Jornalismo comunitário, identidade e comunicação

Por: AMADEU CASSINDA*

Há muito que a informação deixou de ser sinónimo de comunicação. Apesar da evolução tecnológica registada no campo técnico da informação cuja capacidade de produção e disseminação parece igualar-se à velocidade da luz, no entanto, em meio a tanta informação, nunca foi tão difícil comunicar como hoje. Dominique Wolton (2006), exímio investigador e pesquisador das relações entre comunicação, sociedade, cultura e política, no seu livro: É Preciso Salvar a Comunicação, explica a complexidade deste processo através de duas dimensões inseparáveis, a normativa (humana) e a funcional (técnica).

Para o autor a informação em si não existe. Ela é indissociável do imaginário, daquele que emite como daquele que a recebe. Qualquer que seja o suporte a informação permanece ligada a mensagem. Informar é produzir e distribuir mensagens o mais livremente possível. Entretanto, adianta Wolton, a comunicação é uma relação entre o emissor, a mensagem e o receptor.

Comunicar é estar atento às condições nas quais o recptor recebe a informação, aceitando-a, recusando-a, remodelando-a em função do seu horizonte cultural, político, fi losófi co e, por sua vez, lhe responde. Ou seja, a comunicação acarreta duplo desafi o: aceitar o outro e defender a sua identidade própria (2006). Ora, em meio a esta complexidade relacional e interpessoal exigida pela comunicação para o devido efeito, a identidade de uma determinada comunidade que partilha o mesmo sistema simbólico, apresenta-se como terreno fértil para a divulgação de informação do interesse da comunidade, pela comunidade e para a comunidade.

É nesta perspectiva em que o jornalismo comunitário aparece como uma arma poderosa para a coesão das comunidades, para a educação de cidadania, para a mobilização comunitária, na medida em que a confi ança que a comunidade deposita no meio e nos profi ssionais da sua “banda” servem de elementos para a efectivação do processo comunicativo, sobretudo, numa sociedade em que as instituições carecem de confi ança por causa da crise de identidade de que padecem. Além disso, por não visar o lucro, o jornalismo comunitário tem os holofotes voltados para a formação das pessoas cujas matérias traduzem a contextualização do facto de forma humanizada.

O outro forte desta forma de trabalhar a informação, reside na sua relação com a comunidade, “sendo que não pode haver jornalismo comunitário sem a comunidade”. “Portanto, torna-se necessário que o meio para atender a determinada comunidade e ser reconhecido por ela paute as questões de interesse dela, valorizando a cultura local e as particularidades da região. Entretanto, isso só não é o suficiente, um órgão para ser na sua essência comunitário, precisa ter a participação da comunidade” (FREITAS, 2006). O que não acontece na grande imprensa.

Para conhecimento, o nosso país é o único da África Austral que não tem ofi cialmente orgãos de comunicação social comunitários. E ainda não possui sequer uma legislação específi ca sobre este importante tema. Depois de muito tempo, o assunto voltou a ser abertamente tratado no consulado de João Melo, enquanto ministro da Comunicação Social. Porém, até agora não se sabe mais nada. Neste capítulo das liberdades de imprensa, de informar e de se informar, o staff do Presidente João Lourenço arrisca-se a perder a opotunidade de acentuar a sua marca de gestão naquilo que seria um autêntico sinal de mudança de paradígma neste sector, quando já só faltam cerca de 2 anos para terminar o seu mandato.

No seguimento do aludido capítulo, vale referir que a actual Lei sobre o Exercício da Actividade de Radiofusão exige 250 milhões de kwanzas para os operadores de cobertura nacional e internacional, bem como 75 milhões para os operadores de cobertura local, como capital social mínimo para abrir uma rádio. E nesta fase em que se espera o investimento extrangeiro no país, bem como o fomento de empresas angolanas em vários sectores do tecido económico, aqueles valores espantam a caça!

Em fi m! Todavia, “é preciso pensar a comunicação tendo em conta a diversidade cultural, porque nem o avanço das técnicas, nem o domínio económico e militar poderão escapar a este impretivo: os povos e as culturas querem ser respeitados, sendo que não há informação nem comunicação sem o respeito do outro, do receptor”( WOLTON, 2006).

*É Licenciado em Ciências da Comunicação/Jornalismo.

E porta-voz da Associação de Comunicólogos Angolanos.

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