Destruição de mercados do Lobito “pode comprometer o estado de emergência”

Com a destruição dos principais mercados da sede do município do Lobito, em Benguela, a população poderá fazer-se aos antigos espaços, alegadamente em defesa dos seus haveres e a procurar alternativas para alivar as carências alimentares, segundo o sociólogo Juka Manjenje

O sociólogo e académico Juka Manjenje disse que a destruição de mercados, um acto da responsabilidade da Administração Municipal do Lobito, põe expostos os munícipes a uma pandemia que se quer evitar, por um lado, e, por outro, desafia o Decreto Presidencial, obrigando as pessoas a saírem de casa em defesa do seu património. “Isso pode levar a uma desobediência civil que poderá consolidar a intenção de repressão das autoridades. As pessoas em nada se vão importar com as ordens superiores, porque, a esta altura, a fome terá lançado a moral pela janela fora e o poder arrogante da farda vai impor ordem ao estômago vazio”, disse. Destruir uma praça, a meio da noite, sobre o sono dos feirantes, num estado de emergência devido à pandemia causada pelo Covid-19, segundo o académico, pode alarmar ou propagar o referido vírus, porque, em resposta a essa atitude da Administração Municipal, as pessoas estão a acorrer ao lugar dos destroços, criando, deste modo, aglomerações, com o objectivo de salvaguardar o resto de suas tendas ou barracas.

Como consequência, as pessoas podem reagir de forma descontrolada ou não participar em actividades sociais de massas, quando forem devidamente convocados, por conta da falta de capacidade de diálogo público por parte das autoridades locais, que não tiveram a amabilidade de conversar e convencer atempadamente os feirantes sobre o timing e os moldes pelos quais passariam a desactivação e a transferência dos comerciantes para outra zona escolhida pelo Estado. “Se as nossas autoridades se sentem no direito de fazer tudo sem uma consulta púlblica em tempo útil, a população também se poderá sentir no direito de negar o seu apoio social, quando solicitado. É a inevitável lógica do trinómio causa-situação-efeito, que pode confundir a violência como um hábito administrativo, a julgar pelas últimas decisões do género ao nível local.

Vale lembrar que ocorrência do género não foi só com o mercado do Chapanguele, mas também com o do Compão, onde foi ateado fogo, sob o controlo cerrado de homens com armas de fogo nas mãos. Do ponto de vista económico, teme-se que, na possibilidade de haver um prolongamento de mais 10 ou 15 dias do estado de emergência, as pessoas possam esgotar os seus matimentos e tenham poucas possibilidades de aquisição. Não terão como comprar os produtos próximo, porque não terão quem os vende aí, suscitando- se, assim, uma autêntica romaria às ruas do Lobito. Outro mercado em dívida Das promessas de um dirigente afecto à Administração Municipal do Lobito, de que OPAÍS teve conhecimento, constaram a garantia da criação de condições para todos os feirantes, incluindo os do mercado da Calumba, no bairro São João, na zona dos mangais adjacentes ao Bairro Africano.

É nisso que Juca Manjenje não acredita, sobretudo que uma administração que se queixa frequentemente da falta de dinheiro consiga, em menos de uma ou duas semanas, acomodar a demanda de vendedores provindos de três mercados. “Arranjar um espaço mais cómodo seria apenas fotografias para o facebook e esperar que as mãos invisíveis de Adam Smith façam o resto”, ironizou. Do ponto de vista de património histórico, temos que admitir que “essa praça é o Lobito e o Lobito é essa praça”, disse. Referiu que não é a primeira vez que os dirigentes da cidade portuária lutam para tirar os feirantes desse espaço que já existe há mais de 40 anos. Acrescentou que a morte de uma história é o fim da sociedade, tendo ponderado, porém, que “a menos que seja intenção apagar as marcas da nossa economia informal, que, vista com os olhos da justiça e da verdade, sustenta a economia formal”.

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