Contradições virais

O novo Coronavírus, o SARSCoV-2, este mesmo que causa a Covid-19, nome de doença nova mas que já toda a gente sabe pronunciar, é absolutamente cínico. Está a dar às pessoas aquilo por tanto reclamam, que é tempo para descansar, estar com a família, ler, estudar, etc., mas ao mesmo tempo tira o futuro a muitas delas, destruindo-lhes implacavelmente os empregos. Tem um humor negro, algo tétrico, põe casais em casa para eles descobrirem que afinal não se aturam vinte e quatro horas. Já há notícias de divórcios em muitas partes do mundo.

Mas é um perfeito ditador e aliado dos que odeiam a liberdade de imprensa e o jornalismo plural e livre. Aliás, OPAÍS experimentou isto, uma vez mais, na semana passada. Como diz a brasileira Cristina Tardáguila, especialista em desmontar informações falsas e fake news do Poynter Institute, nos EUA, “Nunca como hoje o bom jornalismo foi tão valorizado pelos leitores”. Sim, no meio das milhares de peças que circulam pelas redes sociais todos os dias, as sociedades procuram por informação verdadeira, verificada, credível. As pessoas voltaram rapidamente a ter por via do jornalista a sua janela segura para o mundo. Devemos isto ao SARSCoV-2. A informação deve ser tratada com profissionalismo.

Os jornalistas estão também, realmente, na linha da frente da luta contra a pandemia. A informação é, até agora, a única vacina contra a doença. Mas há um país que destoa, bem, confirma a prática triste. Como os nossos dirigentes não lêem jornais (dói-lhes logo a cabeça, os olhos, o cérebro), com medo de adormecerem e isto lhes tirar a atenção de outras coisas mais “bisnais”, desactaram, logo no início da pandemia, a atacar a imprensa. Isto fica registado para sempre.

Mostraram o quão curto é o seu senso democrático. Em Benguela então, há “línguas” para tratar com álcool gel todos os dias. As pessoas estão mais ligadas aos noticiários da televisão e da rádio, procuram e lêem mais os jornais. Sentem que precisam de segurança. Mas este vírus é tão mau que recupera a imagem imprescindível do bom jornalismo e, por outro lado, quase que termino em poesia, ah, este Governo não se dá ao trabalho de anunciar medidas que salvem as empresas de comunicação e o bom jornalismo.

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