A estatística como instrumento do desenvolvimento

Por: Mateus Paulo Congo*

Uma das grandes dificuldades que os investigadores e demais interessados em analisar o contexto africano, o angolano em particular, enfrentam refere-se aos números. Dito de outro modo, os países ditos subdesenvolvidos, aqui, os africanos particularmente, têm um grande défice relativamente aos dados estatísticos. Se decidisse, hoje, a título de exemplo, estudar a problemática da pobreza e ou da informalidade na economia e sociedade angolanas, a primeira dificuldade que teria de gerir chama-se falta de dados estatísticos.

O que torna qualquer tarefa do pensamento desenvolvimentista difícil, isso, para não dizer impossível. O desenvolvimento socioeconómico é nos dias de hoje um dos maiores desafios que diferentes Estados enfrentam. Para o caso angolano, este desafio – do desenvolvimento socioeconómico -, é ainda maior entre outros, se termos em conta dois vectores. A definição dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) em Setembro de 2015 pelas Nações Unidas e a urgência que o país deve ter em relação à correção das desigualdades. Por se configurarem em dois elementos importantes para os Estados alcançarem ou aproximarem-se da coesão social. É do nosso ponto de vista, digamos, talvez, uma das várias razões explicativas de Angola não ter alcançado os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) de onde emergem os ODS.

Considerando a prossecução dos objectivos inscritos no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN), não seria nenhum disparate se afirmássemos que João Lourenço e o MPLA só terão êxitos com a estratégia desenvolvimentista presente no PDN se houver maior dinâmica na missão do Instituto Nacional de Estatística (INE). Isto é, urge a modernização técnica e uma maior e melhor preparação humana naquele órgão de planeamento.

O mesmo que dizer que se precisa de mais dinheiro para o INE cumprir a sua missão. Pois temos de convir que não se pensa desenvolvimento com um INE igual ao nosso; digamos, muito preso em si mesmo. Pensar desenvolvimento é trabalhar com números e esses devem estar o mais próximo possível da realidade. Ora, se é verdade que o INE é imprescindível para a operacionalização da estratégia desenvolvimentista inscrita no PDN, não é menos verdade que o chamado “tempo das vacas magras” pode ser um condicionante para se elevar o bolo orçamental daquela estrutura de planeamento a fim de cumprir a proactividade exigida neste tempo.

Do que se disse acima talvez estejamos diante de um resultado paradoxal. Ou seja, por um lado, a importância que se reconhece nos resultados que o INE deve apresentar. Significando pois que se justifica igualmente a necessidade de mais investimentos naquela unidade de planeamento; por outro, a escassez de recursos por todos conhecida e reconhecida, que, no entanto, não deve perigar a primeira ideia. Esse paradoxo nos remete ao cumprimento de um princípio que a economia entendeu chamar de trade-off, isto é, custo de oportunidades. Este princípio entre outras coisas pretende significar definição de prioridades, ou numa linguagem mais popular, largar algumas coisas para fazer outras – conflito de escolha, diria mais.

E, digamos, largar algumas coisas para fazer outras é, no fundo, o que João Lourenço e o MPLA devem fazer. Afinal, é isso também o que se convencionou chamar de governação. Uma última nota a respeito do conflito de escolhas de que falamos anteriormente relaciona-se ao que podemos chamar de qualidade da liderança. Melhor dito, as lideranças ou se quisermos as grandes lideranças muitas vezes são testadas pelas decisões corajosas que são capazes de tomar. Liderar deve igualmente significar tomada de decisão. Esta última é afirmativamente tratar de questões que dizem respeito à colectividade, logo, requer coragem. E isso João Lourenço não precisa provar para ninguém que tem, pois todos somos testemunhas da imersão de um novo normal mais suave para o país.

Termino pois reafirmando que um país como o nosso que tenciona trilhar a rota do desenvolvimento deve encarar a estatística com bastante seriedade se não mesmo com sentido de Estado. Afinal, qualquer país que deseja o desenvolvimento deve preocupar-se com o longo prazo, porquanto é um processo de mudança, crescimento, bem como de questões relativas à distribuição de renda e outros indicadores sociais e económicos como alfabetização, expectativa de vida, existência e continuidade das instituições políticas, da sociedade civil e da consolidação do Estado Democrático e de Direito, isso, sem nunca menosprezar valores mais intangíveis como a justiça e a liberdade. *Bancário, professor e investigador

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