Chuva volta a matar e a desalojar famílias em Luanda

Dois moradores do bairro Cambamba, em Luanda, desapareceram ao serem arrastados pelas correntezas das águas das chuvas da madrugada de ontem. Contactado pelo oPAÍS, o porta-voz do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, Faustino Mingues, recusou-se a prestar informações sobre a ocorrência, alegando que o governador provincial, Sérgio Luthter Rescova, o fará hoje, em conferência de imprensa

texto de Paulo Sérgio
fotos de Carlos Moco

Os dois jovens foram arrastados pela correnteza quando tentavam recuperar alguns bens matérias que estavam a ser levados pela água, segundo Adérito Ambrósio, coordenador da quadra nº 4 do bairro Cambamba, em Talatona. Em entrevista a OPAÍS, contou que a primeira operação que os dois realizaram de retirar alguns meios foi bem-sucedida, porém, decidiram dar sequência ao verem outros bens na água. “Um deles entrou para apanhar e, segundo o que ouvimos, o outro, ao ver que o seu amigo não estava a conseguir sair, foi tentar socorrêlo. Acabaram os dois por desaparecer”. Adérito Ambrósio disse que a última vez que ambos foram vistos estavam a 120 metros do Condomínio dos Astros, em Talatona. De acordo com o nosso interlocutor, até ao início da noite de ontem ainda não haviam sido localizados os corpos das vítimas.

“Até ao momento ainda não tivemos qualquer sinal dos Bombeiros”, frisou. Contou que ninguém conseguiu localizar em que parte desta vala, conhecida como rio Cambamba, que desagua no mar se encontram os corpos, se se encontram encalhados ou não. Adérito Ambrósio disse que alguns dos moradores seguiram o curso da água até ao mar para tentar localiza-los, mas sem sucesso. A força da correnteza foi suficiente para arrastar alguns imbondeiros. Os mesmos acabaram por tapar a passagem de água situada por baixo da ponte que está localizada na rua do MAT, em Talatona, próximo ao Condomínio dos Astros.

Em consequência, algumas lavras e residências que se encontram nas redondezas se encontram inundadas. Por seu turno, Crisostomo Valdemir Tchipilica, coordenadorgeral do bairro Cambamba, disse que o levantamento feito ontem indicava que cerca de 40 residências construídas nas margens do rio foram arrastadas e, em consequência, muitas famílias passariam a noite ao relento. Uma vez que muitas delas são oriundas do interior do país e foi nesse espaço que se instalaram. “As pessoas ficaram sem os seus haveres. Identificamos famílias que neste momento estão a dormir ao relento e nem sequer um colchão têm. Num momento desses, de contenção por causa da pandemia da Covid-19… Meu Deus, é um problema bastante sério”, declarou, ontem, às 21h30, ao jornal OPAÍS. Acrescentou de seguida que “são pessoas carenciadas que necessitam de algum apoio”.

Covid-19 gera desconfiança entre as vítimas das chuvas

O sociólogo Carlos Conceição considera que as pessoas desalojadas pelas chuvas que caíram ontem em Luanda, ao procurarem abrigo nas residências dos seus, podem ser recebidas com algum receio,em função das suspeições provocadas pela pandemia da Covid-19. “Nós somos um povo com crenças fundamentalmente enraizadas na solidariedade social. Vendo o seu irmão aflito, dificilmente as pessoas conseguem rejeitar”, frisou.

Em relação ao alerta de que as pessoas devem ficar em suas casas, nada de visitar ou receberem visitas, o sociólogo descreveu como sendo uma fase temporariamente de “dessocialização” com vista a salvaguardar o bem maior, a vida. Disse que mesmo estando confinadas nas residências, as pessoas demonstram ter consciência de que todo o cuidado é pouco, mas isso não as inibirá de receberem os seus parentes que precisam de abrigo. “É difícil gerir as pessoas que estão num único tecto familiar quando surgem situações desta natureza que, aliais, nem é criada pelos homens, mas pela natureza. Trazem muitas suspeições”, frisou. Carlos Conceição esclareceu que, em Luanda, se por um lado as chuvas criam dificuldades de mobilidade entre as famílias, por outro, acaba por as aproximar quando ocorrerem inundações. As famílias que se encontram em zonas de risco, particularmente de maior concentração de água, não têm outra saída senão se alojarem em casas dos seus familiares, salvaguardando-se de situações anómalas.

Reconheceu que por ter ocorrido numa altura em que se pede que as pessoas fiquem em casa por causa da Covid-19, “vai gerar uma certa desconfiança e insegurança nas famílias”. Sublinhou que, independentemente do isolamento social, as famílias, na maioria das vezes, são fundamentalmente solidárias. As pessoas têm recebido os seus visitantes com a maior normalidade, como se nada tivesse acontecido. “O grau de solidariedade nas famílias angolanas ainda é muito grande. Ignora-se certos aspectos do próprio confinamento social”, frisou. Recomenda às famílias que se resguardem nas suas residências, cumprindo as orientações do Executivo. Entretanto, disse ter consciência de que há famílias que dependem de actividades informais para sobreviverem. Pelo que, quando ficam resguardadas em suas casas encontram inúmeras dificuldades para a subsistência. “Mais vale sacrificar-se para salvaguardar o bem maior que é a vida”

error: Content is protected !!