Covid-19 destapa “pobreza extrema” em Benguela

Várias famílias em Benguela vêem o seu quadro social agravado devido às restrições impostas pelas autoridades administrativas e sanitárias no âmbito do estado de emergência, como medida de prevenção da Covid-19. O Governo local, por sua vez, admite haver “pobreza extrema”

Por:Constantino Eduardo, em Benguela

Muitas das famílias assoladas pela fome têm a sua renda dependente da venda de produtos em mercados informais, mas, com o estado de emergência, em vigor desde o dia 27 de Março, limitou-se o exercício mercantil em mercados informais, passando apenas para as Terças, Quintas-feiras e ao Sábado. Embora admitisse a existência daquilo a que chama de “pobreza extrema”, o Governo de Benguela não identificou as áreas mais críticas para as quais estará a equacionar respostas para mitigar. Entretanto, enquanto o Executivo não se adianta, dos bairros 4 de Abril, 17 de Setembro e 11 de Novembro, todos atrelados à zona B do município de Benguela, surgem relatos desoladores, estando alguns cidadãos obrigados a alimentar- se de “barbatória” (um fruto encarnado produzido por uma planta espinhosa), segundo relataram à rádio Ecclésia.

Participando via telefónica no programa matinal informativo sob condução do jornalista Zé Manel, os cidadãos falaram das dificuldades por que passam. Paulo Casemiro, morador do Bairro 4 de Abril, salientou que a cesta básica de que tanto fala o Governo de Benguela só lhe foi dada apenas uma vez e, depois, nunca mais soube do paradeiro dos técnicos do Gabinete de Acção Social, Família e Igualdade do Género, entidade do Governo Provincial de Benguela que gere o processo de entrega de bens a famílias carenciadas. Paulo Monteiro, um outro interlocutor, aponta a incapacidade do Governo, tendo-o acusado de estar a fazer publicidade enganadora sobre a alegada distribuição de bens de primeira necessidade. À Ecclésia, o activista Sérgio Chitata questionou a forma como as autoridades locais estão a gerir os produtos doados por vários segmentos políticos, sociais e empresariais, alertando para necessidade de observância da transparência, uma vez que há um número considerável de famílias carentes de bens de primeira necessidade.

Numa conversa via telefónica com OPAÍS, uma vez que se encontra a cumprir o isolamento físico, o director executivo da Organização Humanitária Internacional, Messelo da Silva, defendeu a necessidade de o Governo diferenciar o pobre do vulnerável. Ora, sem esta diferença, considera o activista, as acções do Governo neste quesito redundarão em fracasso. Conhecedor dos problemas das comunidades, Messelo da Silva questiona a eficácia das acções do Governo na distribuição de bens de primeira necessidade, em função do grito de socorro de vários cidadãos pedindo apoio alimentar. Entretanto, recentemente, a vice- governadora provincial para o sector Político, Económico e Social, Deolinda Valiangula, afirmou que o Executivo tem vindo a ser agraciado com bens de primeira necessidade para a consequente distribuição a pessoas carenciadas, por via do Gabinete de Acção Social, que já tem cadastrados os cidadãos vulneráveis. Se antes da pandemia, o quadro social de algumas famílias era caracterizado por dificuldades, esclarece Deolinda, hoje, com a pandemia da Covid-19, “pode-se falar em pobreza extrema”.

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