O covid-19 veio demonstrar a importância do ensino a distância “e-learning”, mas mudando o Paradigma

Por: Samuel Candundo*

A suspensão das aulas em todos os subsistemas de ensino imposta pelo Covid-19, veio provar aos detratores do ensino a distância, que é uma modalidade incontornável, na era das tecnologias de informação, exige apenas que se mude o paradigma de se estudar para obter um certificado ou diploma, para o de estudar para obter o conhecimento.

Em Angola, há anos os programas públicos projectam a implementação do sistema de ensino a distância, constava do Programa de Desenvolvimento Institucional 2008/2011 (PDI) da Universidade Agostinho Neto (UAN), o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) 2013/2017 previa, no Programa de Acção Fundamental da formação ao longo da vida, a implementação da modalidade de formação a distância “e-learning”, e o Plano de Desenvolvimento Nacional 2018/2022 (PDN), em execução, prevê também a promoção do ensino a distância.

Entretanto, das intenções não há registos de acções concretas para a sua regulação e efectiva implementação, pelo contrário, sentese a hostilização dos que enveredaram por esta via para obtenção do conhecimento. As instituições de ensino universitário de referência no mundo criaram plataformas digitais, que permitem a ministração de cursos, uns totalmente na modalidade a distância “e-learning”, outros na modalidade mista, em que os alunos podem fazer exames na presença.

Outros criaram plataformas que permitem realizar provas online, como quem faz na presença, através de um sistema que monitora o tempo por pergunta, ou a estruturação de provas com perguntas de caráter prático. Para além de que, quando o paradigma é a obtenção de conhecimento as práticas fraudulentas são punidas pelo mercado de trabalho, que apenas premeia o mérito, aceita quem sabe fazer, o título ou o diploma, por si só, de nada vale.

Tenho na memoria as escolas de correspondência Radio Escola – Álvaro Torão, a Euro Rádio, entre outras, que ministravam diversos cursos, em que muitos profissionais que serviram este país, em várias entidades aprenderam eletrónica rádio e televisão (incluindo o signatário), inglês, contabilidade, mecânica, carpintaria, etc., nestas escolas de ensino a distância.

As ordens de profissionais do Norte de América, nomeadamente a Ordem dos Certified Public Accountants (CPA), a ordem dos Chartered Profissional Accountants do Canadá (CPA de que fui membro), usam plataformas de ensino a distância (e-learning), que permitem interacção didática (baixar bibliografia, subir trabalhos académicos, ouvir podcasts, participar em aulas em webcasts, etc.), permitindo que os estudantes se preparam para os chamados exames unificados (UFE) de entrada na ordem, oferecidos duas vezes ao ano.

Acima de tudo permite que os programas estejam economicamente ao alcance de um grande número de profissionais, os candidatos podem regular o passo da sua progressão, permite que os alunos desempenhem outras actividades enquanto progridem na sua formação académica e profissional.

Vivemos em tempos em que o conhecimento é perecível, fica desatualizado muito rapidamente, impondo que a actualização contínua de conhecimentos seja quase que uma obrigação para se sobreviver num mercado de trabalho cada vez competitivo. Enquanto que para a realidade de Angola, as vagas em instituições, quer de ensino superior, quer de formação profissional, são limitadas.

A modalidade de ensino a distância “e-learning” é, sem sombras para dúvidas, o meio através do qual se pode minimizar a exclusão de cidadãos ao acesso ao sistema de ensino. Por exemplo, no tempo colonial, as pessoas podiam estudar por conta própria, ou seja, sem frequentar a escola oficial, requerendo apenas o exame, nos anos de transição de ciclos, nos casos da 4ª classe, 2º ano do ciclo preparatório, 5º ano e 7º ano do liceu.

Hoje temos em alguns cursos, a figura de estudante voluntário, que apenas aparece para fazer o exame, fá-lo sem qualquer apoio ou orientação, para se preparar para o exame. Esses alunos não seriam melhor apoiados se tivessem acesso à plataformas que orientassem o seu estudo? Sou um usuário assíduo de salas virtuais da Google, pois permite-me interagir com os meus estudantes ininterruptamente, ou seja, 24 horas ao dia, nos 7 dias da semana (24/7). Distribuo material didático através do grupo, forneço ligações para acesso á outras referências bibliográficas da matéria, incentivo a discussão sobre o conteúdo programático.

O retorno que recebo dos estudantes é de total satisfação. Há, em algumas instituições de ensino superior, plataformas de gestão universitárias com a capacidade de interacção permanente com os estudantes e outras capacidades de gestão académica.

Porém, a maioria dos docentes resistem em tirar proveito do seu potencial. Num momento como que vivemos os docentes estariam em contacto permanente com os seus estudantes, passando matéria, deixando podcasts (gravações áudio com matéria explicada, e webcasts), de tal sorte que, o impacto negativo imposto pelo covid-19 seria minimizado. As famílias angolanas têm assistido a forma atabalhoada como algumas escolas privadas têm tentado interagir com os seus alunos, neste período de suspensão, uns para justificar a cobrança de propinas, outras, aparentemente, bem-intencionadas, mas sem possuírem a infraestrutura adequada para o ensino a distância. Grupos do WhatsApp não são apropriados para dinamizar o ensino a distância. Nota-se que as instituições estão simplesmente a reagir a situação do momento. Quando situações desta natureza merecem ser pensadas com a devida antecedência.

O Estado e as entidade privadas devem orientar as suas acções no sentido de antecipar os fenómenos, em vez de ir reagindo aos problemas. Acredita-se que o mundo em geral, o nosso país em particular, serão diferentes após o covid-19, a minha esperança é a de que os nossos decisores de políticas públicas, estejam a apreender alguma coisa com este confinamento, porque há aquelas circunstâncias em que afinal, o poder, o dinheiro, a fama, valem quase nada.

Deve-se olhar para o sistema de ensino com seriedade, o mesmo para o nosso sistema de saúde, pois é de lá onde virão os enfermeiros, os médicos que nos vão tratar, no momento do confinamento, quando não haver meios para voar para outras paragens. Afinal o que vale mesmo não são os títulos, é o saber fazer, cujo conhecimento pode ser adquirido presencialmente ou a distância.

Espero sinceramente que esse confinamento que o covid-19 nos impõe, ensine-nos, a valorizar o conhecimento em si, não as modalidades do o adquirir, pode ser obtido, por várias vias, desde que se mude o paradigma, de ostentação de diplomas, para o do conhecimento.

 

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