Né Gonçalves grava música com mensagem de combate e prevenção à Covid-19

Em tempo de pandemia, o artista né gonçalves decidiu gravar a música “Corona viru” para transmitir mensagens sobre a prevenção e combate à Covid-19 em Angola

Por: Salomão Abílio*

O autor do disco “Luanda Meu Semba”, lançado em 1994, afirma nesta entrevista que os músicos têm uma função essencial neste período de “mar de águas revoltas” que o mundo está a viver, porque tendem a levar a mensagem com mais simplicidade, adaptabilidade aos diferentes grupos sociais alvo e maior assertividade.

Que papel desempenham os músicos nos momentos como este que estamos a viver – da pandemia Covid-19?

Os músicos, tal como outros representantes de modalidades artísticas e culturais, têm o talento que lhes permite captar as necessidades e ansiedades populares, o pulsar social, e através das suas obras, interpretar a realidade onde vivem e comunicar para a sociedade. Em Angola, a música faz parte do DNA e da vida social quotidiana dos angolanos. Somos um povo muito musical, que sente as vibrações das mensagens, da rítmica, melódicas e harmónicas de modo muito intenso.

Qual deve ser a ‘missão’ do artista neste particular?

A questão chave neste momento é a da mudança comportamental, com a adopção de condutas preventivas da transmissão do invisível vírus que nos torna tão vulneráveis, ataca e mata. E eu diria que, através da rádio, da televisão e dos meios digitais, a música é o meio incomparavelmente mais forte de levar mensagens indutoras de comportamentos a muita gente, por vezes milhões de pessoas, não só pelo alcance desses meios tecnológicos mas, e sobretudo, pela força da música e de músicos com marca forte, com capacidade para arrastar multidões.

É um papel que não é exclusivo dos músicos?

Se os líderes têm um papel de orientação fundamental nesta luta contra o coronavívus, os músicos têm uma função de incontornável complementaridade, porque tendem a levar a mensagem com mais simplicidade, adaptabilidade aos diferentes grupos sociais alvo e maior assertividade.

Já alguma vez procedeu à gravação de uma música, cujo conteúdo estivesse ligado a causas sociais ? Quais são? O que o levou a fazer?

O meu primeiro CD “Luanda Meu Semba”, lançado em 1994, contém a canção “Natureza”, preocupada com a protecção ambiental, “Desumanidade”, que constitui uma reivindicação da Paz, e a música “Menino de Rua”, que foi considerada a “Música do Ano” pela Rádio Nacional de Angola, com uma forte mensagem de defesa dos direitos das crianças a viver na rua, que a guerra transportou do campo para as cidades, para eles tornadas selvas de betão, além das que a nossa sociedade foi produzindo.

Com esta Música demonstra que não é a primeira causa a abraçar?

Esta música deu origem a um videoclip e dez spots com a condensação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança que elaborei e ofereci ao INAC – Instituto Nacional da Criança, amplamente divulgados na comunicação social e que se
tornou um verdadeiro hino à criança. “Sembamar”, o terceiro CD, contém a “Dama da Via”, a tradução dos dramas de quem se vende como última solução, porque há em casa bocas à espera do fim da madrugada.

Recentemente, entretanto, apresentou o projecto “Paz na Estrada”

… Sim. Em Dezembro do ano passado foi a vez do início do projecto Paz na Estrada, ligado à prevenção da sinistralidade rodoviária, baseado numa música e respectivos videoclip e spots de rádio e televisão, com mensagens de vários embaixadores ligados a diferentes sectores da sociedade civil, e que almeja a redução da segunda maior causa de mortes entre nós, depois da malária.

O momento actual exigiu uma nova criação?

“Corona Viru” é a música mais recente, que igualmente deu origem a um videoclip e a spots de televisão, num estilo que pretende atingir as camadas juvenis “do asfalto e da periferia”, para o qual convidei o Kudurista Gattuso e que divulga mensagens muito claras e directas para a prevenção contra a Covid-19. Todas essas músicas e projectos de intervenção social estão relacionados com as minhas preocupações de solidariedade social e de defesa de causas como a paz, o ambiente, as crianças de rua, as vítimas da sinistralidade e a responsabilidade que temos todos de agir para evitar uma enorme desgraça possível e salvar vidas.

Que mensagem tem a deixar aos músicos e à sociedade em geral, mormente neste período difícil para Angola e para o mundo?

É hora de distanciamento social. Isso implica medidas restritivas das liberdades individuais e aumento das difi culdades económicas e sociais. Por outras palavras, fi car em casa tanto quanto possível é decisivo para evitar uma situação que, nas nossas condições, pode ser catastrófi ca, mas gera muito sofrimento da parte da maioria da nossa população, pelos níveis de pobreza existentes.

Reconhece que esta fase seja também de resistência face aos inúmeros problemas sociais, sobretudo, que as famílias angolanas enfrentam? Mas temos todos que ter capacidade de resistência. Nesta crise, que é também económica, fi nanceira, social e de valores, além de saúde pública, com dois terços do PIB mundial estagnado, refl e ctindo-se na nossa pequenez de fi m de rankings em quase tudo, têm mais valor as provas de maturidade política e de responsabilidade por parte das entidades públicas na adopção de medidas de política pragmáticas, que tomem em conta a nossa realidade e que produzam serviços e bens de consumo e trocas comerciais no mercado interno. A resiliência requer que sejamos emocionalmente positivos e que tenhamos muita criatividade para a rápida adaptação das empresas, dos negócios e de toda a actividade económica, principalmente a da sobrevivência das famílias.

Daí ser imprescindível a actuação dos músicos neste particular?

A intervenção dos músicos é essencial num duplo sentido: aliviar a pressão da situação de emergência que vivemos, com concertos e a divulgação musical online e através da mídia, e com músicas de intervenção social, objectivando a educação para a prevenção dos riscos de contaminação pela actual endemia global. Neste último caso, preferencialmente quando, além da língua ofi cial, a música surge em várias línguas locais e diferentes estilos musicais, mais facilmente atingindo a percepção e a alma de todos os cidadãos do país.

*Gentileza

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