“É tão triste ver um teatro escuro, vazio e cheio de silêncio…”

Maria João Ganga é uma mulher das artes. É do teatro e do cinema. Mas é também do canto, da música e da dança que dezenas de crianças e jovens aprendem na sua Casa das Artes, um sonho antigo que se fez realidade até entrar em cena o novo Coronavírus, que lhe veio pintar o futuro com incógnitas. É assim o mundo das artes, que em Angola só não sofre mais por não serem todos profissionalizados, o que agora até é “positivo”, um pouco como os mosquitos que inspiram poemas. Mas nesta conversa entra também Manu dibango, em banda de sonoras gargalhadas em Paris, capazes de estragar a arte de fotógrafos

entrevista, José Kaliengue

Como se sabe, a grande maioria dos intervenientes no teatro que se faz em Angola são amadores, isto pode, de alguma forma, limitar os danos do estado de emergência nas vidas e economias destas pessoas?

Olhe, nunca tinha conseguido ver a questão da falta de profissionais sob um ponto de vista e de uma forma tão positiva ! Faz-me lembrar um amigo meu que fez um poema dedicado aos mosquitos , embalado pela teoria de que quem tomou muita cloroquina é mais resistente ao Coro-navírus… e assim muitos de nós vão conseguir sobreviver graças aos amigos mosquitos. São fantásticos os mosquitos!

No caso do teatro, que é a área que melhor conheço, é, realmente, raríssimo os actores viverem da sua profissão. Todos… na sua grande maioria têm fontes de receitas alternativas, contudo, as consequências para este grupo de pessoas também não se resumem apenas ao dinheiro e factores materiais.

Para os artistas que vivem das suas profissões, esta fase é difícil e as consequências para as nossas vidas são enormes, são más e as perspectivas não são nada animadoras em termos Mas temos, depois, espaços como a Casa das Artes, uma iniciativa privada, aqui os danos serão enormes, certamente…

Para um projecto com a dimensão da Casa das Artes, que já tem uma equipa de trabalhadores expressiva, com contratos efectivos e que conta ainda com um número grande de colaboradores, técnicos e professores, as consequências financeiras são catastróficas. A Casa das Artes vive essencialmente de formações e de espectáculos… está fechada . O futuro da Casa das Artes, neste momento é uma incógnita.

Vamos ter que rever todo o nosso plano financeiro e, literalmente, inventar e criar mecanismos para a sobrevivência das pessoas e do projecto em si… aplicar medidas rigorosas de contenção. As dívidas têm que ser pagas. Temos também que gerir o lado humano, que é um factor importantíssimo. As pessoas estão abaladas psicologicamente, socialmente, familiarmente, e, por exemplo, os cortes salariais que se impõem são mais um factor negativo que se soma à vida destas pessoas. Ninguém esperava uma situação como esta, ninguém tinha previsto ou admitido uma catástrofe desta natureza . Há um ano atrás, mesmo com todos os desafios e dificuldades que sempre enfrentámos, as nossas perspectivas de crescimento eram excelentes e estávamos cheios de força. É tão triste ver um teatro escuro, vazio e cheio de silêncio…

O Estado tem anunciado ajudas a empresas de vários ramos ou sectores, mas ainda não se falou das artes, como vê o futuro dos artistas angolanos, dos produtores, dos espaços culturais?

Que eu tenha conhecimento, o Estado ainda não se pronunciou ou deu qualquer orientação, ou apoio às nossas áreas. As instituições devem estar a reflectir sobre o assunto, ou sentem-se reconfortados com a nossa capacidade criativa e espírito de desenrasque que sempre demonstramos ter.

Isto não conforta ninguém…

Nós sempre fomos entregues à nossa sorte e assim realizamos os nossos projectos, e, exactamente, o projecto da Casa das Artes é um bom exemplo para ilustrar esse triste quadro. Este projecto foi possível com a realização de um financiamento bancário e com os meus próprios meios, com o apoio e investimento de raríssimos empresários.

Nunca  mereceu apoio financeiro ou qualquer apadrinhamento das instituições que, por si só, deveriam ser elas mesmas a fazer espaços culturais e dar condições para os artistas trabalharem, canalizarem fundos para estes fins, etc. Criarem leis para facilitar a eficiência e execução dos projectos culturais, não se contentarem com improvisações de última hora, colagem de remendos em edifícios “devolutos”, como se assim fosse bom, como se assim fosse correcto, como se assim os artistas estivessem servidos.

É com muita dificuldade que conseguimos instalar e desenvolver projectos concretos de utilidade social, como, por exemplo, o projecto de bolsas que criamos na Casa das Artes, em que crianças e jovens oriundos de classes com dificuldades frequentam as formações e actividades que nós realizamos.

É a pedir que nós conseguimos meios, e, por vezes deparamo- nos com verdadeiras “bestas” que nem nos ouvem e que têm dinheiro .

Quantas dessas “bestas” não são responsáveis pela proliferação de certas aberrações artísticas e mesmo situações em que o nome de Angola ficou mal visto?!

Isto porque ninguém orientou nada , nem ninguém. Porque simplesmente não se estabeleceram regras.

Nos tempos em que jorrava dinheiro em Angola, não se poderiam ter feito projectos sérios, mais concretos e sobretudo mais úteis? Todos sabemos que as receitas dos projectos culturais são difíceis de realizar e é por isso que eles deveriam merecer maior atenção, cuidados e privilégios.

E estes privilégios seriam patrocínios?

Os projectos culturais são tratados e criados, na sua maioria, sem qualquer tipo de privilégio, refiro- me a isenções, redução de juros a nível de impostos, criação de taxas mais moderadas relativas a empréstimos bancários. Nós realizamos projectos culturais e, por exemplo, pagamos impostos exactamente como alguém que produz cerveja ou fabrica cimento. E, olhe, até posso ter ido buscar um mau exemplo, referindo a cerveja e o cimento… que ironia… Será que esses projectos pagaram impostos?

Não terão merecido mesmo regalias e facilidades?O quê que de concretamente útil estes projectos que referi, deixaram para Angola? Outro exemplo, recentemente, o Banco Nacional de Angola, determinou dois meses de deferimento das prestações de empréstimo bancários, o banco que financiou o meu projecto simplesmente não incluiu a Casa das Artes neste pacote de medidas.

O espaço cultural está encerrado ao público, não realiza qualquer tipo de actividade, mas os salários são pagos . Por vezes dá vontade de lembrar às pessoas que os artistas são pessoas perfeitamente normais: comem , precisam de casa para viver, têm filhos, precisam de ir ao médico …

O que se diz é que com a retoma da “normalidade” da vida, com o fim dos confinamentos, o distanciamento social deverá manter-se como regra por muito tempo. Há alguma forma de as casas de espectáculos se reinventarem para continuarem a trabalhar?

Não vai haver retoma de normalidade tão cedo. Para voltarmos a uma vida dita normal, penso que as pessoas têm que se sentir protegidas em termos de saúde, necessitam de um medicamento que mate esse vírus. Vamos ter que criar formas diferentes de trabalhar e de estar com o público , estabelecer parcerias com as televisões… já estão instituídas aulas online, as novas tecnologias permitem uma interacção com o público e fazem-no reagir. Mas em casa. Infelizmente, entrar e estar numa sala de espectáculos não é para já . Infelizmente, muitas casas estão a fechar e vão fechar.

Ainda assim, provavelmente, as artes deverão ter grande procura, nota-se com a corrida pelos livros na Europa, por exemplo, Angola estará a perder uma oportunidade de reeducar as pessoas pela arte por ter pouca oferta?

Se pegar num comando de TV, vai notar que todas as cadeias de Televisão, a nível global, optaram por amenizar esta crise com programas culturais diversificados. Os protagonistas desses programas são pessoas do teatro, da dança, da música. Enfim, são artistas. Em toda a parte do mundo, e Angola faz parte do mundo, as pessoas aprendem a ler e a criar gosto pela leitura nas escolas, na base.

É na base que se criam programas para cativar a atenção das crianças para a leitura. É estimulando as crianças a lerem histórias infantis com conteúdos que cativem e desenvolvam o seu lado emotivo e afectivo que construímos futuros leitores .

Eu trabalho com jovens. Apercebo- me que a maioria desses jovens nunca leu livro nenhum. Nunca foram estimulados a ler. Alguns destes jovens estão em universidades. As grandes debilidades dos sistemas de ensino pagam-se sempre com estas fornadas de jovens perfeitamente alheios a tudo o que é cultura, alheios à sua própria cultura, alheios à arte. É gravíssimo.

Antevê que a crise causada pela Covid-19 venha a servir de inspiração para os artistas de todas as áreas?

O Cinema tem muito para explorar? A partir do momento em que o Covid entrou nas nossas vidas, vai obrigatoriamente influenciar a criatividade, ele já faz parte das histórias, ele entrou a matar! Está presente em tudo e vai haver todo o tipo de histórias sobre ele, e não apenas sob o ponto de vista negativo. Veja, por exemplo, os cartoonistas, fazem piadas fantásticas com o Covid. Vê? mais um exemplo de como os artistas são capazes de dar a volta a uma situação com a sua capacidade de desdramatizar, com a sua capacidade de tornar a vida mais alegre em momentos difíceis.

O cinema e a literatura têm perdido muitas pessoas nesta pandemia, quem mais lhe deixa saudades?

Foram perdas tremendas para a humanidade. Perderam-se grandes valores em quase todos os domínios da arte. Eu fiquei particularmente triste com a morte de Manu Dibango . Pude estar com ele várias vezes e posso dizer-lhe que era muito bom conversar com ele, ouvir as suas opiniões, rir com o Manu Dibango era muito bom, era um homem com um sentido de humor muito particular. A primeira vez que falei com ele pessoalmente foi em Paris, ainda estava a escrever o guião de “Na Cidade Vazia”, eu escrevia com a música dele e sabia que ia ter música dele no filme. Falando sobre o filme acabamos por falar de muitos e variados aspectos, falamos muito sobre Angola, como não podia deixar de ser. Há um momento que para mim foi inesquecível, eu estava em competição num Festival de Cinema em Paris e o Manu Dibango decidiu ir ver o filme à sala onde estava a ser projectado “Na Cidade Vazia”; como é óbvio, criou-se um ajuntamento de pessoas muito grande, todas as pessoas queriam ver o Manu Dibango, havia muito público e muitos fotógrafos e de repente o Manu vira-se para mim e diz: “Vês a confusão que fazes ? Não podes vir mais a Paris”! Sei que desatamos a rir … devemos t  ter estragado todas as fotografias.

O lado social da arte

Tem como objectivo a instalação e desenvolvimento de um projecto cultural pluridisciplinar, onde se congregam várias expressões artísticas e culturais. Um espaço interactivo no qual o teatro, dança pintura, música, leitura, escultura e imagem, poderão coabitar numa relação viva, dinâmica e inovadora, estimulando o homem a ter contacto, conhecer, agir e ser parte integrante da arte. É assim que se apresenta a Casa das Artes na sua página na Internet. A seguir, apágina faz referência à Ulikanga – Associação Cultural, lado da Responsabilidade Social do projecto criado e liderado por Maria João Ganga.

“Formamos a ASSOCIAÇÃO ULIKANGA, que é uma associação sem fins lucrativos e que promove a formação de crianças e jovens e adultos na arte, promovendo a igualdade de oportunidades abrindo o leque de escolhas profissionais e de possíveis carreiras no mercado de trabalho artístico”, lê-se.

 

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