Yuri Quixina: “As empresas só pagam salários ou outros encargos se estiverem a funcionar”

A dois dias do fi m do estado de emergência, ainda persistem dúvidas e omissões em vários sectores. O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, defende que o Governo devia dar oportunidade ao mercado para resolver determinados problemas

O 18.º aniversário da Paz e Reconciliação Nacional foi celebrado em confinamento. O Presidente João Lourenço referiu-se a dois aspectos que marcaram a data: crise económica derivada da queda do petróleo e a dívida pública alta. Qual é a sua opinião?

O único elemento anormal nessa celebração é a Covid-19, porque já estamos com a crise económica há quatro anos. As razões da crise económica continuam a ser as mesmas de hoje: o modelo económico, que corrompeu-se consigo mesmo, virado para o consumo e não para a produção. É também consequência do comportamento dos agentes económicos que levou o país à dívida pública que assistimos hoje e o vício de vivermos só dos recursos petrolíferos.

Volta a instalar-se o braço-de-ferro entre as famílias e as instituições de ensino privadas, estando na base o pagamento de propinas de Abril. Como resolver isso, à luz do estado de emergência?

Essa situação já era esperada. As medidas de combate ao Covid-19 é que estão a trazer estragos nas economias e não propriamente o vírus. Em situações normais, quando há um estado de emergência o sector privado sabe lidar com isso, dialogando com os trabalhadores e criando estratégias. Mas o Governo colocou outro peso nesse debate entre o empregador e o empregado, decretando que se paguem todos os salários sem negociação. Isso é perspectiva política. Na perspectiva económica, que é a mais importante, as empresas só pagam salários ou outros encargos se estiverem a funcionar. Nesse particular, há colégios que estão a funcionar online e para pagar é necessário que tenham fl uxo de caixa, que depende do pagamento das propinas.

Mas ainda não existe uma medida específica do Governo?

Se não tivéssemos uma mentalidade muito socialista, em que fomos ensinados que o Estado é tudo ou Estado-providência, isso teria sido resolvido. Numa economia de livre mercado, o mercado teria resolvido isso com os próprios professores e os encarregados, para ajustamentos. Nesse sentido, tudo vai ser entregue ao Estado, que não deu oportunidade às escolas para negociarem. Como declaramos o estado de emergência em cima do joelho, é mais um problema para o Governo resolver.

Vamos olhar para as diversas soluções ao Covid-19, à volta do mundo. A Europa entende que uma das soluções passa por resolver o problema da doença em África. Concorda?

Essa abordagem é muito estranha. O mundo fi cou doido. A Covid-19 veio demonstrar que há escassez de liderança no mundo para uma visão de futuro. Nunca na história da União Europeia assistimos o que está a acontecer. França retém produto que iria para a Itália, Turquia prende aviões que iriam à Espanha… países que se supunham da União Europeia, afi nal nunca foram. A teoria de dar quota aos países membros matou a União Europeia, a maioria dos produtos para o sistema de saúde não se produz na Europa. Não se pode compreender que a Europa esteja tão preocupada com África, quando ela está em fogo. Na verdade esperavam que o pico que estão a viver estivesse em África.

Que valor a IGAPE acrescenta à RECREDIT ao se tornar no novo accionista, em 5% do capital social?

Primeiro é preciso dizer que as duas instituições são do Estado e, logo, não há muito argumento. É como se fosse namoro na mesma família ou um incesto. O Estado acredita que dessa forma vai atingir os seus objectivos, relativamente ao crédito malparado. Atenção que 80% do crédito malparado é do BPC. Pressupõe que essa seja a estratégia para a sua recuperação. Mas continuo a defender que o BPC só terá o crédito malparado resolvido se caminhar para a privatização.

Entre as várias medidas macroeconómicas contra a Covid-19, o Governo entende que as empresas devem desempenhar o papel central na economia. Há ambiente para que tal ocorra?

Isso está sempre presente nos discursos, mas a questão que se coloca é a prática. O crescimento de longo prazo no país é defi nido pelas decisões internas, no curto prazo as decisões externas contam muito. O coronavírus é das maiores oportunidades que o Governo tem. Já se passaram dois anos e não foram tomadas as melhores medidas para relançar a economia. Sou dos que defende que neste momento o Governo só tem dois caminhos para tirar a economia da crise: reformar o Estado até chegar aos salários ou continuar a endividar-se e a tomar essas medidas simples.
Título da obra: ‘O Vencedor Leva Tudo’

  • Autor (a): Dambisa Moyo, economista e escritora de análises macro-económicas e assuntos globais zambiana
  • Ano de lançamento: 22 de Maio de 2013
    Frase para pensar: “Numa reforma económica, as dívidas do Governo pagam-se muito caro, quando não se tem estratégia para relançar o sector privado”, Yuri Quixina, economista

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