OPEP faz maior corte de sempre

A OPEP e aliados, entre eles a Rússia, operaram o maior corte de sempre na produção petrolífera, retirando quase 10 milhões de barris do mercado para fazer face ao impacto brutal da pandemia do coronavírus. Os Estados Unidos apoiaram a operação

Por:Luís Faria

A OPEP e os produtores aliados, um conjunto já conhecido como OPEP Plus, celebraram um acordo inédito, sem precedentes na história da indústria petrolífera e anunciaram que vão retirar diariamente do mercado quase 10 milhões de barris de petróleo, o equivalente a 10% da oferta global da matéria-prima. Um valor que pode, segundo disse ontem o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode duplicar.

O aval formal dos Estados Unidos ao acordo é outra grande novidade. Enquanto grande produtor, primeiro com o óleo extraído no Texas e, posteriormente, com a fracturação de xisto, o que aliás lhe restituiu a independência energética, os Estados Unidos, na verdade, nunca estiveram realmente ausentes dos acordos petrolíferos. Mas, desta vez, a sua presença explícita e o voluntarismo que demonstrou para que se chegasse a um acordo reflecte os estragos brutais do tsunami pandémico na procura de petróleo.“O grande acordo de petróleo com a OPEP Plus está concluído. Tal economizará centenas de milhares de empregos em energia nos Estados Unidos. Gostaria de agradecer e dar os parabéns ao presidente Putin da Rússia e ao rei Salman da Arábia Saudita. Acabei de falar com eles do Salão Oval.

Um grande negócio para todos!”, escreveu ontem Trump no Twitter. Uma boa notícia para Angola, membro da OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, e que sempre apoiou um corte massivo na produção mundial, até porque o país estava a produzir abaixo da linha de restrição ditada pelo último acordo da organização e países parceiros. Recorde-se que, em finais de Março, a ministra das Finanças, Vera Daves, foi autorizada a propor uma revisão do Orçamento Geral do Estado (OGE) em vigor face ao afundamento do preço no mercado internacional, devido ao impacto da pandemia de coronavírus e também ao desentendimento entre os dois maiores produtores da coligação que procura reequilibrar o mercado: Arábia Saudita e Rússia.

Esta “tempestade perfeita fez com que o preço do Brent (referência das ramas angolanas) viesse para perto de USD 20 por barril, uma ruína para a indústria, quer a convencional quer a ‘artificial’, norte-americana. O actual OGE assenta num preço de referência de USD 55 por barril, o que correspondia a uma perspectiva realista quando o orçamento foi elaborado, mas incompatível, como tudo, com a procura de petróleo fechada a sete chaves. Acresce que o serviço da dívida tem uma expressão muito significativa no OGE. A questão que se coloca é se o corte chegará, mesmo com a dimensão que tem, para compensar a quebra da procura, bem, como sempre, o grau de cumprimento que irá verificar-se. Por isso, o presidente norte-americano antecipa que, na prática haverá quase uma duplicação dos barris que serão retirados do mercado. Para além do seu tamanho (10% do mercado da oferta), o corte efectuado é marcado pela sucessão de peripécias que o antecedeu.

Guerra de preços

No início de Março, com o acentuar da crise pandémica no Hemisfério Norte o preço do petróleo caiu para o nível de USD 45 por barril, o mesmo valor que sobressaltou os países produtores em 2017 e conduziu ao entendimento dos fornecedores da matéria-prima, sobretudo os dois maiores, Arábia Saudita e Rússia. Esperava-se, entretanto, que mais uma vez os dois grandes produtores da matéria-prima, a Arábia Saudita e a Rússia (ela e mais 9 países desde a última crise petrolífera passaram a conjugar esforços com a OPEP), chegassem novamente a acordo. Os sauditas propunham que se retirassem mais 1,5 milhões de barris diariamente do mercado até ao final do ano. Surpreendentemente, ou não, os russos não estiveram pelos ajustes e a Arábia Saudita tomou a iniciativa de jorrar petróleo no mercado e fazer mesmo descontos nas vendas mais imediatas.

A Arábia Saudita assumira já, no passado recente, a audácia de neutralizar a produção norte-americana, tendo tudo acabada, face à queda livre do preço, na frente alargada constituída pela OPEP e outros 10 grandes produtores não alinhados na organização. A 9 de Março, na abertura do mercado asiático, o nervosismo provocou, em poucas horas, uma queda de 30% na cotação da matéria- prima, só equiparável à verificada quando foi da Guerra do Golfo. Dissiparam-se muitas nuvens de poluição no céu da China e o maior cliente mundial vai importar menos petróleo.

Dia 9 de Março o preço do barril de Brent desceu ao patamar dos USD 35, o que mostra como um vírus desconhecido e veloz amedronta mercados e faz vir ao de cima tensões nele existentes e mal resolvidas. Mas, como referimos, o pior ainda estava para vir, a expressão mais utilizada a propósito da progressão deste vírus, com os futuros de Brent a descerem para perto de USD 20 por barril, o autêntico ‘rombo’ nas contas dos países exportadores da matéria-prima e que vivem das receitas que com ela obtêm para equilibrar os balanços fiscais, imobilizando ainda a produção norte-americana de óleo e gás a partir da fragmentação do xisto, já de si altamente endividada. A solução chegou agora. Ontem, às 20:00 de Luanda, o Brent ganhava pouco mais de 1%, cotando a USD 31,32 por barril.

leave a reply