“Há muitos interesses poderosos na destruição dos mangais do Lobito”

No alto dos seus 27 anos de idade, Fernanda Renée é hoje uma ambientalista angolana que se vai afirmando ano após ano. Antes da crise provocada pela pandemia da Covid-19, a jovem nascida no Lobito, em Benguela, recebeu o reconhecimento da União Africana pelo trabalho que o Projecto Otchiva, que dirige, tem feito em prol da recuperação dos mangais em Angola, que tem possibilitado o regresso dos flamingos a algumas cidades, como o município em que veio ao mundo. Otchiva é o mesmo grupo que tem as impressões digitais na reflorestação ocorrida no Ramiros e também na ilha do Mussulo. Presentemente, Fernanda Renée e outros jovens lideram uma startup, a AmbiReciclo, que produz sabão e está a distribuir gratuitamente aos cidadãos mais desfavorecidos de Luanda, para que consigam prevenir-se do contágio da Covid-19. Das 70 mil barras de sabão que pretendem oferecer, os jovens já produziram e distribuiram 37 mil unidades. Um outro projecto que visava a produção de sabonete repelente, para ajudar no combate contra a malária, quatro anos depois ainda nem mereceu resposta do Ministério da Saúde

Entrevista de Dani Costa
Fotos Cedidas

Há duas imagens que nos levam a pensar na Fernanda Renée. A jovem descalça a plantar mangues e a outra com uma bata numa fábrica a produzir sabão. É mais ambientalista ou mais engenheira?

Sou as duas coisas (risos). Sou licenciada em Engenharia de Pesquisa e Produção de Petróleos pela Universidade Jean Piaget de Angola. A minha linceciatura teve uma influência muito grande no desempenho actual em defesa do ambiente, pois, tive uma disciplina sobre os impactes ambientais, que, para além de mostrar os impactes negativos que a indústria petrolífera provoca ao ambiente, também nos proporcionava soluções para prevenir e mitigar tais impactes.

Quer dizer, tivemos a oportunidade de conhecer o caminho inverso das indústrias poluentes. E, por isso, optei pelo caminho inverso, tanto que o projecto final da minha linceciatura foi o “Aproveitamento do Lixo para a Produção de Biocombustíveis”, com o qual venci o Prémio ODEBRECHT para o Desenvolvimento Sustentável em 2016. Foi o projecto que me abriu portas para o meu primeiro emprego no Ministério do Ambiente, a convite da então ministra do Ambiente, Dra Fátima Jardim, que se encontrava no local da cerimónia de premiação.

Disse, certa vez, numa entrevista que já não suportava ver os mangais no Lobito a se tornarem somente memória. Em que momento é que decidiu tornar-se ambientalista?

Tornei-me ambientalista a partir do momento em que percebi que a economia verde era o caminho mais justo para todos. Esta economia inclui a oferta de empregos, consumo consciente, reciclagem, reutilização de bens, uso de energia limpa e valorização da biodiversidade, cujos resultados consistem na melhoria da qualidade de vida para todos, diminuição das desigualdades entre ricos e pobres, na conservação da biodiversidade e preservação dos serviços ambientais. Ao contrário da economia linear, que cresce economicamente além dos limites.

O projecto Otchiva nasce no mesmo momento em que se torna ambientalista ou levou mais tempo? Qual é a história por trás da sua criação?

O projecto Otchiva, como grupo, surge em 2018, com membros fundadores como a Dra. Joana Bernaro, Mônica Vitt, Irsa do Prado, Osvaldo de Jesus, Marisa de Castro, Márcio Nunes, Paulo Hossi, Rosália Savieira, José Palanca, Bengue Panzo e outros. Mas anos antes, isto desde 2016, já faziamos a restauração e protecção dos mangais no Lobito junto com alguns vizinhos, a destacar o Adelino Cavela, Elaine Salvador, Maria Da Luz, Enoc Samuel, Alberto Chiquito e outros. Otchiva, que na língua nacional Umbundu significa lago ou simplemente zona húmida, foi criado para dar resposta à extinção e protecção dos flamingos do Lobito, que é conhecido internacionalmente como a cidade dos flamingos. Estes, por sua vez, têm os mangais como o seu habitat. Existem outras espécies de aves migratórias que também dependem dos mangais, tais como patos, gaivotas, pelicanos e outras.

Na verdade, os mangais são o berçário da vida marinha, visto que constituem um ecossistema muitíssimo rico. É lá onde os peixes, crustáceos, moluscos e outras espécies se reproduzem. Para a cidade do Lobito têm uma importância crucial, porque eles servem de zona natural de retenção das águas das chuvas. E os problemas actuais que o Lobito enfrenta, como as enchentes, cheias e inundações, são consequência dos entulhos que foram feitos nos mangais para novas construções e depósito de resíduos, sem qualquer respeito pela natureza e pelo saneamento das cidade, que hoje é caótico. Portanto, para salvar os flamingos, a vida marinha e livrar o Lobito das enchentes e inundações, criamos o projecto Otchiva.

Qual é a importância que tem o Lobito para todo este movimento ambiental ?

Eu nasci no Lobito, na província de Benguela. Nasci na cidade dos Flamingos, cresci a vêlos pela minha cidade, e todos os dias no caminho de volta da escola, no fim da tarde, parava para apreciar o voo dessas aves encantadoras. Daquele tempo para cá, começaram a surgir muitas infra-estruturas nos santuários dos flamingos, chegou-se ao extremo de entulharem o habitat dos flamingos para construção. A poluição tomou conta dos mangais, e, por conta disto, os flamingos tinham dificuldades de pousar nos mangais, seu habitat natural, e começaram lentamente a desaparecer da cidade até quase que entraram em extinção.

Era tempo de agir, pois, para mim, uma lobitanga de gema, que conviveu toda a infância a ver os flamingos, foi como se estivessem a roubar a minha identidade. Não gostaria que dos flamingos, identidade da nossa cidade, ficasse apenas a história por causa da ganância e egoísmo de poucas pessoas que decidiram entulhar os mangais… Em concomitância, os impactes ambientais provocados pela destruição dos mangais, que são amortecedores costeiros naturais contra tempestades, calemas e probabilidades de inundações na cidade do Lobito, estão a causar um terror na cidade, porque sempre que chove uma parte da cidade fica inundada e a outra não suporta as cheias.

A missão no Lobito já está cumprida? Qual é a diferença entre o cenário anterior e o actual?

A restauração dos mangais no Lobito ainda não está concluida, nem estamos próximo disto. O trabalho é arduo e muito longo, estamos apenas em 15% dos 100%. Com relação à comparação de cenários antes e depois, pouco ainda se vê, pois o problema do Lobito é muito complexo. A fonte da água, que devia alimentar os mangais através da vala do Kassai, está obstruida e o mangal corre o risco de secar e desaparecer. Os esgotos das construções ao redor do mangal vão parar directamente no mangal, poluindo-o. Todos os dias observa-se o aparecimento de restaurantes e oficinas nas bermas do mangal, construções anárquicas e casebres de famílias desfavorecidas, marginalizadas, facto que impossibilita a restauração dos mangais. Sem esquecer a apetência de pessoas egoístas que querem abocanhar os terrenos para viver ou instalar o seu negócio a todo o custo na cidade, sem se importarem em entulhar os mangais.

Este é o maior problema dos mangais do Lobito, e esta é a luta constante entre o Otchiva e a Administração Municipal do Lobito. Mas vale aqui realçar que o governador de Benguela disponibilizouse a apoiar o projecto e tem prestado atenção, mas não está a ser o sufuciente, há muitos interesses poderosos na destruição dos mangais do Lobito. Por isso, a nossa acção consiste em campanhas pontuais de limpeza, a reposição da vegetação nativa e educação ambiental. Mas não tem sido fácil. Em Fevereiro, realizamos uma operação de limpeza com voluntários do Lobito e de Luanda. Duas semanas depois voltaram a depositar montes de lixo precisamente no local onde tínhamos realizado a campanha. É frustrante, mas nós não vamos desistir.

Depois do Lobito (Benguela), Soyo (no Zaire) e Morro dos Veados, Ramiros, e Mussulo (em Luanda), quais são os passos que se seguem de reflorestação dos mangues no país? O nosso objectivo é implementar o projecto de restauração dos mangais em toda a orla costeira de Angola. Cuanza-Sul, Cabinda, Bengo serão as próximas províncias. Outro passo também será a implementação do Plano Nacional de Protecção e Restauração dos Mangais, cuja proposta elaborada pelo Projecto Otchiva já se encontra neste momento na mesa do Executivo. Neste plano consta o projecto para a criação de uma lei específica sobre a protecção dos mangais, em particular, e das zonas húmidas, em geral.

O que representou para a organização a presença do vice-presidente da República, Bornito de Sousa, numa das acções de reflorestamento?

Foi muito gratificante e encorajador termos o Senhor Vice-Presidente da República no dia em que plantamos mais de 70 mil sementes de mangues na zona do Ramiros, ao quilómetro 44. Alguns dias antes, o Vice-Presidente Dr. Bornito de Sousa teve a iniciativa de entrar em contacto connosco, convidou-nos para um encontro no seu gabinete, disse-nos que já tinha ouvido falar do Projecto Otchiva em 2018 e que ficou muito sensibilizado quando viu a primeira reportagem na TPA, feita pelo jornalista Alves Fernandes. Em nome do Projecto Otchiva, aproveito a enviar o nosso sentimento de gratidão ao referido jornalista. Foi aí que nos surpreendeu, dizendo que fazia questão de participar numa campanha de reflorestação. Ficamos encantados por termos entre nós a segunda figura do Estado Angolano. É um grande incentivo para o Projecto Otchiva que dia após dia ganha novos membros, novos voluntários apostados na defesa da mãe-natureza.

Quais são os apoios que têm permitido suportar as acções desenvolvidas pela Otchiva? O Projecto Otchiva tem sido implementado através de mão-deobra voluntária da sociedade civil residente em Angola. Custos como alimentação e transporte têm sido suportados pelos própios voluntários, que usam o seu transporte e lanche. Meios estes que posteriormente são partilhados com outros voluntários. Outros custos, como, por exemplo, os barcos para atravessar para o Mussulo, bem como as t-shirts usadas pelo Otchiva, são suportados pela petrolífera TOTAL, através do seu programa de voluntariado “Action”. De realçar que o projecto Otchiva tem sido implementado através de quatro acções, desde a educação sobre os mangais, limpeza nos mangais, reflorestação nos mangais e invetigação científica nos mangais.

Dados de organizações internacionais indicam que o México, Brasil e Angola lideram o processo de reflorestação dos mangues. É o ponto alto do projecto Otchiva?

Na verdade existe um movimento internacional sobre a protecção das zonas húmidas, onde estão incluidos os mangais, que vêm incentivando diversas associações ambientais na restauração dos mangais devido ao alerta ONU sobre as consequencias fatais do desaparecimento dos mangais. Angola entrou neste movimento, fomos inspirados por diversas associações de restauração dos mangais, como a Oceanium no Senegal, Vovô do Mangue, no Brasil, e outras. Ultrapassar a fasquia definida pelo movimento, para plantar 30 mil mangues num dia, não foi o ponto mais alto do Projecto, mas sim apenas um ganho por colocar Angola na rota mundial da restauração dos mangais e dar a conhecer ao mundo que Angola também está na linha da frente na restauração daquilo que é considerado um dos mais importantes ecossistemas do mundo.

“Das 70.000 barras de sabão que nos propusemos alcançar, já foram produzidas 37 mil”

Numa altura em que os mangais plantados em Luanda começam a registar o regresso dos flamingos, esta província, assim como o mundo, debate-se com a pandemia da Covid-19 e, uma vez mais aparece integrada num projecto, com a Startup AmbiReciclo, para fornecer sabão aos mais necessitados. Como surgiu esta ideia?

A AmbiReciclo é um Startup que criamos há cinco anos com o objectivo de promover a economia verde para o combate à pobreza através da reciclagem. E o projecto da reciclagem dos óleos de cozinha usados para a produção do sabão é um dos projectos que integram a AmbiReciclo, para além da produção de mobílias a partir de pneus descartados, produção de fertilizantes a partir do lixo orgânico e outros. E a ideia da produção voluntária do sabão para a distribuição gratuita a familias mais carenciadas surge depois do aparecimento desta pandemia do novo Coronavírus, que, infelizmente, assola o mundo e Angola.

Sendo a lavagem das mãos com água e sabão apontada como a forma mais eficaz para o combate à Covid-19, o preço do sabão subiu drasticamente, impossibilitando que as familias mais desfavorecidas o adquirissem. E isto foi a grande motivação para contribuirmos na luta contra esta pandemia. De realçar que o fabrico do sabão aprendemos com a Dra Joana Bernardo, que, através de um programa que liderava, ensinava a produzir sabão a partir de óleos de cozinha usados, com o objectivo de empoderar as mulheres. Nós fomos umas das beneficiadas da formação.

Quem são os principais beneficiários deste fornecimento de sabão gratuitamente e que critérios foram determinados para a sua escolha?

O sabão é destinado apenas às familias mais desfavorecidas, que não têm possibilidades de adquir a barra de sabão ao actual preço de 1800 kz. A escolha das famílias desfavorecidas é feita com ajuda dos administradores municipais, que, por sua vez, indicam os coordenadores dos referidos bairros, que têm acompanhado a distribuição do sabão. Da meta das 70.000 barras que nos propusemos alcançar, até ao momento já foram produzidas 37.000 barras, e distribuidas a igual número de famílias apenas na província de Luanda.

Numa fase em que escasseia uma série de produtos, quem são os parceiros desta nobre iniciativa?

Nesta campanha de produção voluntária do sabão fazem parte os colaboradores directos como as startups de transportes o Kubinga e o Tupuca, que são os responsáveis pela recolha dos óleos de cozinha usados em restaurantes, hóteis, etc, bem como a entrega do sabão às comunidades. Fazem parte também a Química Verde Lab, que vela pela qualidade do sabão, e a Render Designer, responsável pelo designer e Marketing. A campanha, para além de ter o apoio de toda a sociedade civíl, que tem apoiado com a entrega de óleos de cozinha e valores monetários, tem o apoio também da Afritrack, Bodiva, Tupuca,Total, Novagest, Cuca, Zap, Ministério da Indústria e Comércio e do Presidente da República, através da ministra de Estado para a Área Social.

A escolha da província de Luanda foi acidental para distribuição das barras de sabão? Há planos para fazerem o mesmo noutras províncias?

Na verdade, a AmbiReciclo está presente em Luanda e Benguela (Lobito), mas esta produção voluntária do sabão para a distribuição gratuita apenas está a ser feita na província de Luanda, uma vez que Luanda é a única província que regista casos positivos do Covid- 19. Esperamos não ter que ir a outras provincias também, pois auguramos que o vírus termine mesmo apenas em Luanda.

Trabalha para várias organizações internacionais e tem recebido distinções e prémios dentro e fora de Angola, sendo o mais recente o Certificado de Reconhebaircimento da União Africana pela acção do projecto Otchiva. O que isso representou para a Fernanda Renée?

Este reconhecimento pra nós representa, por um lado, que África hoje tem a noção real dos problemas da destruição dos mangais, cujos resultados desta destruição já são sentidos e urge a necessidade África criar a sinergia de todos os países da orla costeira para a protecção deste ecossistema de mangais. Por outro lado, este reconhecimento é um sinal de que a União Africana não é apenas um clube de chefes de Estado e de Governo, mas também um clube de todas as organizações da sociedade civil africana que em conjunto podemos ultrapassar vários problemas que afligem África, como, por exemplo, o próprio problema da destruição dos mangais, dos animais em via de extinção, do saneamento básico, bem como da erradicação da pobreza e outros.

O que sente quando recebe estas distinções?

Embora as motivações que nos levam a conceber este trabalho não passem por esperar distinções, todavia, ao recebê-las dános maior motivação para continuar o trabalho que desenvolvemos, mais energia para seguir em frente, pois temos encontrado muitas dificuldades e desincentivo pelo caminho que nos levam quase a desistir. Portanto, prémios e distinções recebidos, enquanto fizemos o nosso trabalho, são sempre um motor pra continuarmos a fazer o trabalho.

O que acha que falta fazer para sensibilizar o público angolano para a problemática da protecção ambiental?

Temos que desenvolver acções educativas sobre questões e problemas ambientais, através de métodos activos, consciencializando as comunidades sobre a necessidade de proteção e preservação do ambiente. Se tivéssemos a educação ambiental nas escolas, devia ser hoje o instrumento mais eficaz para se conseguir criar e aplicar formas sustentáveis de interação sociedade – natureza. Este é o caminho para que cada indivíduo mude de hábitos e assuma novas atitudes que levem à diminuição da degradação ambiental, promovam a melhoria da qualidade de vida e reduzam a pressão sobre os recursos ambientais.

‘Qualquer estratégia de desenvolvimento deve começar pelos municípios, vilas e aldeias’

Em 2017 esteve envolvida num outro projecto de produção de um sabonete repelente (EcoRepelente), uma solução para diminuir os casos de malária no país e consequentemente o número de mortes causadas por esta doença. Em que pé está esta iniciativa?

Em 2016, Angola estava a enfrentar o maior surto de malária, que dizimou milhares de vidas de angolanos. Como engenheiros, sentimos a obrigação de contribuir para a resolução do então problema. Para a criação do produto, começamos com uma pequena investigação científica que se baseiou em analisar os produtos repelentes ja existentes, que resultou com o produto EcoRepelente. Eco devido à matéria-prima proveniente de plantas nacionais com actividades insecticidas. Uma vez que a malária está intrisicamente ligada a questões de higiente, a ideia do sabonete repelelente era com a finalidade de, para além de repelir, também puder higienizar o corpo.

Os testes foram realizados no campo e no laboratório, com o apoio da Universidade Jean Piaget de Angola e acompanhamento do químico Dr. Tana Canda, que foi o tutor do projecto. Participaram nas investigações os químicos Dra. Joana Bernardo, Arthur Penelas, e o engenheiro Lécarcio Palma. Desde que remetemos o produto ao Ministério da Saúde, para a apreciação e aprovação, até aqui nunca tivemos resposta. Mesmo depois de sermos recebidos pela actual ministra da Saúde, o projecto nunca avançou.

Não recebeu propostas de outros países da região ou mesmo do continente?

O sabonete repelente havia sido apresentado a nível da União Africana, numa conferência em Addis Abeba, tendo dispertado interesses de alguns países que nos convidaram para uma possível parceria, para além da Unitel, que se tinha também disponibilizado para financiar o projecto, mas a falta de certificação do Ministério da Saúde de Angola inviabilizava o projecto. E quanto ao convite internacional, na altura, informamos a alguns membros do Executivo sobre o convite internacional que acabávamos de receber, mas nos aconselharam a ter mais paciência, calma e patriotismo e aguardar pela reposta do MINSA. Mas, na verdade, nunca chegou, e como resultado acabamos por perder todos os contactos internacionais.

As pessoas já sabem o que representa a economia verde?

Penso que hoje já há mais angolanos com o conhecimento sobre a economia verde e o que representa, porque um dos objectivos da nossa organização é a promoção da economia verde, que temos feito através dos nossos projectos como a AmbiReciclo. Em Angola, da economia verde pouco se fala, talvez por ignorância, mas prefiro acreditar que seja por motivos de interesses pessoais. Porque falar da economia verde, estamos a falar de uma economia justa para todos, ao contrário da economia linear que enriquece apenas um grupo limitado de pessoas e destrói todos os ecossistemas sem limite.

A exemplo, temos a destruição dos mangais, ecossistema em que, para além de beneficiar a todos por ser o berçário da vida marinha, na qual todos temos acesso ao peixe e outros crustáceos e moluscos, milhares de pessoas dependem para a sua subsistência, mas alguns preferem destruir para construir hóteis, bancos e seus próprios empreendimentos. Deixam ao relento não só as famílias que dependem deste ecossistema, como também a sua única fonte de rendimento e também os animais que dependem deste ecossistema para a sua sobrevivência.

Qual é a opinião que tem da Junção que ocorreu entre os ministérios do Ambiente, Cultura e Turismo?

Confesso que quando recebi a notícia sobre a junção do Ministério do Ambiente com a Cultura e o Turismo fiquei confusa e triste. Cheguei mesmo a questionar o que se esperava da coordenação da Cultura sobre o Ambiente, e se o novo ministério iria priorizar mais a valorização das línguas nacionais ou o combate à seca, ou então se daria mais primazia ao fundo de apoios às actividades culturais ou ao saneamento básico. Mas confesso também que depois de termos o conhecimento de que a Adjany Costa assumiria então o super ministério, fiquei mais descansada e com esperança, pois a junção destes ministérios requererá inovação e solucões pensadas fora da caixa, que é uma das qualidades que a nova ministra possui, pelo seu trabalho que temos acompanhado junto da National Geographic.

O que pensa da ministra da Cultura, Turismo e Ambiente, Adjany Costa?

Adjany Costa é uma ambientalista genuína, bióloga, investigadora e expedicionária da National Geographic Society, defensora da cultura e das ricas tradições dos povos de Angola, promotora de uma visão do turismo assente na gestão sustentável dos recursos da fauna e da flora, tendo como premissa a inclusão das comunidades autóctones. Nesta nova sua nobre missão terá todo o nosso apoio.

Com uma vida super agitada na filantropia e na preservação do ambiente, qual é o tempo que resta para se divertir?

Eu me divirto fazendo o meu trabalho. Por exemplo, sinto-me divertida quando estou a fazer o sabão ou a plantar mangais. Na verdade, tudo aquilo que gosto, ao fazer sinto-me divertida (risos).

O que faz nos temos livres?

Nos tempos livres gosto de pesquisar. As pesquisas são mais sobre os trabalhos que já temos realizado com o objectivo de aperfeiçoarmo- nos mais , ganharmos mais experiência e alargar os nosso conhecimentos.

Mantém o sonho de se tornar autarca do Lobito?

Bom, eu sou uma jovem sonhadora como todos os jovens conscientes em Angola ou em qualquer parte do mundo. E o meu sonho é ver a minha cidade dos flamingos, a minha província de Benguela e a minha pátria Angola no caminho do desenvolvimento para o bem-estar de todos os angolanos. Qualquer estratégia de desenvolvimento deve começar pelos municípios, vilas e aldeias. Só assim teremos um país bom para se viver. Quem conhece o Lobito, sabe o quanto foi destruído naquela cidade, que já foi um dos principais cartões postais de Angola.

Posto isso, não vou deixar de dar o meu contributo, seja como autarca, engenheira ou ambientalista, seja no Lobito ou em Luanda, em Cabinda, no Moxico ou qualquer recanto do nosso país. Como cidadã, sinto que tenho a obrigação de participar activamente na preservação do meio ambiente, no combate à pobreza, na melhoria do saneamento básico e na formação dos jovens, particularmente das jovens mulheres, para ajudar a corrigir o que está mesmo mal em todos os aspectos. O futuro tem de ser construído agora.

O que pensa da juventude angolana?

A juventude angolana tem um grande potencial, muita criatividade e muitos sonhos. O grande problema é que faltam oportunidades. Angola é um país muito desigual, onde a minoria restrita tem tudo e a grande maioria não tem quase nada. Se a juventude constitui a maioria da população, logo constitui também a maioria dos pobres. Quem são as zungueiras que deambulam pelas nossas cidades? Quem são as mães solteiras muitas delas menores de 18 anos? Quem são os marginas, as prostitutas, os drogados e alcóolatras? São todos os jovens. O ensino é caro e geralmente de fraca qualidade, não há empregos, as oportunidades são dadas em função do parentesco ou filiação política.

Por isso, acho que deveria haver uma mudança radical, envolvendo os jovens na definição de políticas para a juventude, criando incentivo para a geração de novos postos de trabalho. Por exemplo, a reciclagem dos resíduos sólidos pode gerar milhares de empregos. A agricultura familiar, se for apoiada com bons sistemas de escoamento dos produtos, pode melhorar a vida muita gente, a pesca, a aquicultura, o comércio rural etc, são áreas que podem absorver muita força de trabalho. O importante é a formação e a capacitação dos jovens. Durante a guerra, os nossos pais foram bem treinados para serem bons soldados. Agora que estamos em paz, porquê que não dão boa formação e oportunidades aos homens e mulheres da minha geração?

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