Centenas de flamingos em Luanda depois da reflorestação de mangais

A campanha de reflorestação de mangais levada a cabo pelo Projecto otchiva começa a dar os primeiros resultados. o sinal vem do ramiros, com o regresso de centenas de flamingos depois de serem restaurados com mais de 70 mil mangues plantados, numa área de 45 hectares que estava a caminho da desertificação

Por:Milton Manaça

H á mais de um ano que estas aves migratórias não eram vistas em grande número na orla costeira de Luanda, propriamente na zona dos mangais do Ramiros, na entrada por terra do Mussulo, no Quilómetro 44, que já foi uma zona com regular frequência de flamingos. A população local atribui o “milagre” do regresso ao projecto de reflorestação de mangais que tem sido levado a cabo pela Otchiva, assim como a redução da poluição do mar nos últimos dias, como efeito da Covid-19.

Cerca de 72 mil mangues foram plantados nesta costa com uma extensão de quase 45 hectares, no dia 1 de Fevereiro do corrente ano, juntando-se aos outros 31 mil mangues que já tinham sido colocados na contra-costa do mesmo espaço em Janeiro, perfazendo mais de 100 mil. Apesar de serem aves migratórias, os flamingos só frequentam o habitat se o mesmo apresentar as condições de que necessitam para se alimentarem e se acomodarem, e é apenas em zonas húmidas como os dos mangais, onde os crustáceos (seus alimentos), se reproduzem. No local já se vislumbram pequenos crustáceos, moluscos e peixes, espécies que usam os mangais para se abrigarem e reproduzirem.

Os mangais são responsáveis também pela restauração dos solos e refresco das águas nestes espaços, outras das condições indispensáveis para a permanência das aves. Aliás, estas árvores absorvem cinco vezes mais dióxido de carbono que as plantas normais. Os flamingos regressaram às centenas e espera-se que o número vá aumentando à medida que os hectares de mangais forem crescendo. Em Angola, grande parte dos mangais foram destruídos nos últimos anos para dar lugar a construção de infra-estruturas. Noutros casos, foram transformados em destino para lixo e entulho, por isso, muitos desses locais se encontram poluídos. “Quer dizer que onde não há mangais os flamingos não ficam. Antes da plantação dos mangais, nós tínhamos eles aqui em número reduzido”, disse Adriano Tomás, funcionário e residente na Escola ADPP que se tem dedicado à fiscalização do espaço.

Sentimento de dever cumprido

Domingos Comunitários

Adriano Tomás sabe que com o regresso dos flamingos abremse as portas para o fomento do turismo e, por esta razão, a escola ADPP decidiu envolver a comunidade ao redor para preservação dos mangais, com acções de formação. As formações, que se traduzem em sensibilização, todos os meses, foram baptizadas de “Domingos Comunitários” por se realizarem todos os últimos domingos de cada mês. Para além dos mais de 100 mil mangues replantados no Ramiros, a comunidade e a escola ADPP criaram um viveiro e reflorestaram 44 hectares, depois da campanha do Otchiva de 1 de Fevereiro do corrente ano que plantou 70 mil árvores.

A campanha de reflorestação de mangais, na orla costeira de Luanda, começou em 2018, tendo chegado já a meio milhão de mangues. Para além do Ramiros, Mussulo, Benfica, Morro dos Veados, Quilómetros 26 e 30 são os outros locais em que já se efectou campanhas. A OPAÍS, os promotores do Otchiva dizem que se não fosse a situação da Covid-19 que assola Angola e o mundo, Luanda estaria neste momento com mais de um milhão de mangues plantados. Desde a sua fundação, o projecto desenvolve a sua acção no Lobito, Luanda e Soyo. Estendê- lo para Cabinda, Cuanza-Sul e Bengo faz parte da meta. Neste momento, Angola faz parte do ranking mundial de restauração de mangais, junto do Senegal, que lidera as estatísticas.

Para a engenheira Fernanda Renée, que coordena o Projecto Otchiva, o sentimento é o de dever cumprido, ver os mangais já germinados nos 45 hectares reflorestados, o que permite que os flamingos regressem. A angolana que no dia 3 de Março do corrente ano viu a União Africana a reconhecer o seu trabalho e distinguir-la com um diploma de mérito, diz que o regresso dos flamingos é resultado do trabalho de centenas de voluntários de diferentes franjas sociais que nos últimos dois anos têm participado nas campanhas.

Influenciar a aprovação de uma lei específica sobre a protecção dos mangais é o objectivo do Otchiva de Fernanda Renée, pois, sabe ela que a legislação beneficiária também várias espécies marinhas e as aves, como é o caso dos flamingos, um potencial chamariz turístico. “É preciso lembrar que Angola não tem áreas de conservação marinha e precisa com uma certa urgência fazê-lo, pois, evitaríamos a extinção de inúmeras espécies importantes para todo ecossistema marinho”, disse. Importa realçar que internamente, a reflorestação de mangais conta com o apoio do vicepresidente da República, Bornito de Sousa, que há três meses abriu a campanha do Ramiros plantando simbolicamente quatro mangues, no local onde hoje os flamingos dão o ar da sua graça.

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