Ainda sobre medicina colonial e neocolonialismo em África

Como pensavam que nunca deixariam a África, os colonizadores não imaginavam que a primeira coisa que os Africanos fariam para recuperar a sua dignidade degradada seria um inventário. A his-tória espantosa que liga a África à Europa e às potências mundiais é pontuada por dominação e des-prezo.

Mas a África de hoje, esta África que está de pé, cheia de juventude vigorosa e que sabe que o conhecimento é a sua arma e que a ignorância a desarma, deseja conhecer os seus aliados para seguir o seu caminho em toda a consciência. Portanto, ela não pode não revisitar também a história da medicina colonial, que persiste, como demonstramos nos artigos anteriores. Esta África sabe que a história de amor que os antigos colonizadores afi rmam viver com ela nunca deu nenhuma prova de amor, mas que é bastante marcada por evidências de desencanto. Se o amor se ganha e se mere-ce, a África actual tem o direito de exigir provas, se realmente quisermos falar de amor.

Que em alguns círculos angolanos (inédito em África!) se fale de irmandade entre Angolanos e Portugueses, isso deve ser discutido com raciocínio e fundamentação. Talvez falem do fraternalismo defi nindo por Césaire, situação em que um irmão mais velho, imbuído da sua superioridade e certeza da sua experiência, pega-nos pela mão (com uma mão, infelizmente!

Às vezes de modo áspero) para nos conduzir no caminho onde ele sabe que se encontram a Razão e o RICARDO VITA* Progresso. Se é isso, pelo menos está claro! Mas se falam da verdadeira irmandade, esse vínculo nobre e natural que defi ne o senti-mento de solidariedade e amizade entre pessoas benevolentes, da mesma família ou não, isso deve ser vigorosamente debatido, para extrair e demonstrar o uso abusivo e inaceitável da bela noção, porque seria neste caso uma tomada de reféns por algumas pessoas, ansiosas por estabelecer a he-gemonia do seu mundo que eles querem impor à maioria.

Se estivermos a falar de uma irmandade que consiste em impor imaginários colonialistas e estrangeiros aos Angolanos, isso deve ser contes-tado e rejeitado com força. Se falamos dessa fraternidade que incita a desprezar as nossas línguas, a virar as costas às nossas culturas e à África, isso deve ser combatido com impetuosidade até a vitó-ria. Pois deve ser dito: a história que liga Angola a Portugal não é nada fraterna.

Pelo contrário, e a maioria dos Angolanos saberá disso e di-lo-á no momento oportuno. Mas o potencial de irmandade com este país, nosso ex-opressor – devemos chamar os bois pelos nomes – está à nossa frente, é uma irmandade que deve ser construída do zero. É uma fraternidade que deve estar ancorada na base de um universalismo comum, inclusivo e intercultural e não no universalismo assimilacionista, oblite-rante e alienador que confunde aliança e subordinação cultural ou outra.

Voltando ao racismo médico, o uso da África para fi ns de ensaios terapêuticos que benefi ciam principalmente os países ocidentais não data de hoje, é uma longa tradição colonial. Lembremos de que os Europeus teorizaram a hierarquia dos seres humanos de acordo com a cor da pele e colocaram o negro no último degrau da sua taxonomia. Assim, a África e os negros sempre foram vistos como uma reserva natural, um campo de experimentação, que contribuiu para o desenvolvimento da me-dicina ocidental. E é assim que se continua até hoje o espírito da « Missão Civilizadora ».

No artigo de 26 de Julho de 2019, falei sobre Saartjie Baartman, essa mulher Sul-africana que os Europeus apelidaram de Vênus Hotentote, que coisifi caram em benefício dos prazeres sexuais de homens brancos e da ciência da Europa do século XIX. O seu caso não é único. Os corpos colonizados e escravizados foram explorados pela ciência ocidental moderna, que, através de um sofrimento ex-cruciante infl igido a pessoas desumanizadas, lançou as bases para muitas práticas médicas cujo le-gado ainda existe.

Por exemplo, a partir de meados do século XIX, o doutor James Marion Sims, conhecido como pai da ginecologia moderna, começou a realizar pesquisas para desenvolver práti-cas médicas no campo da ginecologia. Para a sua ciência, escolheu desenvolver um conjunto de operações que confi navam as mulheres negras como se elas estivessem num talho.

Para testar ins-trumentos cirúrgicos, Sims praticava cirurgias nessas mulheres escravizadas sem anestesia. Esse cientista americano branco era o que podemos chamar de torturador, parece que ele tinha prazer em infl igir a pior dor a essas mulheres negras para afi rmar a sua ciência. Outro caso: Tunísia, em 1930.

Os cientistas franceses foram a este país realizar os testes para a vacina contra a febre amarela, por-que lá «não há escassez de material humano », afi rmou o microbiologista francês, Charles Nicolle. E na década de 1950, as populações africanas foram massivamente vacinadas, de Dakar a Léopoldville, apesar dos testes apressados e inconclusivos da vacina contra a doença do sono.

Em Gribi, no leste dos Camarões, quase mil pessoas foram vacinadas em 1954. E nos dias que se seguiram, quase trinta morreram de necrose fulminante e centenas sofreram de gangrena na área da picada. Portanto, é a história médica ocidental que condicionou os nossos imaginários sobre o corpo negro. Hoje, por exemplo, todos nós aceitamos na indiferença absoluta que as pessoas falem de doenças na televisão, na imprensa, no cinema, na publicidade, nos museus através de corpos negros.

E tudo isso é bem organizado, cultivando a ignorância sobre os verdadeiros debates, já que sempre se esforça para mostrar o lado positivo da colonização, para apagar a verdade e até silenciar as vozes que per-turbariam a falsa paz. Tudo isso serve para proteger a narrativa que é imposta, inclusive aos negros.

É assim, há quase quatro séculos, que a ciência colonial e o neocolonialismo exercem sobre os cor-pos negros o que eles consideram uma « missão do direito divino ».

* é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal) e do diário Libération (França). É co-fundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.

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