Caluquembes da minha terra

Em meados deste mês, o município de Caluquembe, a 180 quilómetros da cidade do Lubango, capital da Huíla, ganhou dimensão internacional não pelas melhores razões. Nesta terra de gente humilde, um grupo de jovens usou da força para destruir, parcialmente, a sede municipal do partido MPLA, dos Bombeiros, da Polícia Nacional e até mesmo da representação dos advogados por terem sido transferidos do mercado local. Em outras palavras, a raiva atingiu quem governa, quem tem o papel de proteger e até aqueles que, eventualmente, poderiam defendê-los num processo como o que se diz estar em curso. Não sendo apologista da violência, espera-se que se responsabilize os que desrespeitaram as referidas instituições, do mesmo modo que se procure, também, aferir as causas reais do incidente. Um comunicado do Governo Provincial da Huíla indica que os incidentes tiveram como base o encerramento do mercado da Alemanhã e a transferência deste para um outro sítio, supostamente com melhores condições sanitárias. Embora aceitáveis as desculpas, ironicamente muitos destes mercados cresceram em catadupa e proliferaram em todo o país, independentemente das condições sanitárias, sob o patrocínio das respectivas administrações municipais, que vêem nelas a fonte de fi nanciamento de muitas das suas actividades. Os Caluquembes da minha terra são vários. É o Chapanguele no Lobito, o Zorro no Luena, Roda em Malanje, e os nacionais Km 30, Catintom, Kwanzas, Congolenses, Kikolo, Asa Branca e outros em Luanda. Distante das questões criadas actualmente pela Covid-19, cujo contágio é maior nas zonas de maior aglomeração, muitos dos nossos mercados de ‘Caluquembes’ ou da ‘Alemanha’ em Luanda e noutros pontos do país sempre foram focos de doenças várias. Desde cólera, malária, tuberculose, sarna e outras devido às condições precárias que nunca mereceram a devida atenção do próprio Executivo. Imortalizado na célebre ‘Katuta’, música da autoria do malogrado Bell do Samba, o Roque Santeiro, tido como o maior mercado a céu aberto em África, só teve o seu fi m por força de um megalómano projecto imobiliário que visava abranger toda aquela área, mas que do papel até hoje não sai. O Roque Santeiro sempre foi uma das maiores fontes de receita da Administração do Sambizanga – e do Governo Provincial de Luanda-, com entradas milionárias longe dos trocos que, se calhar, hoje se contenta o novo edil com o Mercado do São Paulo. Quem passou anteriormente pelo Sambizanga, como manda chuva, no tempo deste mercado, ainda hoje levanta mãos aos céus pela escolha feita pelo ‘Criador’ de outrora. Os problemas criados com o desmantelamento do Roque Santeiro, cujos efeitos hoje ainda são visíveis porque nem todos optaram por mergulhar no desafi o lançado no Panguila, hoje Bengo, deveriam servir de mote sempre que se tivesse em conta a desmobilização de mercados daquela dimensão ou aproximados. Num país em que se fazem muitos estudos e se contrata assessores para todos os gostos e sabores, a impressão que se fi ca é a de que muitos dos estudos em relação aos mercados – alguns ditos informais- não se tem em conta a realidade das próprias localidades e a importância que DANI COSTA cada um deles representa para os populares. A escolha dos locais e a forma como alguns deles são removidos a bel-prazer de quem pode e manda, se calhar ainda fundamentados na lógica de Mao de que ‘o poder está na ponta da espingarda’, descura em alguns momentos o interesse de quem lá exerce as suas actividades. Os mercados hoje não apenas os sítios em que gente desavisada, sem eira nem beira, procura o seu ganha pão. Tal como nos anos 90, uma vez mais, Bell do Samba, já anunciava que até os doutores lá tinham as suas bancadas, nestes tempos que vivemos, com uma pleiade de desempregados até mesmo licenciados, alguns viram oportunidades nestes espaços para continuarem a viver. De funcionários públicos, integrantes das administrações municipais, a roboteiros, os mercados tornaram-se num meio e numa forma de vida que merecia já começar a ser visto de outra forma pelo Executivo, sobretudo nesta fase em que se luta acirradamente pela formalização de vários sectores da nossa economia. A única ligação entre os milhões de vendedores e a administração tem de deixar de ser apenas os milhões que engordam não só as contas públicas como também os bolsos daqueles que tiveram a sorte de calhar em mercados de grande dimensão. Se assim não fosse, a julgar por aquilo que entra nos cofres públicos, muitos destes mercados já estariam em melhores condições de salubridade e não seriam nunca foco de doenças. E a Covid-19, que, felizmente, ainda não bateu a porta destes mercados nem chega aos pés dos estragos já causados por outras doenças com os quais os vendedores convivem há anos.

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