Taxistas inflacionam o preço para compensar a corrida

Com o número reduzido (e permitido) de passageiros a transportar em cada corrida de táxi, por causa do distanciamento social imposto como medida de prevenção da covid-19, na semana finda, em algumas áreas da cidade de luanda, os taxistas passaram a cobrar de Kz 300 a Kz 500 a corrida que anteriormente custava 150Kz. Segundo o Sindicato dos taxistas de Angola, não se pode ver o taxista como culpado, mas sim como vítima da situação

Por:Romão Brandão

Um trabalho de constatação feito pelo jornal OPAÍS, nos municípios de Belas e Viana, propriamente nas vias Ramiros – Benfica e Estalagem – “Congolenses”, permitiu constatar a alteração de preços por parte de alguns taxistas, resultante do baixo número de passageiros (nas paragens) e do limite de pessoas nas viaturas. Durante a semana finda eram permitidas sete pessoas (a contar com o condutor e o cobrador) por cada táxi, os também conhecidos “quadradinhos”.

Deste número, evidentemente, apenas cinco pagarão o táxi, o que faz com que baixe do total de Kz 2100 para os 750 Kz arrecadados em cada corrida. Com os custos de manutenção da viatura, alimentação e depois a conta diária do patrão, os taxistas com quem conversamos disseram que não compensa, sendo preferível parar o carro a trabalhar e amealhar um terço da saldo que faziam antes da implementação das medidas de isolamento. Assim, os taxistas optaram por alterar o valor da corrida, em determinadas zonas, e noutras encurtar a rota. Do Ramiros ao Benfica, por exemplo, conversamos com o taxista Luís Francisco, que cobrava pela corrida Kz 300, ao contrário dos anteriores Kz 150.

Para ele, não há como cobrar Kz 150, pois “estaria a brincar e não a trabalhar”, já que, disse, “tenho de tirar o dinheiro do patrão, os trocados para nós (eu e o cobrador), a nossa alimentação diária, lavagem da viatura, combustível e, como se não bastasse, a gasosa do polícia”, disse. O taxista Luís obedece o limite de passageiros, até porque a Polícia está a levar a sério esta questão, evita problemas e prefere deixar claro, antes da partida da viatura, que o preço da corrida subiu para Kz 300. “Ou pagam este valor, ou teremos de paralisar. Por um lado, a paralisação poderá prejudicar muitos dos funcionários que estão a trabalhar neste período de quarentena, por outro, prejudicará também a nós que precisamos daquilo que trabalhamos diariamente para sustentar as nossas famílias. E, como vocês sabem, taxista não tem poucos filhos”, recordou.

Preço altera nos dias de mercado

Ainda na rota Ramiros – Benfica, registamos que o preço da corrida de táxi altera em função dos dias, isto é, quando o mercado provisório do Catinton [área das frutas e hortaliças], que foi transferido para o Ramiros, está aberto, a corrida muda para 500Kz. Alfredo Gonçalves, outro taxista desta via, disse que o preço muda porque é bem mais rentável levar as vendedeiras, que normalmente andam com cargas, do que um passageiro sem carga. “Compensa, pois, com este limite de passageiros e as senhoras a pagarem 500Kz e amis a carga, dá para cobrir os gastos”, sublinhou. A praça provisória do Catinton (no Ramiros) normalmente fica aberta na Terças-feitas, Quinta e Sábado. Com este mercado a funcionar, a Estrada Nacional 100 passou a ser muito movimentada, tendo registos de engarrafamentos em zonas em que antes o trânsito era fluido.

Entretanto, a subida do preço da corrida de táxi deixa enfurecidos os moradores do Ramiros, que esperam ver esta situação normalizada depois de passar o período de quarentena. Muitos estavam acostumados a pagar Kz 100 do Ramiros ao bairro do KM 30, mas hoje pagam de 150 a Kz 200. Enquanto nalgumas zonas o preço do táxi subiu para Kz 300, noutras, como em Viana, os taxistas encurtam a rota. Da Robaldina aos “Congolenses”, em que anteriormente se apanhava um táxi, os moradores são obrigados a apanhar dois (da Robaldina a Shopprite e deste ponto aos “Congolenses”). Na prática, acabam desembolsando também Kz 300, por uma corrida que anteriormente custava 150, como fez saber Wagner Mauro, que trabalha na Mutamba.

“Taxistas também são vítimas, não culpados”

Geraldo Wanga, do Sindicato dos Taxistas de Angola, disse que ao invés de se ver os taxistas como especuladores ou prevaricadores por estarem a entrar no bolso do cidadão nesta altura de pandemia, deve-se olhar estas pessoas como vítimas de um sistema de governação que tem estado a fracassar. Acrescentou que esta situação era previsível e tentaram mediar ao máximo possível, solicitando a intervenção do Governo provincial no sentido de exarar uma norma para que os patrões, enquanto durasse o estado de emergência, não exigissem o valor diário normalmente cobrado. “No nosso entender, para os carros a gasóleo o valor seria de 9 a 10 mil Kz e os a gasolina de 8 mil Kz, porque o custo operacional é duas vezes maior do que se produz.

Os taxistas estão a trabalhar com espírito patriótico. Nós temos restrições enormes”, disse. Segundo o agora sindicalista, não havendo subvenção do Estado ao combustível dos taxistas e com os autocarros públicos praticamente inoperantes, o preço praticado por alguns dos taxistas é justo. Assim, quando os mercados estão abertos, em vez de os táxis ficarem cheios, são as paragens que ficam cheias e não se cumpre o distanciamento de segurança. “Os taxistas estão a ser vítimas de um sistema falhado, e, como se não bastasse, quem paga é o pacato cidadão. Ele tem a obrigação de apresentar Kz 17 mil por dia ao patrão, me diz como ele vai conseguir este valor levando cinco passageiros por cada viagem? E os custos fixos mantêm-se, como a lavagem da viatura, alimentação e manutenção”, reforçou.

Venda de peças às escondidas

Por outro lado, durante a primeira prorrogação do estado de emergência, que terminou ontem, as lojas que deveriam vender peças de reposição (como cálços ou filtros, por exemplo) estavam todas encerradas. Os que conseguiam comprar, compravam-nas a preços também especulativos. O que o taxista fez, diante desta situação, é um acto heroico, segundo o entrevistado. Por isso, mesmo antes da segunda prorrogação do estado de emergência, alguns arriscavam transportar passageiros a 50% da lotação, já que as 12 viagens do dia não fechavam a conta (que não mudou) do patrão. “

Sem a actividade de táxi, numa situação emergencial, este país entra em colapso. Então, a solução é reduzir ao máximo as despesas, principalmente com os patrões, para que não haja especulação. O Estado está a sacrificar o sector do transporte privado, pois, se assim não fosse, a TCUL deveria estar a funcionar, mas não quer criar políticas viáveis para que os taxistas se sintam livres e satisfeitos exercendo esta actividade”, disse. Finalizou reforçando: “se quisermos que não haja especulação de preços durante o estado de emergência, os taxistas tinham de levar, no mínimo, 10 passageiros e ter o combustível subvencionado durante o período emergencial.

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