Dominick Maia-Tanner “Ainda é cedo para afirmar concretamente planos para o futuro”

Ainda é prematuro tirar ilações conclusivas quanto ao futuro no domínio cultural devido à pandemia da Covid-19, que continua a ceifar vidas humanas em todo o universo. Mas ainda assim, alguma coisa vai-se fazendo, mesmo que timidamente socorrendo-nos de outras plataformas. Nesta curta entrevista, o produtor, crítico de arte e director do Espaço Luanda Arte, Dominick Maia-Tanner, dá o seu ponto de vista em relação â Cultura em tempos de pandemia

Por:Augusto Nunes

Que reflexão faz sobre a Cultura em Tempos de Pandemia?

Esta pandemia veio mostrar o quanto estamos interligados, e a importância, e o reflexo que cada acto solitário tem no colectivo. Ainda é prematuro tirar ilações conclusivas, mas pelo menos podemos constatar que, se a crise económica já havia provocado enormes dificuldades aos artistas plásticos angolanos, então a Covid-19 e a obrigatoriedade de fecharmos galerias, centros culturais, espaços comerciais e ateliers de artistas, poderá criar problemas financeiros a todos envolvidos, mas a começar com os artistas, pelo que seria bom haver uma bolsa de apoio, uma cesta básica financeira para os artistas angolanos que estejam com graves problemas financeiros e de sobrevivência.

Como está a observar este período de emergência decretado face à Covid-19?

Durante este período encontro- me em casa. Mas entendo que muitas pessoas, sobretudo as que ganham e fazem as suas vidas no mercado informal, poderão ter que arriscar a sua saúde para continuar a trabalhar pelo que peço que respeitem o distanciamento social e tenham calma numa fase em que a sanidade mental e espiritual é testada diariamente.

Do que se tem ocupado e que o tem proporcionado à sua família de modo a ocupá-la nos tempos livres?

Até ontem estive a acompanhar o primeiro leilão online da Sotheby´s para “Arte Moderna e Contemporânea Africana”. Por entre os 107 lotes à venda, encontravam- se duas obras do Artista angolano Cristiano Mangovo – a segunda vendeu-se por USD 20.100 e no todo chegou-se ao recorde total de USD 2.9 milhões para uma venda online para esta região geográfica. Muito interessante, 27% dos compradores eram novos clientes para a Sotheby´s, quase 30% dos compradores tinham idades abaixo dos 40 anos de idade – o que mostra o potencial futuro para mais leilões online, e houve compradores oriundos de 22 países diferentes. Em família tenho estado bastante ocupado a desfrutar de três crianças pequenas, que precisam de muito acompanhamento escolar em casa, e que necessitam de brincar nos momentos livres. Junto com a minha mulher temos procurado cozinhar com alimentos saudáveis e não-processados, e claro tenho reflectido muito sobre o futuro das artes em Angola, sobre os projectos existentes e novos do ELA pós-Covid-19.

Que outras actividades sugeria ou sugeriu aos seus vizinhos, aos amigos e ao público amante das artes plásticas neste período?

Infelizmente, temos poucos museus em Angola, e os que temos não estão online. Lanço aqui o desafio ao Ministério da Cultura para sermos, de certa forma , pioneiros no continente africano na digitalização de arquivos nacionais, e criarem um site que disponibilize esse acervo para o mundo. Enquanto isso, aconselho o recurso a museus e exposições “online” no continente africano: https://artsandculture. google.com/partner/ johannesburg-art-gallery Este é um dos museus mais antigos em Africa, datado de 1910. E fora do continente: https://artsandculture. google.com/exhibit/ africa-remix-contemporary- art-of-a-continent/dQLi- D5tY39LYJw “Africa Remix 2005” – com participação de António Ole e Kapela, entre vários artistas africanos e afro-descendentes renomados; e https://artsandculture. google.com/exhibit/pavilhãode- angola/9QLCWPs6Sq0cJw “Pavilhão de Angola na Bienal de Veneza em 2015” – com representação de António Ole, Nelo Teixeira, Francisco Vidal, Binelde Hyrcan e Délio Jasse.

Várias entidades ligadas ao universo das letras, da música, das artes plásticas, e não só, optaram pelo recurso às plataformas digitais (redes sociais e outros suportes) para continuar a divulgar as suas criações. Que comentários faz sobre esta iniciativa?

Acho muito, muito positivo, e mesmo de louvar que, por exemplo, escritores angolanos tenham prescindido dos seus direitos de autor e cedido obras em formato pdf ou digital para nós os leitores a custo zero. Só tenho a agradecer.

De que forma tem divulgado as suas intenções e da Galeria nesta fase?

Como referi, ainda é cedo para afirmar concretamente planos para o futuro mas, como todos, tenho usado mais as redes sociais e, em particular, o instagram. Para quem quiser acompanhar o nosso percurso pode aceder a nossa página e deixar comentários, naturalmente: www.instagram.com/ ela_espaco_luanda_arte_angola/

Já no que diz respeito à música, que género sugeria?

Acho que o momento é de musica calma, de reflexão interior. Tenho ouvido muita música clássica, e musica popular angolana e brasileira dos anos 70 e 80. Quanto a leitura… Evito a leitura sensacionalista que nos assola a todos, por estes dias.

Tenho aproveitado para ler alguns Clássicos da Literatura Angolana. Outras sugestões e conselhos?

Eu já não tenho o privilégio de ter a companhia dos meus pais. Quem viva com os seus, aconselho a cuidarem deles bem, a conversarem muito e a ouvirem as suas histórias sobre o passado, pois para além do enorme acervo oral que eles carregam, essa relação é única e (infelizmente) não é finita, e seguramente dar-nos-á muita força para ajudar a ultrapassar o momento presente. Aos angolanos desejo muita calma e saúde.

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