Research Atlântico // O declínio da cotação internacional do crude

O preço do petróleo definido no mercado internacional registou uma redução média de 66%, no Iº trimestre de 2020, em que se destaca a cotação do brent – referência para as exportações de Angola - que deteriorou 65,55%, ao fixar-se em 22,74 uSd/ barril, no período referenciado, o menor nível desde o último trimestre de 2001, quando se fixou em 19,9 uSd/barril, segundo dados obtidos na bloomberg

As estimativas de cotação do petróleo tipo Brent, divulgadas pela Bloomberg, revelam que a cotação se fixe em 37,02 USD/barril durante o ano corrente e atinja 39,76 e 42,73 USD/barril em 2021 e 2022, respectivamente. No entanto, destaca-se que o preço do petróleo de break even – preço abaixo do qual os produtores começam a registar prejuízos – situa-se em aproximadamente 44 USD/barril para os EUA, 42,4 USD/barril para a Rússia e 83,6 USD/barril para a Arábia Saudita.

A trajectória do crude reflecte, principalmente, as perspectivas de redução da procura mundial por petróleo resultante da moderação da produção, num período caracterizado pela diminuição da actividade económica devido a propagação da Pandemia COVID-19 e da necessidade de isolamento da população, com o objectivo de mitigar a propagação do vírus.

O consumo mundial de crude poderá ter registado um declínio de 2,5 milhões barris/dia, durante o Iº trimestre do ano, com realce para a China que terá registado uma redução de 1,8 milhões barris/dia (que representa aproximadamente 72% da diminuição total apurada), segundo dados da International Energy Agency (IEA). Paralelamente, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) revela que a procura mundial por petróleo, em 2020, poderá fixar-se em 99,73 milhões barris/dia, um aumento de 60 mil barris/dia face ao ano anterior.

Importa ressaltar que, a actual estimativa de crescimento representa uma revisão em baixa face as perspectivas anteriores, que apontavam para uma expansão de 990 mil barris/dia. O consumo na China deverá fixar-se em 12,94 milhões barris/dia, uma redução anual de 1,01 milhões barris/dia, o que contribuirá para que a procura por petróleo da OPEP possa se fixar em 28,2 milhões barris/ dia, menos 1,7 milhões barris/dia comparativamente a 2019, segundo dados do relatório Oil & Gas de Março.

No caso de Angola, a variação da cotação do crude tem impactos significativos, ao considerarse que as exportações petrolíferas representam cerca de 90% das exportações totais e aproximadamente 30% das Receitas Fiscais. Assim sendo, com a redução da cotação internacional de crude advêm impactos sobre o nível de Reservas Internacionais Brutas que o país possui, sendo que durante os dois primeiros meses do ano registou-se uma redução de 4,7% tendo-se fixado em 16,4 mil milhões USD, o equivalente a aproximadamente 8 meses de importações.

Paralelamente as Reservas Líquidas – deduzidas pelos passivos relacionados com reservas, como o compromisso com o serviço da dívida pública – situaram-se em 10,9 mil milhões USD.

Na perspectiva das importações poderá se efectivar uma pressão inflacionária, tendo-se em consideração a moderação na produção industrial mundial, em consequência do período de quarentena e das contaminações pelo COVID-19. Por outro lado, a possibilidade de moderação na disponibilidade de divisas no mercado cambial poderá contribuir para o intensificar da desvalorização cambial, com possíveis impactos sobre a inflação.

As yields – rendimento exigido pelos investidores para aquisição de títulos – dos Eurobonds emitidos por Angola têm representado um dos principais indicadores da perspectiva menos optimista dos investidores relativamente a solvabilidade do país. O registo referente ao mês de Março atingiu máximos históricos, com um aumento médio de 17,5 p.p., para níveis de até 32%, no caso dos Eurobonds com vencimento em 2025.

A cotação internacional do petróleo tem sofrido uma pressão adicional, resultante da falta de acordo entre a OPEP e aliados, especificamente entre a Arábia Saudita e a Rússia, com o primeiro a dar indicações de pretensão de aumento da produção para níveis históricos, cerca de 12 milhões barris/dia, a um preço, significativamente, abaixo do mercado – a desconto -, a partir de Abril, com o objectivo de pressionar os outros produtores a buscarem um acordo. Face a situação, a indústria petrolífera dos EUA começou a ressentir, tendo Donald Trump decido intermediar um acordo entre os dois países.

A possibilidade de acordo sobre a produção petrolífera, com a intermediação dos EUA, associada à moderação dos casos de contaminação pelo COVID-19 na China, contribuíram para que nos primeiros três dias do mês de Abril se registasse um incremento de 37,9% no preço do Brent, para 34,11 USD/ barril. O actual cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de aquisição de receitas fiscais, mediante a aposta na produção interna, com o intuito de reduzir a dependência externa, com a potencialidade do sector agrícola a destacar-se.

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