O amor é sempre um risco

O coração, como se diz, é a primeira vítima do amor, apesar de, na verdade, se tratar de um órgão que nada tem a ver com o dito sentimento. Pode sofrer em consequência de amores mal-resolvidos, mas é mais a actividade cerebral a implicada, e não é cantada. Ninguém quer saber de amor cerebral, soa a falso. Vale mais a ilusão. Bem, mental ou cardíaco, o amor, aquele de se tocar, beijar, sorrir, gritar e até matar (aqui já se diz que o cérebro fundiu), é sempre um risco para a saúde. Pelos milhões de bactérias trocadas em cada beijo… e fi quemo- nos por aqui. Tirando as bactérias, benéfi cas até, algumas, há sim doenças, muitas, que se pode apanhar numa relação amorosa. Não, não falo da trombose, da histeria, etc.. Mas agora o amor não é apenas um risco para a saúde a que nos entregamos pela ilusão e como mecanismo de perpectuação dos genes, está intervencionado pelo Estado. Há imensas histórias de corações (lá estou eu com órgão bombeador outra vez) separados pela Covid-19. Alguns na mesma casa, outros em países diferentes, em continentes diferentes. Talvez o vírus seja um medidor do amor, mas aí quem vigia o ponteiro é mesmo o cérebro, que decide se haverá mais depois da pandemia, ou não. Porque amar pressupõe afastamentos e reencontros constantes, a toda a hora, é um caminho de aproximação sem término. Agora o Estado impõe o afastamento físico para quem está só em metade em Luanda. Os de Benguela poderão amar os do Sumbe, os de Luanda estão cercados. O Estado mantém uma cerca sanitária. E vir a Luanda amar é um risco. Não é permitido. Flores, só as digitais, ao telefone, pela Internet. O perigo não é apenas o toque, é estar juntos, é falar perto, segredar. O SARSCoV- 2, nome de baptismo do vírus, é um fi lho da mãe, um varredor de ilusões, um cínico a que sobreviverão apenas os amores verdadeiros, num mundo em que o coração (já que querem que seja ele) vive de fi ngir amores que põem em risco o estágio maior da saúde: a felicidade.

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