O peso da tonelada

Por estes dias, o noticiário está cheio de ofertas e doações para os pobres feitas chegar primeiro directamente e agora, por ordem lá de cima, por via dos governos provinciais, que depois os encaminham aos municípios ou comunidades carentes. Sendo estas ofertas feitas de bom coração, espanta-me que em Angola o bom coração andasse hibernando por tanto tempo. Mas, como se sabe, os bons amigos vêmo-los na hora da afl ição. A maka é que para os pobres afl ição não tem hora e nem é nova, é permanente. Então, todos os dias há notícias de doações recebidas pelos governos às toneladas, mas são tantas toneladas que daqui a pouco começa a faltar pobres para comer tudo. Ou é mera propaganda? Cada tonelada signifi ca mil quilos, se a oferta de quarenta toneladas vai para trinta famílias, por exemplo, já vemos que é muita fruta. E o pobre vira lorde. Só não entendo bem a veia empresarial, importadora, e talvez comercial de alguns partidos. Agora, os partidos têm ou dinheiro, ou armazéns de bens para oferecer. Ena! Fazer marketing ou propaganda política é uma coisa, mas neste momento? Os partidos deveriam desenhar soluções para acabar com a pobreza, não são congregações de caridade. Menos ainda no nosso continente, em que sabemos que opções políticas históricas produziram a pobreza que temos. A não ser que lhes dê jeito a pobreza dos outros, o que seria, no mínimo, pecado, para quem tema a Deus, claro. Se um partido que governa agora me vem oferecer bens de caridade, e eu preciso porque nem emprego tenho; se um partido da Oposição disputa com outro quem mais me dá do seu salário, e eu os vejo em carros luxuosos e em viagens anunais pagas pelo Orçamento do Estado, se a minha pobreza é objecto de leilão para me recordar que sou pobre e para me manter pobre, eu que sou o povo digo o quê? Venham de lá as toneladas, ainda que só no noticiário.

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