Malambas da Terra

Malambas da Terra

João Paciência, era conhecido como Ti Paciência, homem na casa dos 60 já muito tinha vivido, proveniente da província do Huambo escolhera Luanda para dar início à sua vida conjugal. Casara com mana Fefi nha numa cerimónia singela e embarcara à aventura na vida na cidade grande, de referências tinha poucas, apenas o endereço de um primo que vivia na capital e contava maravilhas. Quando chegou, o choque foi grande, a boa casa do primo tinha sido feita de uma assentada e o bairro, o dos ossos, não era conhecido por boas razões e nada tinha a ver por ser terreno próximo ao cemitério. Ti Paciência, deu largas à imaginação e foi criando oportunidades de emprego, fi cou conhecido por estar sempre disponível e por resolver pequenos problemas em casa dos vizinhos. Com a mana Fefi nha teve um casal, Armando e Amália, Armando taciturno, mas obediente e trabalhador, já Amália sonhava ser conhecida e ganhar dinheiro sem muito esforço. A família Paciência, como todos os angolanos foi enfrentando a vida com difi culdades no fornecimento de bens como a água e luz, foi ajustando as suas idas e vindas porque residia num bairro sem protecção policial e onde impera a lei dos marginais, foi comendo o que o dinheiro dava para comprar, sentindo-se grata por ainda ter o que comer e foi esquivando a Malária com tratamentos tradicionais quando a receita não dava para medicamentos. Ti Paciência sempre considerou que ser honesto e ter o seu nome sem mácula valia muito mais que subir freneticamente numa qualquer escadaria partidária onde se vende a alma para fugir ao que se julga uma vida sem brio e brilho. Nesta altura em que os fi lhos criados seguiram os seus caminhos, sendo que como seria de esperar Armando constituiu família e Amália é uma errante popuzuda cantora de Kuduro, a João Paciência o que o incomoda é que tipo de país queremos ser? Ele bem viu o tal de “micróbio” fazendo a sua viagem e chegando a todo o lado, ele viu de igual modo todos apavorados fechando- se pois o distanciamento social é a única forma de combater KÂMIA MAdEIRA o tal de vilão, mas continua sem perceber como será o depois, é que os médicos que vieram de fora ajudar, já eram necessários antes mesmo da Pandemia, é que os tais mercados sem condições de higiene sempre assim o foram e as vendedoras não são apenas agentes de transmissão por zungarem, pois são muitas as que vemos a urinar próximo aos sítios onde comercializam os seus produtos não sendo só o Covid 19 a ameaça…. Que país queremos ser? Quando temos dúvidas se devemos ou não pagar empregadas domésticas e professores, que não estão a desempenhar as suas funções como gostariam, como não estando todos os outros. Porque não conseguimos ter empatia, mesmo reconhecendo que afi – nal cuidar dos nossos fi lhos não é fácil… Que País queremos ser? Se os que nos governam compram esferográfi cas e papel higiénico a proporções descabidas e cometem gralhas técnicas em documentos ofi ciais e de antemão livres de erros… Que país queremos ser? Quando precisamos de encarar o futuro com esperança e estamos colados a todos os aparelhos electrónicos sorvendo fake news e aguardando expectantes para que possamos validar a crença de que temos imensos casos e o governo é que está a esconder… Será que quando terminar poderemos afi rmar que este período serviu de refl exão? Individual e colectiva? Será que ao invés de olhar para a queda do barril de petróleo como uma maldição não é esta a oportunidade de fi – nalmente partir para a diversifi – cação económica em força? Ou será que a pandemia trouxe- nos apenas a capacidade de ter paciência, enquanto aguardamos que nos digam que podemos sair de casa?

Kêmia Madeira