Coronavírus: misteriosa queda abrupta de casos na África do Sul intriga especialistas

A progressão esperada dos casos de Covid-19 não se confirmou; especialistas tentam identificar razões para a redução da propagação no país

Por:Andrew Harding

Nas últimas duas semanas, a África do Sul passou por uma situação excepcional que os médicos ainda não conseguem explicar: uma queda brusca e inesperada na taxa diária de novas infecções pelo novo coronavírus. Um sinal claro disso está nos hospitais do país, que tinham-se preparado para receber um volume alto de pacientes. Os leitos e enfermarias estão prontos para eles, cirurgias não urgentes foram remarcadas e ambulâncias foram equipadas, enquanto equipas médicas vêm ensaiando protocolos sem parar e autoridades de saúde passam longas horas em reuniões pela Internet preparando e ajustando os seus planos de emergência.

Mas, até agora, contra a maioria das previsões, os hospitais sul-africanos permanecem tranquilos: o “tsunami” de infecções que muitos especialistas previram não se concretizou. Pelo menos, ainda não. “É meio estranho, misterioso. Ninguém sabe, ao certo, o que está a acontecer”, diz Evan Shoul, especialista em doenças infecciosas de Johanesburgo. Tom Boyles, outro médico de doenças infecciosas, do Hospital Helen Joseph, um dos maiores centros de saúde pública de Johanesburgo, também diz que todos estão “um pouco perplexos”. “Estamos falado que é a calma antes da tempestade há cerca de três semanas. Estávamos a preparar tudo aqui. E essa tempestade simplesmente não chegou. É estranho.”

Os especialistas em saúde alertam, no entanto, que é muito cedo para interpretar a falta de casos como um progresso significativo no combate à epidemia e estão preocupados com o facto de que isso pode até mesmo gerar um perigoso sentimento de complacência. O presidente sul-africano, Cyril ramaphosa, sugeriu que as duas semanas de isolamento no país até agora são responsáveis por estes índices e prorrogou a vigência das restrições em todo o país, que deveriam terminar em uma semana, para o final do mês. No entanto, outros países que também impuseram quarentenas não obtiveram resultados semelhantes.

RASTREAMENTO AGRESSIVO DE CONTACTOS

Na África do Sul, até 13 de Abril, foram relatados 2.173 casos e 25 mortes por coronavírus. É o país mais afectado do continente até agora. Quase cinco semanas se passaram desde o primeiro caso confirmado de Covid-19 na África do Sul e, até 28 de Março, o gráfico do número de novas infecções diárias seguiu uma curva ascendente acelerada. Até então, tudo era semelhante ao que acontecia na maioria dos países, onde os casos também haviam sido detectados nas mesmas datas. Mas, naquele Sábado, a curva caiu bruscamente: de 243 novos casos num dia, para apenas 17. desde então, a média diária ficou em cerca de 50 novos casos. Será que o isolamento precoce e rígido da África do Sul e o trabalho agressivo de rastreamento de contactos com pessoas infectadas estão realmente a funcionar? Ou é apenas uma pequena melhora antes de um desastre?

No final da semana passada, o presidente ramaphosa disse que era “muito cedo para fazer uma análise definitiva”, mas considerou que, desde que a quarentena foi introduzida, o aumento diário de infecções diminuiu de 42% para “cerca de 4%”. “Acho que quanto mais pessoas testamos, mais revelamos se isso é uma anomalia ou se é real”, disse Precious Matotso, especialista em saúde pública que monitora a pandemia na África do Sul em nome da Organização Mundial da Saúde (OMS).

MEdOS DE COMPLACÊNCIA

Na África do Sul, o argumento de que é cedo para tirar conclusões sólidas sobre a propagação do vírus é uma visão comum. “É difícil prever qual caminho seguiremos: uma taxa de infecção alta, média ou baixa. Não temos evidências amplas”, diz Stavros Nicolaou, executivo da área de saúde que agora coordena parte da resposta do sector privado à pandemia. “Pode haver sinais precoces positivos, mas o meu medo é de que as pessoas comecem a se sentir tranquilas (e baixem a guarda), com base em dados limitados”, acrescenta ele. Mas essa “calma antes de uma tempestade devastadora”, conforme descreveu o ministro da Saúde, Zweli Mkhize, na semana passada, está a causar inúmeras especulações.

A suposição generalizada é de que o vírus, introduzido na África do Sul e em muitos outros países africanos em grande parte por viajantes mais ricos e visitantes estrangeiros, chegaria inevitavelmente a bairros mais pobres e super-populosos e se espalharia rapidamente. Segundo especialistas, essa continua a ser a próxima fase mais provável do surto, e várias infecções já foram confirmadas em vários municípios. Mas, médicos da África do Sul e de alguns países vizinhos notaram que os hospitais públicos ainda não viram qualquer indício de aumento nos internamentos por infecções respiratórias, o sinal mais provável de que, apesar das evidências limitadas, o vírus está a propagar-se em ritmo intenso.

Uma teoria diz que os sul-africanos podem ter uma certa protecção contra o vírus. Alguns alegam que isso pode ser devido a uma variedade de factores médicos, desde a vacina obrigatória contra a tuberculose que todos recebem ao nascer até ao impacto dos tratamentos antiretrovirais, ou o possível papel de diferentes enzimas em diferentes grupos populacionais. Mas essas suposições não foram verificadas. “Essas ideias já existem há algum tempo. Ficaria surpreso se fosse o resultado de uma vacina. Essas teorias provavelmente não são verdadeiras”, diz Boyles. O professor Salim Karim, principal especialista em HIV da África do Sul, acredita que essas são “hipóteses interessantes”, mas nada além disso. “Acho que ninguém no planeta tem as respostas”, afirma. Shoul, entretanto, diz que o país ainda está a se “preparar como se um tsunami estivesse a chegar”. “O sentimento ainda é de grande expectativa e nervosismo”, afirma ele. A verdade é que essa situação, diferente do acontece na maior parte do mundo, leva especialistas a considerar se não seria uma queda antes do que um médico chamou de possível “aumento astronómico” de novos casos.

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