Rés-do-chão esquerdo

Não foi por amor que tu saltaste da janela abaixo naquele dia de Abril, 6 semanas depois de estarmos só nós dois fechados na casa sem ver mais nada para fazer que não fosse brincar ao mau amor de cada um e o painel de entrada da Netflix. Deixa-me desatinar… tu não te aproximes — disseste-me numa ameaça velada enquanto alargavas a fresta da janela da sala com aquela dignidade inocente que têm as más actrizes europeias mesmo quando imitam as divas do cinema mudo.

Olhasteme de alto a baixo com uma tristeza tão grande no olhar que só não era maior porque não sabias mais. Deprimente. Depois, fizeste uma pausa excessivamente longa – tinhas tão pouco jeito para o teatro dramático como para cozinhar – e disseste com mais pompa que circunstância: vou-me matar. Nem sequer te olhei de volta porque tínhamos estado a discutir a tarde inteira e eu já nem te podia ouvir.

Lá por sermos casados há 15 anos e termos ultrapassado sempre as crises cíclicas dos matrimónios — e eu ter aguentado sempre esse mau humor que descobri na segunda noite da nossa lua de mel — não quer dizer que me possas tratar dessa maneira. Deste vez eu não me responsabilizo.

A tua mãe não te ensinou nada, mesmo nada, nem aquelas coisas que era suposto as mães ensinarem às fi lhas no tempo em que eras nova, quando os telefones pesavam 5 quilos, nem sequer tinham teclas e estavam agarrados à parede. Nada. Começaste a falar em voz alta, depois a gritar, agarrada à persiana do lado de fora ¬ Olha para mim Celestino, olha para mim, estamos aqui fechados há tanto tempo e ainda não me deste um beijo, Celestino…. nem unzinho.

E os olhos esbugalhavam-se-te nas órbitas mais salientes que os de uma Suricata mais distantes que uma ida ao Girabola ou que uma Cuca na esplanada. Celestino, Celestino no que nos tornámos, aquilo que nós somos… Havia qualquer coisa de sobrenatural na tua histeria, romantizavas um tempo que nunca tinha existido. O confinamento fazia-te acreditar, por algum motivo desvírico que alguma vez tínhamos sido felizes.

Nunca fomos isso. A minha grande esperança, no dia em que o Governo decretou a solidão, era que finalmente percebesses que entre nós estava tudo acabado, e que nem sequer devia ter começado — e que passarmos muitas semanas juntos seria o suficiente para fazeres a mala e ires, de vez, viver para casa dos teus pais no 9º andar esquerdo, deixando-me ficar descansado a ver a repetição dos mundiais de futebol desde que o Mantorras era criança. Mas não.

Nem 15 anos, nem 6 semanas, nem nove andares, nem uma vida inteira de me veres infeliz foram suficientes para teres tomado uma decisão certa. Olha que eu atiro-me, eu atirome e nunca mais me vês Celestino, gritaste tu de novo. Oh dama histérica

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