O problema não é a propina

Há uma grande agitação em torno da questão das propinas em Angola, e ela tem causas. A primeira, menos sólida, apesar de politicamente ser de enorme relevância, é a que diz que a ministra da Educação está em perfeito conflito de interesses por ter o seu nome associado a uma empresa detentora e gestora de colégios privados. Ao ser verdade, mais cedo ou mais tarde ela seria confrontada com este problema, a não ser que se provasse que traria ao ensino nacional os resultados de boas práticas pedagógicas nos ditos colégios. Mas, ainda assim, a maka maior não é esta. A ministra do Ensino Superior, até onde sei, não tem o seu nome ligado a alguma universidade privada, ou a qualquer instituto, mas também no universo universitário a contestação é grande e ameaça causar dores de cabeça ao Governo. O problema é bem mais sério. Merece um grande debate e um compromisso solene do Executivo. O problema é o adiamento do país a que nos entregamos alegremente. Alegremente porque colégios e universidades privados já foram negócios bem melhores, agora começam a ser empresas difíceis de gerir, sobretudo se a gestão perseguir qualidade. O que temos são empresas com salas de aulas e nada viradas para o que deve ser o ensino de qualidade. Os empreendedores já só se agarram às contas e aos lucros possíveis. É nisto que está o nosso drama. É dramático porque os pais não têm opção outra que não a de fingir que põem os filhos em colégios e em universidades privadas de qualidade que fingem não saber que não têm nem condições e nem meios para prestar o mínimo de qualidade. E temos o Estado a fingir que controla a situação, envolvendo-se numa relação contratual entre cidadãos sem alternativas e empresas que não podem oferecer o que não têm. O Estado sabe que para a qualidade que exige, estes estabelecimentos cobram demasiado pouco, na nossa realidade. E, se é para falar de drama, se estes estabelecimentos param, o Estado fica com cerca de setenta por cento de crianças e jovens em casa. É este o problema.

O Pais

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