“O próprio Coronavírus obriga o humano a ser mais humano”

Em Itália desde o ano passado, o filósofo e sacerdote católico Artur Pina fala, em entrevista ao jornal OPAÍS por e-mail, sobre este momento tenebroso que o mundo vive em consequência da pandemia da Covid-19, das medidas de combate à expansão do vírus em Angola e deixa algumas recomendações às famílias angolanas

Por:Paulo Sérgio

Temos conhecimentos de que tem feito aí a formação. É possível descrever a Itália de hoje e a de ontem (outra ocasião em que o senhor esteve aí)?

Na verdade, estou em Roma. Roma é apenas a capital de Itália. Por isso, alguma coisa sobre Roma posso descrever, mas descrever sobre a Itália seria a mesma coisa que ver a existência na aparência.

A forma como o vírus se expandiu pela Itália apanhou todos desprevenidos?

A dizer a verdade, se o vírus começasse na Itália, apanharia alguns desprevenidos. Mas, como não começou na Itália, somente ficou desprevenido quem quis dormir.

Não lhe parece que a velocidade com que o vírus se propagou demonstra que apanhou muita gente desprevenida?

Se fosse o caso, então o vírus não teria penetrado onde houve medidas antecipadas.

As autoridades tinham possibilidade de contornar a situação?

Se o vírus matou muitos médicos, mas nenhum médico conseguiu matar o vírus, podemos responder que possibilidades possíveis havia, mas possibilidades realizáveis não.

Durante algum tempo fomos acompanhando pelos media que o número de mortes diárias era superior a 500. Que sentimento se apossou de vós no princípio?

O sentimento, o verdadeiro sentimento era de perceber a morte como uma possibilidade e como um facto. Possibilidade, enquanto diz respeito a cada um de nós; facto, enquanto se via alguns a morrer.

Até Sábado foram infectadas com o Covid-19, na Itália, 195.351 pessoas. Em seu entender, o que é que isso representa para a Itália em termos de capital humano?

Em termos de recursos humanos, para a Itália e para quem pensa e quer pensar, isto manifesta a redução das pessoas no país transalpino. Por isso, no fim da pandemia, as estatísticas seriam revistas, em vez de fazer um novo censo.

Há três dias, a Itália atingiu um recorde diário de pacientes recuperados, fixados em 2.943, ultrapassando os 2.723 recuperados no dia anterior. Isso devolveu o sentimento de esperança às pessoas?

O sentimento de esperança sempre houve. O vírus poderia matar alguns, mas não mataria todos. Aliás, se alguns que não ficam doentes morrem, os que ficam doentes têm sempre a esperança de cura.

Em algum momento notou que as pessoas passaram a acatar melhor a regra de isolamento social?

Se nas coisas difíceis não há métodos fáceis, então, por mais que as pessoas não acatassem as regras, o Estado, enquanto tal, tem o valor de educar os cidadãos à racionalidade e à razão, isto é, educá-los à virtude de amar a vida anunciando o estado de emergência.

Como tem sido o vosso dia a dia com essas medidas de restrição?

Na verdade, tem sido um momento de retiros filosóficos, pensando particularmente no Coronavírus que fez parar uma humanidade inteira.

Tem conhecimento da existência de algum angolano residente neste país que tenha sido infectado pelo Coronavírus?

Como disse anteriormente, estando confinado e a reflectir seriamente sobre o Coronavírus, criei mais amizades com os livros do que com os jornais.

A nível da comunidade angolana, criaram algum mecanismo de partilha de informação a respeito?

Embora sejamos angolanos na Itália e não italianos na Itália, as diversas ocupações fazem-nos esquecer – ao menos, a alguns de nós – iniciativas boas como esta.

O senhor tem alguém próximo que está ou esteve contaminado?

Felizmente, não.

Viveu alguma situação em que alguém muito próximo perdeu um familiar e não pôde abraçá-lo em gesto de solidariedade?

Esta situação, também, não vivi. Mas, com o surgimento do Coronavírus, vivo a situação de não abraçar a pessoa que tanto gostaria em gesto de solidariedade.

Olhando para Angola, qual é a sua opinião sobre as medidas que estão a ser implementadas para combater a expansão da Covid-19 no nosso país?

Não estando a viver a realidade destas medidas em Angola, é-me muito difícil precisar a minha opinião. Contudo, quem tomou as medidas tomou-as para o bem da pessoa e da sociedade angolana.

O Presidente da República, João Lourenço, anunciou na Sexta-feira que o levantamento definitivo do Estado de Emergência e das restrições dependerá, sobretudo, da forma como forem cumpridas as medidas “impostas” pelas autoridades. Tendo em conta a nossa realidade socioeconómica, será possível cumprir o isolamento social na plenitude?

Não ouvindo o anúncio do Senhor Presidente da República, respondo a esta pergunta a partir da pergunta feita: Quem impõe as medidas não são as autoridades, mas o próprio Coronavírus, que obriga o humano a ser mais humano cuidando da sua vida. Se quem determina a realidade sócio-económica é o homem, o homem é um ser que age e um ser que pensa. Aliás, se há dias de mercados indicados, já se pode ler a resposta da pergunta sobre o cumprimento do isolamento social em plenitude.

Analisando as medidas implementadas em Espanha e Itália (o segundo e o terceiro país com mais casos a nível mundial), no seu ponto de vista, além das medidas implementadas, há alguma que as autoridades angolanas devem melhorar ou implementar para evitar que a situação piore?

Se não pode existir um texto sem contexto, então, o texto depende do contexto. Assim, um texto fora do contexto é protesto. Ou seja, se as respostas nascem das perguntas e as medidas das situações, podemos pensar nas medidas sem casos, mas implementar medidas sem casos não.

Como tem sido a sua vida sacerdotal nesta época?

Uma vez padre, é padre para todas as épocas. A minha vida sacerdotal tem sido uma comunhão com Deus e com os meus irmãos.

Acredita que haverá maior solidariedade entre as famílias depois da pandemia da Covid-19?

Se a ciência se faz com os fenómenos, prever uma realidade que ainda não aconteceu é negar a própria realidade em si. Somente poderemos falar da solidariedade ou da não solidariedade quando vivermos o momento. A solidariedade entre as famílias não pode depender dum vírus, mas da consciência que se tem sobre a família.

Que conselho quer deixar às famílias angolanas?

Para a família angolana, digo o seguinte: o angolano ama a vida. O angolano tem a consciência da vida. Se o angolano ama a vida e tem a consciência da vida, então, o angolano sabe o que deve fazer para se defender do Coronavírus.

Que opinião tem sobre a iniciativa histórica para acelerar produção de vacinas contra o Coronavírus lançada pela Organização Mundial da Saúde (OMS)?

A iniciativa é muito boa, mas seria ainda muito melhor. Seria ainda muito melhor se a preocupação de encontrar a vacina do Coronavírus fosse também a mesma para com as outras doenças existentes, como a erradicação da malária no planeta terra. A OMS tem de estar interessada não somente por Coronavírus, mas pelos seres humanos onde estiverem.

 

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