26, o caso

Vivesse eu nos Estados Unidos da América e já estaria a encomendar charutos e champanhe. Ok., e chocolates também. E caviar. Pronto, umas trufas não faltariam. Tudo naquele cenário idílico ao pôr-do-sol à beiramar… pára! É melhor ir para a montanha, porque à beira-mar lembra o Futungo de Belas, o novo gueto da capital. Fui duro, gueto faz lembrar Varsóvia, judeus, morte. Felizmente o Futungo está muito longe disso e é bairro com gente boa, saudável e com todos os direitos de cidadania, menos o da liberdade para lá dos muros. Pronto é tipo gueto mesmo. Mas o fautor não é uma unidade das SS, tem outra designação: Caso 26. Voltando às manias de rico, como chegar àquilo tudo se estivesse nos EUA?

Bastava registar já os direitos sobre a história do Caso 26. Bastava publicar a sua biografia, que seria um best-seller antes de sair da gráfica. A produção de um filme garantiria uns quantos Oscars também. E uma série televisiva poderia estender-se por umas boas seis temporadas. No teatro, talvez fosse bater o record de Cats, décadas em cena. Covid-19 e Caso 26 são expressões que quase se confundem já. Trata-se de um marco, de uma lição também. De um aviso sério sobre os cuidados que se deve ter em termos de saúde pública e, sobretudo, da necessidade de se reeducar toda a sociedade, ensinando desde a creche coisas como responsabilidade e o lugar do outro.

O maior problema da nossa sociedade é o egoísmo, de todo o tipo, que acabou com o lugar outro. De repente, o Caso 26 é o “cara”, há anedotas para todos os gostos em torno dele. Há promessas até de processos criminais. Os jornalistas estão a tentar saber de quem se trata, quem lhe conta a história em primeiro lugar. Há o “Caso 26”, não há um nome, um rosto, uma alma que deve estar atormentada por ter infectado os filhos. Este é o mal maior da Covid-19, reduz-nos a meros números, até na ânsia de enriquecer com ela. A primeira vítima é a alma.

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