Amor e cabana

Agora as coisas começam a fi car mais claras, estamos na idade de perder as ilusões, se é que as tínhamos. Aquela moça que olha para um jovem bonito, galanteador e lhe responde com um “xê, vou te aceitar, vais me levar aonde? Vou comer o quê?” começa a ter alguma razão, porque ela pensa e sabe mesmo que amor não enche barriga. E a fome faz andar à-toa. Prova disso são as levas de refugiados e de migrantes que buscam alguma coisa em todas as direcções. Na verdade, julgo eu, a moça bonita do “vais me levar aonde”, talvez nem seja interesseira como ditam os padrões éticos, se calhar está a pensar na sua descendência, o que é natural no reino animal.

As fêmeas escolhem o macho alfa, o protector, o do gene mais forte, que lhe dá garantias de sobrevivência própria e das crias, etc.. Estou tipo que a apoiar a indecência, a vida infeliz com tudo mas sem amor e estas meninas que se multiplicam exibindo bens para os quais nunca trabalharam, nem elas e nem os seus pais e que no virar dos quarenta começam a ser profundamente infelizes porque o caminho que palmilham traz sangue novo e o tal macho alfa também lhe dita a natureza que não quer mais fêmea vitimada pela gravidade, com tudo a cair, quer jovens com tudo no lugar… já me perdia, estou a tentar uma teoria sobre como tudo isto tem a ver com a dignidade. Sim, algumas fazem-no simplesmente por uma vida digna.

Estou cansado de tentar articular aqui alguma coisa com lógica, amanhã já me passa e volto a defender o amor puro e duro. Vou directo ao assunto: a Covid-19 e o estado de emergência com o confi namento obrigatório imposto. Digamos que o Governo é o tal rapaz bonito e galanteador, quer confi nar o povo, olhe-se para o número de mulheres na rua em busca de comida para os fi lhos, os seus maiores amores, que deixa na cabana.

Ela sabe do perigo, mas corre o risco, porque barriga vazia ofende a dignidade. Precisa-se de amor, uma cabana e dignidade para haver felicidade. A dignidade tem de ser apenas material? Claro que não, mas no nosso caso, mesmo das cabanas onde não há amor sai-se em busca da dignidade do estômago aconchegado.

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