Disparo de polícia faz terceira vítima mortal no Rocha

Nove meses depois da última vítima (a 16 de Agosto de 2019), a Polícia aparece novamente envolvida na morte de um jovem, no bairro Rocha Pinto, por disparo de arma de fogo. Somam-se já, só neste bairro, três mortes cujas acusações recaem sobre a Polícia

A bala que vitimou mortalmente o jovem António Domingos Vulola, de 22 anos, terá saído, supostamente, da arma de um agente da Polícia da esquadra do bairro Huambo, no Rocha Pinto.

Contam as testemunhas que António estava a confraternizar com os amigos no Sábado, 9, às 22 horas, no Bairro Huambo, perto da conhecida rua da Igreja Católica, do Rocha Pinto, até serem surpreendidos por agentes da ordem, tendo um deles questionado a razão do não uso da máscara pela vítima, uma vez que é obrigatório sair-se à rua com este acessório.

Sublinha-se que os agentes estavam a intervir naquela zona por causa de um aglomerado de gente que se encontrava na rua. A resistência por parte de alguns cidadãos e, porque, supostamente, a população começou a arremessar objectos contundentes, fez com que o agente efectuasse disparos, tendo um deles atingido a cabeça de António Domingos Vulola.

António ainda foi socorrido ao Hospital Josina Machel, mas infelizmente não resistiu e acabou por sucumbir. Enquanto isso, o agente acusado pôs-se em fuga e a população dirigiu-se à esquadra móvel onde estava destacado a trabalhar, para obter algualguma resposta da Polícia, tendo terminado com a vandalização da esquadra.

António Vulola perdeu a vida aos 22 anos, numa altura que acabava de ser pai, uma vez que o seu filho tem apenas 10 dias de vida.

Esta é a terceira vez quese regista uma morte, no Rocha Pinto, cuja culpa recai sobre a actuação da Polícia, uma vez que, em Março do ano passado, os moradores daquele bairro presenciaram, igualmente por disparo de arma, a morte da jovem Juliana Cafrique, vendedora ambulante. Essa situação criou um sentimento de revolta na população que, com pedras, ferros e paus, partiu contra os agentes e os automobilistas que por ali circulavam.

Apesar da repercussão que teve o caso Juliana Cafrique, da corrente de solidariedade, das críticas contra a actuação da Polícia e da forma como reagiu a sociedade, quando menos se esperavas, no mês de Agosto do mesmo ano, o Rocha Pinto voltou a registar um caso de disparo de arma de fogo feito por um polícia que vitimou outro cidadão, no mesmo bairro.

Entretanto, perto do fim do fecho desta edição, o director de Comunicação Institucional do Ministério do Interior, Waldemar José, informou que sobre o caso António Vulola, houve um tumulto contra os agentes da PN, que foram obrigados a fazer alguns disparos para se defenderem contra a ameaça que lhes estava a ser empregue.

“Infelizmente, uma das balas atingiu este jovem. Foi aberto um inquérito para se aferir as reais causas do incidente. Só me resta lamentar pela perda irreparável do indivíduo e endereçar à família enlutada os meus sentimentos de pesar”, disse, tendo sublinhado que se tratava ainda de informações preliminares.

Segundo caso: a morte de um pastor

Doroteia Uzitika perdeu o marido, João Paulo Mutala, de 56 anos, com quem vivia há cinco, resultante de um disparo de arma de fogo que acredita ter sido feito pela Polícia. Para ela, a história de que o esposo terá sido morto na sequência de um disparo feito por um dos grupos do bairro, que estavam em rixa com um outro, rival, não é verdadeira.

Às 22 horas de Sábado, 16, o dia da morte do marido, decorria uma festa próximo do local, na zona do Apetece. Os jovens na festa desentenderam-se e a Polícia, que fazia patrulha na zona, ao aperceber-se da situação fez dois disparos, tendo um atingido João Paulo Mutala, na região do tórax, segundo Juliana Maria, a jovem que viu a vítima a cair perto da sua bancada.

Depois de aperceberem-se que um cidadão estava estatelado, não prestaram o devido socorro, pensando que aquele indivíduo estava apenas tendo um ataque. “Pegaram no carro e foram-se embora. É mentira que o grupo de jovens tinha pistola, eles apenas tinham pedras e paus”, disse ela, à reportagem do OPAÍS.

João Paulo Mutala era pastor da igreja “O caminho em Angola”, batalhava para sustentar a mulher e dois filhos com a venda a grosso de produtos como rebuçados, sambapito, bolachas e outras guloseimas aos cantineiros do bairro Rocha Pinto.

Enquanto conversávamos com a viúva, nossa equipa foi cercada por um grupo de moradores dispostos a desmentir a versão da Polícia que dá conta que João Paulo Mutala perdeu a vida com disparo de arma de fogo de um dos grupos de marginais do bairro Rocha, durante uma rixa.

“Todas as unidades têm de ter um gabinete psicopedagógico”

O Rocha Pinto tornou-se uma “dor-de-cabeça” para a Polícia, um bairro “duro de ruir”, porque volta e meia a corporação é chamada para apaziguar um tumulto, quando esta mesma Polícia não é acusada de ser a causadora de tal situação. Para analisar esta situação, recordamos a entrevista feita ao sociólogo José Lourenço, que aconselha a criação de um gabinete de atendimento psicopedagógico nas unidades policiais.

Para o especialista, a formação dada aos Polícias não tem sido a mais adequada, pois tem sido posta de parte a questão psicopedagógica. Deve ser criado um gabinete psicopedagógico em cada esquadra, que acompanhe o agente diariamente, bem como deve haver controlo do nível de alcoolémia antes (e depois) de os agentes saírem para as operações.

Parecendo que não, com estas péssimas actuações da corporação, a Polícia está a mostrar fragilidades. Por isso, segundo o sociólogo, temos vindo a registar casos de polícias que matam por crimes passionais; matam porque estavam embriagados; ou porque estava cansado, etc..

Outro problema, segundo José Lourenço, é que a PN recebeu pessoas que vieram das FAA, que ainda não se despiram do pensamento de guerra, já que receberam treinamento diferente. Este agente deve ser novamente formado e devidamente acompanhado.

O Rocha é uma réplica do Catambor, segundo o interlocutor, com condições precárias, extrema pobreza, delinquência, fraco investimento na educação, dominada pelo comércio informal, que propicia estes tipos de reacções. A unidade da Polícia de Intervenção Rápida no local deve ser reforçada, pois tem poucos efectivos para dar resposta ao número de crimes que ali se regista.

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