crítico precisam do apoio do estado no sentido de permitir a mínima actividade, a mínima prestação de serviços, de tal forma que seja possível pagar os salários. Empresas sem actividades comerciais, sem nenhuma actividade, não serão capazes de pagar o salario, o que vai implicar uma onda brutal de desemprego, uma crise que a gente deve evitar através de uma visão do estado que vai implicar e respeitar a obrigatoriedade de manter as actividades comerciais do sector privado.

Alguns bancos reduziram as taxas de juro, outros estenderam os prazos. São medidas acertadas?

A O sector bancário é crítico e essencial na economia. Para a saída da crise, é fundamental a injeção e capitalização dos créditos e dos produtos que podem movimentar a economia. Essas atitudes são absolutamente de louvar e devem ser multiplicadas e exemplifi cadas como atitudes corretas diante de uma crise nacional. Esse comportamento dos bancos visa exactamente incentivar a manutenção das actividade empresarias e visualizar o crescimento pós-crise. O papel bancário e as suas taxas de juros determinam a velocidade com o qual a economia se desenvolve .

Como se pode resolver o problema das pessoas que vivem do mercado informal durante este Estado de Emergência?

A economia, na maioria das vezes, funciona no mercado informal, como podemos apreciar os exemplos de grandes economias. Na Índia, por exemplo, onde vive mais de 1.000.000 de pessoas, mais de 60% do comércio é informal e existe um formato e modalidade que respeita a prevenção contra a doença. Permitem o funcionamento dos mercados informais, mantendo distanciamento, através da lavagem das mãos, uso de máscaras , luvas e outras medidas que foram testadas e deram certo.

Elas permitem encontrar exactamente esse meio termo entre a prevenção, manutenção e prevenção nas actividades empresariais. Penso que nos devemos inspirar nisso e multiplicar os exemplos que deram certo. O exemplo da Índia é bem sucedido, porque conseguiram conter a propagação do vírus mantendo a mínima actividade do mercado informal. Portanto, é o papel único do governo eliminar e explicar a população a necessidade e obrigatoriedades dessas prevenções. São medidas que visam incentivar e implementar melhorias ali onde as pessoas desenvolvem as suas actividades.

Qual deve ser o papel da sociedade e dos empresários nesta luta que é dirigida pelo Executivo angolano?

Bancos como o BFA e o BNI fizeram doações para a compra de ventiladores e outros produtos, o que se pode esperar dos pequenos e grandes projectos? Nós, Grupo Boavida, sempre tivemos actividades ligadas a ação social. Sempre pensamos que existe uma responsabilidade acrescentada em qualquer actividade empresarial, desde olhar para o seu vizinho , à sociedade, às pessoas e aos grupo mais vulnerável diante desse desafi o do coronavírus. Agora mais do que nunca, penso que temos de ter essa sensibilidade acrescentada, uma sensibilidade mais virada para as pessoas que vão sentir essa crise mais do que nós.

Não se trata de uma questão só dos empresários, mas sim de todos, enquanto cidadãos, temos que ter esse olhar mais atento e uma atitude mais empática para as pessoas que vão ter dificuldade de encontrar soluções, que terão, certamente, um sofrimento quase que absoluto. É preciso dotá-los de coisas básicas, comida, e só desta forma vamos perceber a grandeza e responsabilidade de cada um de nós. E assim quero apelar que diante desse desafi os tenhamos essas iniciativas indivíduas ou colectivas, que vão permitir estruturar micro iniciativas, comunais, iniciativas a nível do lugar onde tu moras ou actuas, que vão ajudar as pessoas mais vulneráveis.

É o PCA do grupo Boavida. Há pouco tempo já se falava no despedimento de vários trabalhadores. Com esta crise, como é que está o grupo?

Grupo Boa Vida adoptou e adopta diariamente a sua rotina diante das difi culdades e das circunstancias que estão a mudar rapidamente. As nossas rotinas e actividades adequam-se em função de todas a recomendações e mudanças que assistimos diariamente. Mas não paramos nnem vamos parar. Nós somos empresários, somos uma empresa bem sucedida, nós temos uma atitude diária de se adaptar e acima de tudo de se reinventar e gerar novas soluções. As soluções existem. Elas não são ainda conhecidas, mas têm de ser concebidas, inventadas, estruturadas e implementadas. Cada crise é uma uma oportunidade para se encontrar soluções mais sofisticadas. Então, resumidamente, o grupo Boa Vida está bem e com um plano de contingência, que restruturamos e temos a absoluta certeza de que vamos sair dessa crise mais fortes e organizados.

Mantêm os mesmos planos de diversificação de negócios ou a crise provocada pelo coronavírus alterou as vossas projecções?

Ele tem de ser adequado de acordo com as circunstâncias actuais. A crise trouxe na superfície um problema que já tínhamos mapeado, que é a produção e o fornecimento de comida. O país continua a viver baseado na importação e essa crise nos mostrou a obrigatoriedade e uma grande oportunidade de apostar nos agro business. Mais do que nunca vamos sentir cada vez mais a necessidade da produção nacional e novos planos estratégicos de actuação dentro desse cenário. Com uma maior visibilidade, a crise trouxe essa necessidade de aposta no desenvolvimento, aumento e aplicação das nossas actividades nas áreas agroindustriais. E esse será o nosso objectivo de curto e médio prazo.

Não havendo dinheiro, certamente, o sector imobiliário ficará, uma vez mais, adormecido. O que vão fazer com os projectos que têm?

O abrandamento geral da economia dos últimos tempos, agora a crise do coronavírus, e consequentemente a crise económica mundial e nacional , ela apenas cria um vácuo porque as pessoas sempre vão precisar de casas. Essa procura não baixa. Ela cresce. Evidentemente, as condições extraordinárias exigem uma capacidade geral de soluções. A maioria das empresa vão falir, vão fechar, não conseguiram se adaptar, nós dentro do grupo Boa Vida adoptamos medidas para atravessar a crise:

vamos gerar nossos produtos mais adequados aos tempos difíceis que nós como empresa e a sociedade também está a passar. Portanto, estamos convencidos de que essa nossa abordagem, novos produtos e novas modalidades de pagamentos vão canalizar a procura existente na sociedade. Para nós, a restrição fez com que outras empresas fechassem e abrandassem as suas actividades. Mas é uma oportunidade para o grupo estar à frente deste processo de mudança. Uma mudança dessa necessidade de restruturação, de repensar e reconhecer as ideias e soluções que serão mais adequadas aos tempos de crise que estamos a passar.

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