Não há quarentena para os livros

Por aqui, bem no meio do mar de medo em que vivemos por causa da epidemia do novo Coronavírus e também por causa da pobreza e das incertezas com que olhamos para a maldita doença, rendidos, resignados e entregues, com o povo a fazer que a ignora, mas na verdade não tem alternativas, recebemos a notícia da fusão de ministérios, primeiro, ou melhor, a lei, porque veio em Diário da República, e dias depois as exonerações de ministros que talvez já não o fossem e as novas nomeações.

E quase nada de novo, de arrebatador, que nos desviasse a atenção e os sentidos do problema que estamos com ele de verdade, com excepção da nomeação de uma jovem bióloga, Adjany Costa, para liderar a Cultura, a Hotelaria e o Ambiente. Então, nada aqueceu, nada arrefeceu, tudo o resto é prateado conhecido.

Os novos desenvolvimentos políticos não vão animar grande coisa. Se calhar ainda bem, a política angolana já ocupou demasiado espaço e demasiado tempo nas vidas e nas conversas das pessoas, com resultados que hoje deixam a maior parte da população incapaz de cumprir o isolamento social imposto pela pandemia, simplesmente não há como. Entretanto, na Inglaterra, a quarentena fez disparar a venda de livros. Sim, lá as pessoas aproveitam o confi namento para nutrir a alma, aqui fura-se o confi namento para alimentar o corpo.

Eu quereria recomendar alguns livros para esta fase, mas então temos nós hábitos de leitura? Temos nós livrarias ou serviço de entrega das editoras ao domicílio? Temos editoras de verdade? Temos código ou endereço postal para a entrega?

Temos como pagar via Internet? Há Internet nas casas de chapa? Queria eu que cada angolano se confi nasse agora numa biblioteca e dela emergisse, no fi m da crise, mais viajado, mais culto, com mais ferramentas para a vida. Mas isto não é possível, a pandemia até nisto revela uma igualdade aterradora, debaixo dos disfarces pagos a ouro, quase ninguém vai ler um livro na sua quarentena, nos musseques e nos condomínios, não há livros em casa, simplesmente, e onde há dinheiro falta o hábito da leitura, não é importante para a vida.

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