O discurso literário infanto-juvenil angolano: um dispositivo da tradição oral na construção da identidade cultural

Começaríamos a nossa abordagem com uma proposição centrada na retórica, por exemplo, como lidar com um discurso literário infanto-juvenil que subjugue os hábitos e costumes de um povo? A presente comunicação surge de uma guisa de reflexões sobre a funcionalidade do Discurso Literário Infanto-Juvenil como Dispositivo da Tradição Oral na Construção da Identidade Cultural. A prior, deve-se desconstruir a tese em volta da mistificação da inferioridade literária. Por outro, não faremos recurso, por enquanto, ao desdobramento dos conceitos que perfazem a razão do presente desafio conteudístico. A produção do discurso literário infanto-juvenil na construção da identidade cultural terá de prezar pela estética, obviamente para que seja um discurso literário, pela moral e pela ética para que agregue valores humanos nos variados estágios de assimilação e absolvição dos modus operantes das culturas de cada povo por parte das crianças/adolescentes. Assim sendo, entendermos que a produção do discurso literário seja a cosmovisão dos diferentes agentes da instituição literatura. A imitação por se configurar num dos pilares dos distintos processos de aprendizagem, de inserção e convívio social entre as crianças/adolescentes, que muitas vezes, enraíza- se de tal forma no subconsciente das mesmas que acaba por definir os mecanismos de socialização e de aceitação cultural. Por isso, todo discurso literário infanto-juvenil que alimenta estereótipos; que fomenta a desconstrução identitária; que pregue o mito da superioridade cultural ou rácica cava substancialmente fossos imagináveis no inconsciente das diferentes esteiras na descoberta, formação e construção da personalidade das crianças/ adolescentes. Entende-se por discurso literário infanto-juvenil como sendo o conjunto de textos que, na maior parte das vezes, partem da oralidade para escrita em que a dimensão pedagógica; moral; educacional; a cosmovisão de comunidade; de solidariedade encerram, quase sempre, o corpo da narrativa. Porém, é óbvio que as variantes que concorrem para que uma narrativa seja literária devem fazer-se presente na construção e na materialização do discurso literário infanto- juvenil. O discurso literário infanto-juvenil é, sobretudo, a representação simbólica e imaginária das diferentes culturas que compõem o mosaico etnocultural angolano. Por enquanto, a presente leitura sobre o Discurso Literário Infanto-Juvenil como Dispositivo da Tradição Oral na Construção da Identidade Cultural é apenas um fragmento do estudo que estamos a desenvolver. Em suma, que todo discurso literário seja uma construção, mesmo que se assente em rupturas, quer nas estruturas; na construção semântica; na cosmovisão produtiva. Se olharmos para crise de valores que Angola enfrenta. Por exemplo, a desobediência ao Estado de Emergência face ao Covid-19, não se trata simplesmente dos problemas estruturantes e funcionais que conhecemos e sim também pela falta de identidade cultural como matriz orientadora, unificadora e de conscientização colectiva.

 

                                                                               Hamilton Artes   *Escritor   Crítico Literário

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