“O Coronavírus desactualizou todos os planos do Governo”

A revisão orçamental constitui, neste momento, um dos principais desafios do Governo, Ante a crise pandémica. O economista Yuri Quixina desaconselha a suspensão das despesas de capital

Por:Mariano Quissola / Rádio Mais

A retoma da actividade económica constitui destaque da prorrogação do estado de emergência. Você já aconselhava para este sentido. Está satisfeito? O programa Economia Real está de parabéns. É o único programa que apontava já para o início do desconfinamento. Sugerimos que houvesse um grupo que se dedicasse ao estudo do processo de desconfinamento e o Governo ouviu. É importante afinarem- se os mecanismos de segurança para controlar a doença no nosso país. Defendi, na semana passada, que devíamos apreender a viver com o vírus, porque essa doença veio para ficar.

Essa decisão surge poucos dias depois de as Nações Unidas terem recomendado Angola a adoptar medidas que permitissem a continuidade da actividade económica das micro e pequenas empresas e do sector informal. Terá sido por isso?

Para além da análise que fizemos na semana passada, penso que o Governo ouve o nosso programa, naturalmente, as Nações Unidas fizeram um estudo brilhante, com conselhos e recomendações interessantes, porque perceberam que mais de 70% do povo angolano está no mercado informal. Confinar esse povo em casa é eliminar a condição da sua sobrevivência. Sempre defendi e repito: o estrago da Covid-19 será inferior às consequências das medidas do Governo para combater os efeitos da doença.

Um país que já vem de depressão económica e suspende a actividade económica também não terá saúde. A ONU diz, por exemplo, que o Governo não deve apenas fazer a revisão orçamental, mas de todos os planos. Significa que a Covid-19 desactualizou todos os planos do Governo. O Governo está a orientar-se, neste momento, sem planos. O PDN previa crescimento, mas neste momento só haverá decrescimento. Isso pressupõe que o PRODESI, o PAPE, o PAC estão todos desactualizados, porque em nenhum momento previram a paralisação da economia por um mês

Qual é sua opinião sobre o facto de a Nova Cimor Moagens ter comprado milho aos camponeses da Matala, na Huíla, tendo em conta o recorrente problema do escoamento? Isso é um exemplo prático de que a agricultura sem a indústria não salva o país. Oiço muito as pessoas dizerem que o caminho é a agricultura. A acção dessa empresa veio demonstrar que a indústria é o caminho pelo qual os produtos agrícolas podem ser encaminhado para ser um instrumento para o desenvolvimento.

O Ministério das Finanças suspendeu parte das despesas de capital sem financiamento garantido, fruto da baixa do preço do petróleo e do impacto da Covid-19. O que lhe parece?

É uma migalha do que virá a ser a revisão orçamental. Primeiro, a orientação das unidades orçamentais para suspensão dos contratos sem financiamento assegurado é reflexo de que aquilo que estava previsto no OGE/2020 não se vai realizar. Segundo, é um susto da queda do barril do petróleo. E é sempre assim, eu já assisti a este filme no passado, quando foi da queda do preço em 2014. O ministro das Finanças, na altura, também foi a suspensão de execução dos projectos. Preocupo- me muito com o país no longo prazo, não só por ser economista que defende a economia da livre iniciativa do povo, mas é por ser o instrumento, por excelência, para o desenvolvimento. Quando temos uma queda do preço do petróleo, nunca devíamos pensar nas despesas do imediatismo, mas nas de longo prazo. As infra-estruturas parciais, que reduzem os custos dos empreendedores, são sempre que as param. Do ponto de vista da formação bruta de capital, fica zero.

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