Engenheiros criam ventiladores para combate à covid-19

os engenheiros electromecânicos Rui António Cahote e Jessé de Jesus Manuel dos Santos António, de 35 e 33 anos respectivamente, criaram um ventilador que pode ser replicado e instalado nas unidades sanitárias preparadas para acudir eventuais casos graves de Covid-19

Numa altura em que os conhecimentos científicos e os valores da humanidade estão a ser postos à prova pela pandemia Covid-19, dois engenheiros formados na Universidade Jean Piaget de Angola decidiram pôr o seu saber ao serviço da humanidade sem esperar recompensa financeira.

A ideia surgiu em função das notícias assustadoras sobre a quantidade de vidas que são ceifadas diariamente pela pandemia e “da desproporção entre o número de infectados graves e os recursos hospitalares, onde a maioria das mortes acontecia por falta de ventilador mecânico”.

Em entrevista ao jornal OPAÍS, contaram que numa das análises sobre os efeitos e as consequências da Covid-19 emergiu a ideia de desenvolver um equipamento pulmonar e decidiram materializá-la. Tiraram alguns dias para estudar e pesquisar sobre como poderiam concretizá-la. Recorreram também aos conhecimentos de pessoas amigas sem, no entanto, violarem a regra de isolamento físico imposta pelo estado de emergência que já dura há cerca de 30 dias.

“Devido à quarentena ficou difícil trabalhar em grupo, mas tivemos dicas de várias pessoas, além de amigos que doaram alguns componentes que necessitávamos e não tínhamos disponíveis”. Feito isso, mãos à obra. Montaram uma pequena oficina em casa de Rui, ambos residem na Centralidade do Kilamba, e trabalhando arduamente, em cinco dias, incluindo o tempo de pesquisa, finalizaram o primeiro protótipo de ventilador que está a ser melhorado.

A estrutura é feita em madeira, pode ser em material metálico, possui um motor de 12v e um insuflador ou ressuscitador manual conhecido por AMBU. “Este insuflador manual na verdade já é usado em pacientes com problemas respiratórios, o que nós fizemos foi mecanizar”, esclareceram. A alimentação eléctrica é de 12V de corrente continua que pode ser ligada a uma bateria de 12V ou numa fonte conversora de 220AC para 12V DC. Ela possui uma chave de liga/desliga e com posições de velocidades para diferentes ventilações.

Rui António Cahote e Jessé dos Santos António enfatizam que o ventilador é um equipamento de baixo custo, de simples construção, mas que pode responder às necessidades de um ventilador dentro de uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), se for melhorado. As dificuldades acima mencionadas podem ser consideradas mínimas, se comparadas a outras que Rui e Jessé enfrentaram para chegar a este estágio. Por causa do estado de emergência tiveram alguma dificuldade para localizar insumos, materiais fáceis de encontrar no mercado nacional em dias normais.

“Inicialmente, trabalhamos com madeira e em função das opiniões estamos a melhorá-lo para ser em material metálico. Não temos montado ainda um laboratório, estamos a trabalhar na casa Rui, precisamos de recursos”, frisaram. Até agora só realizaram alguns testes de mecânica, num dos quais colocaram o ventilador a funcionar mais de 24 horas e não apresentou problemas. Esclareceram que só não fizeram ainda o teste de volume corrente em mililitros por falta de recursos, como um pulmão mecânico com medidor de volume.

O ciclo respiratório por minutos é outro teste que também ainda não fizeram por falta de recursos. “A máquina gera uma pressão mínima superior a 60 centímetros cúbicos de H2O [fórmula química da água]”, garantem. Baseando-se nos estudos realizados, dizem que o volume corrente máximo que tem sido usado em pacientes com Covid-19 é de 900 mililitros, pelo que acreditam que este ventilador consiga gerar um volume superior a este.

Criadores aguaram por colaboração da classe médica

Neste momento, a dupla trabalha nos modos de operações ventilatória de pressão corrente, volume corrente, o tempo inspiratório, a frequência respiratória, os alarmes e as curvas ventilatórias, mas por falta de um laboratório específico e com equipamentos estão com dificuldades para melhorar o projecto. “Até ao momento, nenhuma instituição vocacionada em pesquisa e investigação nos contactou e desta forma é difícil trabalhar. Mas não desistimos”.

Acrescentaram de seguida, a título de exemplo, que precisam de abordar alguns aspectos com médicos ou especialistas de saúde pública no que concerne à carga/pressão de ar necessária à oxigenação pulmonar (estudo do risco) e ninguém até agora mostrou interesse. O que até certo ponto dificulta a conclusão do projecto. Sublinham que quando pensaram em desenvolver o equipamento foi no sentido de solidariedade, não com fins económicos, por isso é que estão a considerá-lo como um projecto aberto.

“Qualquer interessado pode contactar-nos e estamos abertos a dar informação sobre o projecto e aceitar todo o contributo”. Questionados se este é o primeiro projecto da dupla, responderam que ser o primeiro que apresentam publicamente, mas têm um portfólio de projectos em carteira principalmente na aérea de energia verde.

“Inovar é a única saída”

Rui António Cahote – licenciado em Engenharia Electromecânica pela Universidade Jean Piaget de Angola e em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto. É quadro da Sonangol destacado na área de Refinação de Petróleo como Engenheiro de Manutenção.

Ao ver o projecto funcionar nessa primeira fase, Rui Cahote disse estar imbuído de um sentimento de patriotismo, orgulho, acima de tudo, por saber que é útil à sua pátria. “Em tempos de crise, inovar é a única saída. Estou motivado a continuar a criar e a inovar porque com elas, é possível fazer mais com menos. Fazer coisas diferentes para chegar aos mesmos resultados”, frisou.

“Pode responder às exigências de um ventilador convencional”

Jessé António – licenciado em Engenharia Electromecânica pela Universidade Jean Piaget de Angola. Este docente de matemática e física do Instituto Politécnico Elsa Mina garante que “é uma máquina simples, mas funcional e pode responder as exigências de um ventilador convencional”.

Jessé António disse que a possibilidade de a sua criação poder vir a ser aproveitada pelas autoridades em benefício da sociedade faz-lhe sentirse parte da solução para o combate à Covid-19. Depois desta criação, o próximo desafio assenta na construção de um protótipo de um gerador electromagnético que produz energia amiga do ambiente e que não queima combustíveis fósseis.

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