“É impossível prever quando estará normalizado o mundo”

Cineasta e produtor da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, Jorge António admite que será muito complicado repor toda a programação e impossível prever quando o mundo estará normalizado. Antes de ter sido decretado o estado de emergência em todo o país, a CDC estava a trabalhar na sua nova criação, uma coreografia de Ana Clara Guerra Marques com a coreógrafa do Burkina Fasso Irène Tassembédo, e que será retomada tão logo a situação esteja melhorada

Por:Augusto Nunes

O cineasta e produtor da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola), Jorge António, afirmou, a OPAÍS, que é impossível prever quando estará o mundo normalizado e quando se poderá viajar e ter acesso às salas de espectáculo.

Jorge António lamentou o facto de muitas companhias e artistas estarem neste momento a atravessar uma fase muito crítica em termos de sobrevivência por causa da Covid-19. O produtor acrescentou que desta forma será muito complicado repor toda a programação. Adiantou que antes de ter sido decretado o estado de emergência em todo o país, a CDC estava a trabalhar na sua nova criação, uma coreografia de Ana Clara Guerra Marques com a coreógrafa do Burkina Fasso Irène Tassembédo, e que será retomada tão logo as condições estejammelhoradas. Salientou que a referida Companhia estava a equacionar o convite e a celebração do seu dia em Kinshasa (RDC), num Festival Internacional de Dança, mas por causa da situação que o mundo está a viver, da pandemia Covid-19, foi forçada a cancelar tudo. O produtor adiantou igualmente que no quadro da tournée que teria iniciado no próximo mês de Junho, pela Europa, os espectáculos ocorreriam em França e Portugal, num circuito de teatros nobres e importantes em Paris, Montpellier, Braga e Lisboa.

Prejuízos

Do ponto de vista artístico e económico, Jorge António realçou que os prejuízos são enormes para a única companhia profissional em Angola e toda a dinâmica que isso acarreta. De acordo com o produtor, “basta analisarmos o que se está a passar em todo o mundo com os cancelamentos de todos os espectáculos. São danos irreparáveis para a classe artística, que à partida, já é muito frágil”, desabafou. “Muitas companhias e muitos artistas estão a sobreviver com dificuldades. Será muito complicado repor toda a programação. É impossível prever quando estará o mundo normalizado”.

Neste momento, segundo o produtor, os integrantes da CDC Angola estão a cumprir as normas emanadas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o distanciamento social, mantendo a forma e a sua postura física através das aulas ministradas pela professora Ana Clara enviadas por links, sejam pelo WhatsApp ou Facebook, ou outras formas digitais. “Tal como a campanha que fizemos nas plataformas digitais alertando para a prevenção do Covid-19, pensamos agora fazer (disponibilizar) através das redes sociais alguma divulgação do nosso trabalho”. Questionado sobre a mensagem que gostaria de deixar ao público angolano e aos fãs no exterior neste período de quarentema, Jorge António concentrou-se numa acção de encorajamento assente na esperança no combate ao Covid 19.

“Sinto também que a maioria da população não está a perceber, nem a acatar as orientações do Governo e dos profissionais de saúde no que diz respeito à prevenção e à necessidade de se cumprir regras apertadas, pois o perigo de contágio é muito elevado”. Aos fãs, amigos da CDC Angola e público em geral, apelou por paciência e que tudo isto irá passar, tendo acrescentado que a CDC Angola, que caminha para o seu 29º aniversário de existência e habituada a estar sempre na trincheira da luta pelo profissionalismo e valorização da arte em geral e dança enquanto forma artística, voltará, seguramente, mais forte, com novas propostas e novos espectáculos.

A Companhia

A Companhia de Dança Contemporânea de Angola, fundada em 1991, edificou, através de um percurso de inovação e singularidade, uma história exclusiva que faz dela um colectivo histórico e único, num contexto artístico que permanece frágil, conservador e fortemente cunhado pelas danças patrimoniais e recreativas urbanas e pela ausência de um movimento de criação de autor no plano da dança. Provocando uma ruptura estética na cena da dança angolana e tornando-se, em 2009, uma companhia de Dança Inclusiva, a CDC Angola inaugurou o regime de temporadas, criando assim uma linha de trabalho

. A CDC tem procurado a sua internacionalização como forma de validação do seu trabalho no exterior do país, onde é reconhecido. Além das apresentações no país, já partilhou os seus espectáculos com 15 países e 31 cidades, em África, na América, na Europa e na Ásia, onde foi vivamente aplaudida. Divulgar, surpreender, ensinar, provocar e contribuir para a educação estética do público, trazendo-o à apreciação das artes são os grandes objectivos desta companhia angolana, para o que complementa a sua acção artística com a realização de workshops, seminários, palestras, encontros, aulas abertas e outros programas de educação e divulgação da dança.

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