Pandemias esquecidas

Epidemia é sinónimo de Covid-19? Eu acho que não, pelo menos assim de forma radical e absoluta. Há outras muitas epidemias que estão connosco no nosso país. Aquelas mesmo que antes da Covid-19 já nos deixavam muito mal colocados na comparação com outros países em matérias médicas, tanto nos cuidados como no acesso a tais cuidados. Este tipo de “matadouro” nunca fechou, apesar de agora fi ngirmos todos que maka é só mesmo o novo Coronavírus, que, felizmente, nem anda muito por cá. É fi gurativo, mas outra epidemia cá, aliás, pandemia mesmo, é a da fome, mata que mata, de forma directa ou indirecta. E quando não mata “já”, mata hoje para se morrer amanhã de indigência. Falo das crianças que sobrevivem subnutridas, sem instrução, sem saídas, que depois a sociedade marginaliza e se tornam jovens ou adultos pouco “prestáveis”, ou mesmo “inúteis”, uma mar de gente que as elites manipulam como bem entendem. Era bom que o ímpeto que os governos dão ao combate contra o Coronavírus, incluindo o nosso Governo, se estendesse para o combate a todos os outros males. Metade desse esforço e atenção resolveriam os crónicos problemas de falta de saneamento, das escolas sem água, sem bibliotecas, sem carteiras, sem comida, sem professores; dos bairros sem ruas, dos hospitais sem pessoal e sem medicamentos, das cidades engarrafadas por falta de transportes públicos. Há muito mais a matar neste momento e toda a gente focada num único problema, toda a gente feliz por a Covid-19 estar a marcar passo por cá, como se tudo fi casse bem. O que eu gostaria mesmo de ver, e é perfeitamente possível, era o Governo a realizar sessões diárias de apresentação da situação epidemiológica do país, ou do estado da situação da saúde, com números sobre a malária, sobre a tuberculose, SIDA, febre tifoide, cólera, raiva, sarampo, cancro, fome, etc., teríamos o país real e ou nos desesperávamos e desistíamos, ou ganhávamos vergonha na cara e começaríamos a trabalhar.

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