Dog Murras: “Vemos as novas gerações cada vez mais perdidas das bases africanas”

Numa conversa transversal com este jornal, o músico dog Murras, que prepara o seu próximo álbum de originais que se vai intitular “Argola de Ouro no Focinho do Porco”, ao mesmo tempo que apronta a sua segunda obra literária, “Todos Contra Todos” (sem datas previstas), fala da situação que o mundo enfrenta face à pandemia Covid-19 e apela aos fazedores de arte a puxar mais pela veia criativa de acordo com os desafios actuais, tirando melhor proveito das plataformas digitais

O país e o mundo no geral hoje vivem uma situação difícil e de extremo aperto. Qual em sua opinião deve ser o papel do artista?

A Covid-19 é uma pandemia que em poucos meses alterou o curso da história e vai mudar os nossos hábitos, costumes, bem como a nossa forma de ser e estar. Neste momento, precisamos de estar unidos e são chamados, não só os cantores, mas todas as figuras públicas, desportistas, instrumentistas, pintores, actores, escritores, agentes da Polícia, doutores, palestrantes, humoristas, digital influencers, opinion makers, todos os angolanos que têm uma forte conexão com a comunidade, a usar o seu capital simbólico e carisma para orientar aqueles que estão perdidos, sem saber como agir agora.

Considera que deva ser uma missão de todos?

É uma missão patriótica, temos que olhar para o mundo, pesquisar o que acontece, como os outros estão a combater e a vencer esta pandemia, e servirmos de modelos para indicar ao nosso povo, o caminho, a postura e atitude inteligente para atravessarmos sem stress, esta fase crítica. E por agora, a recomendação máxima é: Fiquem em casa!!! Quem tem o privilégio de ficar em casa, náo está isolado, está protegido.

O mercado foi atingido e obviamente a indústria artística. Que alternativas os artistas podem criar para continuar a sobreviver?

A economia global foi sacudida, os pilares que sustentam as sociedades contemporâneas foram colocados em xeque e todos os sectores que geram renda foram atingidos, mas estamos na era 4.0, na era da Informação, o mundo está a um click da nossa vontade, agora é hora de cada grupo abusar da criatividade e desenhar novas formas de sobrevivência para agora e para a fase pós-pandemia. A Internet já é a via que facilita a vida dos artistas mais avisados, portanto a minha chamada de atenção para os artistas locais é que acordem! Deixem de usar a net para a promoção de baixaria, rixas, lutas, beefs, é possível tirar melhor e maior proveito das nossas plataformas digitais.

Acredita que a Internet possa ajudar os artistas angolanos mesmo com o facto de o país não ser coberto em grande escala por esse serviço?

Infelizmente, em Angola e noutros países africanos o povo não tem dinheiro para consumir a nossa arte pela matéria física, mas temos que aprender a lutar com as armas que temos. A Internet é consolidadamente um portal que transformou o mundo numa aldeia Global, o consumo das boas obras não se restringem única e simplesmente ao nosso espaço territorial. Os congoleses democráticos, os nigerianos, os sul-africanos, etc., conseguiram atingir outros cantos do globo com a sua música através da World Wide Web, aqui só precisamos de ter foco, obstinação e seguir o trilho, com muito empenho e seriedade na execução dos nossos projectos culturais, deixar de favorecer “paraquedistas” e trabalhar com gente que entenda de “Showbiz” e cortar a perda de tempo com futilidades (fofocas, intrigas, ardis). Para ganharmos o mundo precisamos de deixar de pensar “coxito”.

Que constrangimentos o Dog Murras está a viver e de que forma está a encarar esse momento da vida de todos nós?

Quanto ao isolamento social e ter que ficar em casa, é um hábito que trago comigo há anos, habitueime desde cedo a acordar de madrugada para rezar, meditar, fazer exercícios físicos e depois me trancar no “homme office” para ler, escrever, tocar, ouvir musica e até dirigir os meus negócios. A maior dificuldade que me assola, nessa fase crítica, é o corte da mobilidade, não poder visitar os parentes, nos finais de semana, eu que sou um amante das nossas sentadas de quintal que ampliam a união e o relacionamento das famílias.

O que tem a dizer sobre o comportamento de alguns segmentos da nossa população, que mesmo depois de decretado o estado de emergência, continuam a se movimentar livre e despreocupadamente, aparentemente sem medo de contagio?

Não é segredo para nenhum de nós, que a maioria esmagadora dos angolanos vive na indigência. Não podemos esquecer que durante 38 anos de (des)governação, a prioridade foi tomar de assalto os cofres públicos e numa acumulação primitiva de capitais vindos do petróleo, o sistema criou meia dúzia de ricos e milhões de miseráveis. Hoje estamos a receber a factura pelo facto de não se ter investido nas pessoas (na formação cultural, educacional, profissional, saúde, saneamento básico etc, etc.) e por não termos tornado o nosso povo produtivo e autônomo.

Como assim?

A fase é dura e podemos todos pagar por esse descuido de alguns, mas temos que ser coerentes porque sabemos que essa esmagadora maioria dos angolanos depende do mercado informal para sobreviver, a pergunta é: como será possível manter trancados em casa as pessoas que vivem em fornalhas de chapa de zinco, sem despensa, sem geleira, sem gás, sem fogão, sem luz, sem água para lavar as mãos, sem dinheiro para comprar pão, nem sabão? Vemos famílias que estão no nível mais acima do limiar da pobreza, parados em casa, a olhar para os filhos, frustrados por não terem nada nos armários, nem na despensa e o salário atrasado nem caiu.

As pessoas saem apesar do risco em busca de alternativas?

O problema maior é que, lá fora, os preços da cesta básica disparam todos os dias, sem regulamentação e com fraca fiscalização. Nós estamos a viver um período de ‘Paz’ pior que no tempo de guerra. Portanto, o executivo comandado pelo Presidente João Lourenço, se quiser mesmo “Corrigir o que está Mal”, antes de se falar em dar chicotada, tem que insistir na mobilização e moralização do povo, o “Povo não é Gado”, nós entendemos as mensagens, mas tem que haver compaixão, lógica e ética.

Que palavra de conformo pode transmitir aos nossos compatriotas e não só, em relação as medidas preventivas de modos a evitar-se a propagação da Covid-19?

Nos últimos anos, o capitalismo transformou a vivência social humana numa autêntica selvageria, a maioria das pessoas passou a correr desenfreadamente atrás do dinheiro que foi colocado na frente da educação, da cultura e rebentou com os princípios e os valores éticos, morais e cívicos da maioria dos países do globo. Nesta fase em que estamos todos “Enjaulados”, não devemos apenas lavar as mãos, temos que lavar também os nossos Corações, as nossas Almas, Mentes e os Espíritos. Hoje, ao passarmos por esta crise, entendemos que as crises são o resultado dos excessos que cometemos, elas nunca chegam de forma gratuita e não são definitivas. Toda crise trás três elementos fundamentais: Um Prazo de Validade, uma Solução e uma Lição. Para encurtar o Prazo de Validade, todas as Nações estão a unir esforços para encontrar uma solução para estancar essa pandemia o mais rápido possível, mas já podemos extrair várias lições dessa fase dura que assola a Humanidade;

Considera que a confiança em Deus seja um caminho de esperança? Diante das grandes dificuldades que todos os países enfrentam para travar a Covid-19, é bom que percebamos que a única “Super Potência” que impera aqui é “Nzamby”, “Deus”, “Jeová”, “Allah”, “Jah”, “Buda”, chame-o como quiser, pois refirome ao criador dos céus e da terra. E somente a ele devemos devoção e obediência. Agora vimos também que no final das contas, o poder não tem tanto valor e o dinheiro não tem tanto poder, o poder está em nós, na nossa inteligência colectiva.

Porquê?

Somente isolados poderemos diminuir a propagação e atravessar esse mar agitado, mas do outro lado da margem seremos obrigados a construir um novo mundo, com nova mentalidade, nova forma de olhar para o outro, com relacionamentos mais saudáveis e com uma nova forma de distribuição de riqueza, se não aprendermos a lição, corremos o risco de atingir, na plenitude, o chão da nossa insignificância.

Que Dog Murras teremos em termos artísticos, como motivador social e empresário? Que projectos está a desenhar para o pósdistanciamento social?

Artisticamente falando, continuo a escrever alguns temas para o meu álbum “Argola de Ouro no Focinho do Porco”, ao mesmo passo que tenho juntado algumas notas para a minha segunda obra literária: “Todos Contra Todos”, onde revelo o meu ponto de vista profundo sobre o quanto perdemos, pelo facto de cada um querer comer o outro, que é a maior das razões que impedem o nosso progresso e proponho saídas, mas, tanto o CD quanto o livro, estão sem data de lançamento prevista. Como empreendedor e motivador social estou aqui todos os dias a compartilhar experiências e a mostrar, para quem quiser, onde está o rio e que é possível cada um de nós pescar e comer o seu peixe sem prejudicar a pesca dos outros.

Alguns ministérios foram fundidos e por incrível que pareça a educação ficou dissociada da cultura e a ela foi acoplada o turismo e o ambiente. Qual é a sua opinião neste particular?

Eu entendo que existe, ao nível dos nossos políticos, uma ideia bastante equivocada sobre Cultura, só por isso não se dá a ela o valor devido. É bom que tenhamos em conta que, tanto a educação, quanto a cultura, são áreas estruturantes para o desenvolvimento de qualquer povo, e por essas duas áreas terem sido completamente negligenciadas desde a nossa “Dipanda”, em 1975, até hoje, vemos as novas gerações cada vez mais perdidas das bases africanas.

De que forma estão perdidos?

Porque um povo sem Cultura, não tem educação, desconhece a sua história e desvaloriza as suas origens. Assim estamos hoje, equiparados a uma árvore sem raízes e a uma zebra sem listras. Com identidade duvidosa. O turismo pode, se bem orientado, contribuir para o desenvolvimento económico do país, mas a cultura é fundamental para o cultivo do comportamento humano, para o valor de pertença, para a a base da consciência cidadã. A cultura e o turismo e ambiente são duas forças totalmente distintas, portanto associá-las num único departamento ministerial, considero um erro de palmatória. Acho que não se deveria confundir as coisas a esse ponto. E desde já proponho que se revise essa medida, o mais urgente possível.

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