A bela idade de sempre

Eu tenho a idade dos livros que li. Sei amar com a candura de ontem e com a loucura de hoje. Sei ser um rei bom do início dos séculos e sei sentir as dores da carne rasgada em cada milímetro do corpo de um escravo.

Eu sei como se abre uma bexiga ao ritmo troado de canhões e sei como sobrevier na paz é nascer de novo, com lágrimas de alívio, de esperança e muitas vezes de raiva por não ter morrido.

E tenho a idade de caminhar na rota da borracha centenas de quilómetros com os pés descalços e de voar na primeira classe de um super jacto calçando sapatos de marca.

Também tenho a idade do ptolomaico fogo de Faros, vivo na Atlântida de algures, de todo o lado onde haja mar, mas garanto que ela nunca foi ilha. É mundo.

Eu tenho a idade perdida no tempo do primeiro beijo roubado e que perdura, e sinto o antecipado dia da ternura que o teu regaço me guarda.

Eu vivo cada aventura ritmada pelo sorriso ondulante no popular português de Luandino Vieira e ainda o silêncio angustiado do primeiro tuaregue.

Eu tenho todas as idades, estou nos exércitos romanos e alexandrinos, carrego comigo a zagaia do primeiro guerreiro bantu, quando o norte era o Sul.

Eu sou de todo o lado também, ao mesmo tempo, habito a caverna de Platão e abro a porta do Céu a Bob Dylan.

Eu sou assim, feito de dias que folheiam a vida impressa pela obrigação do mudo fingir que até se altera na mente de quem escreve. Ele é estático em redemoinho.

Eu tenho a idade dos livros que li, e por isso sou tão falível como a história que não se aprende, apenas se vai adiando a repetição dos erros. E, pior, não tenho a idade dos livros que não li, a sua juventude e a sabedoria insatisfeita dos velhos, ainda não existo para eles. E o que não existe não é feliz.

Os livros, li-os quase todos na língua portuguesa, então, tenho a idade desta língua, somada a todas as idades das histórias que me adentrou, dos sofrimentos e dos amores que ela me narra em cada página, da loucura, da fé, do perdão, da ira, do desencanto, da alegria. O paraíso, a Suméria, Monomotapa, até ao poema com sangue de paixão acabado de escrever.

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