Outra vez a Guiné Bissau

Em meio à pandemia da Covid-19, CEDEAO legitima PR da Guiné Bissau.Portugal assina por baixo. E Angola?…Umaro Sissoco Embaló pode não ter sido o candidato mais votado na segunda volta das presidenciais na Guiné Bissau. Mas isso difi cilmente será provado. Domingos Simões Pereira, líder do partido no poder, o PAIGC, poderia ter sido eleito Presidente da República na primeira volta. Mas houve uma grande dispersão de votos tendo em conta que emergiram mais dois candidatos do seu próprio partido entre os cinco concorrentes ao cadeirão presidencial. Além disso, a maioria dos guineenses não está familiarizada com os capítulos e versículos da Bíblia Sagrada. Para muitos, o Al Corão fala mais alto e as divindades tradicionais calam fundo. Em boa verdade, Luanda fi ca longe e Lisboa já não manda. Dakar e Conakry são importantes pontos cardeais para muitos guineenses. Por esta e por outras razões, ao impugnar os resultados eleitorais sem a prova material da fraude eleitoral, Domingos Simões Pereira, um adepto ferrenho da lusofonia, escancarou as suas próprias fragilidades uma vez que foi convertido, pelos seus detractores, num factor de instabilidade. Depois de anos a fi o de disputas insanáveis com José Mário Vaz, o irascível JOMAV, seu antigo camarada das lides partidárias, e não tendo obtido maioria na primeira volta, Simões Pereira deveria ter refl ectido serenamente sobre as feridas ainda por sarar em toda a Guiné Bissau. Em 47 anos de independência, o Povo Guineense nunca viveu na paz merecida. Recusar os resultados eleitorais, em África, é sinónimo de instabilidade. O PAIGC, partido fundado por Amilcar Cabral para resgatar a dignidade dos povos da Guiné e de Cabo Verde, perdeu-se no tempo e no espaço. A traição que ceifou a vida do líderfundador agigantou-se depois da independência, exacerbou as diferenças étnicas (a maior riqueza da Guiné Bissau) e impediu que os guineenses harmonizassem, com total autonomia e dignidade, a nobre matriz africana e a inegável herança colonial. Portugal só complicou, e de que maneira, porque nunca se refez da derrota que lhe foi infl igida nas colinas de Madina de Boé. Os PALOP também não foram lá de grande serventia, tendo em conta que o único traço de união era o passado de luta contra o opressor colonial comum, de quem herdaram a língua, os vinhos e o bacalhau. As independências não proporcionaram uma sólida cooperação económica, cultural e científi ca. E a CEDEAO aproveitou, ou melhor, chancelou o sentimento natural de pertença real. Afi nal, os povos da Guiné Bissau são entes inseparáveis de uma consan- JOSÉ NETO ALVES FERNANDES* guinidade milenar plasmada no ADN da África Ocidental. É por isso que a CPLP nunca teve voz activa na Guiné Bissau e os petrodólares de Angola sempre foram encaixados com indisfarçável desconforto. Lembram-se da MISSANG, a missão militar angolana destacada em Bissau para apoiar a formação das forças armadas do país irmao? Foi literalmente escorraçada em Abril de 2012, num contexto que só não resvalou para uma guerra porque a diplomacia vingou. Mas não impediu que a Guiné Bissau fosse transformada um narco-Estado, dopado com o pó branco produzido em laboratórios subterrâneos dos principais cartéis das Américas. Despachado em navios com bandeiras do submundo para as paradisíacas ilhas guineenses, habitadas por divindades que os forasteiros simplesmente ignoram, o produto empacotado e encapotado passou a ser injectado nas contas bancárias de generais, tarimbados desde a guerra colonial, e políticos de diferentes feições, enredados numa teia de cumplicidades que se estende pelos labirintos da África Ocidental. Luanda e Lisboa não fazem parte dessa geografi a. A CPLP é um expediente criado para reunir países sem continuidade geográfi ca nem pujança económica como a Commonwealth e a Francofonia. A CEDEAO reúne países fronteiriços, povos com a mesma ancestralidade, condenados a viver juntos. Para todo o sempre. A CEDEAO tem um exército comandado pela toda poderosa Nigéria, a pérola africana da Commonwealth, com mais de 200 milhões de habitantes. E conta com uma diplomacia impulsionada pelo Senegal e a Côte d’Ivoire, dois pilares sólidos da Francofonia. A União Africana difi cilmente contraria as posições da CEDEAO e as Nações Unidas olham para África com os olhos da Europa e dos Estados Unidos. Para o ocidente, em caso de desinteligências profundas em pleitos eleitorais africanos, é sempre melhor um arranjo político entre as elites, acomodando uns aqui e outros ali e acolá, nem que o candidato mais votado não seja proclamado vencedor. Nas últimas eleições na RDC, Martin Fayulu foi comprovadamente o mas votado mas quem assumiu a Presidência da República foi Felix Tshisekedi, com o beneplácito da comunidade internacional. E porquê? Porque se Fayulu chegasse ao Palácio das Nações, residência ofi cial do PR da RDC, levaria Joseph Kabila à barra do tribunal, facto que poderia tornar muito mais explosiva a situação de um portentoso país dilacerado por confl itos intermináveis. No caso da Guiné Bissau, Domingos Simões Pereira difi cilmente dormiria o sono dos justos no Palácio da República, sede da Presidência da República, com José Mário Vaz e os barões do narcotráfi – co em plena liberdade. Assim se explica a complacência da CEDEAO e a abertura dos Chefes de Estado da região, a começar por Macky Fall do Senegal. Os líderes da África Ocidental apressaram-se a receber Embaló com honras de Estado sem esperar pelo veredicto do Supremo Tribunal da Guiné Bissau. Quanto aos impropérios, irrefl ectidos e inadmissíveis, proferidos recentemente pelo auto-proclamado presidente de todos os guineenses contra o Chefe de Estado Angolano, o tempo tratará de resolver. Não se pode mudar o passado. Ao ser reconhecido formalmente pela CEDEAO como Presidente da República da Guiné-Bissau, tendo sido felicitado em tempo record pelo primeiro- ministro português, António Costa (Portugal tem foco!…) Umaro Sissoko Embaló não hesitará em retratar-se perante João Lourenço, porque não quer fi car mal na foto de família da CPLP nem pretende ser o desmancha prazeres dos PALOP. Afi nal, o novo coronavírus, apesar de ser altamente mortífero, pode ajudar a reforçar a unidade sempre adiada entre todas as Nações Africanas.

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