Desconfinados

Há vezes em que o trabalho corre francamente mal e tudo se atrasa, tudo sai com menos gosto. Nestes dias, ou nos fechamos, ou olhamos para o resto do mundo em busca de respostas. Mas também podemos abstrair-nos. Deixar de pensar no assunto. Virá sempre um novo dia.

Estava eu num destes dias, aliás, numa destas madrugadas, decidido a esquecer o que tinha corrido mal no serviço, e consegui. É fácil. É que os nossos problemas são sempre muito pequenos quando abrimos os olhos aos problemas dos outros.

Eram perto das cinco da manhã, eu a voltar para casa, sem neuras, digo já. Há que poupar coração. E na rua já algum movimento. É normal, Luanda é uma cidade que acorda cedo, que gosta de se mexer.

Pessoas já nas paragens de táxi, claramente em busca do pão do dia, algumas com os seus kibutos.

Homens e mulheres a empurrar a escuridão que sobrava da noite que acabava, antecipando a luz com os olhos cansados. Entre eles aqueles que carregavam as suas próprias camas de dois panos dobrados, tinham passado a noite defronte de um hospital, no passeio, ao relento. E também aqueles que tinham pernoitado numa qualquer esquina que agora a tinham de abandonar, o dia será passado na rua, sem um sofá e um televisor para ver correr o mundo em modo pandémico.

Se a palavra de ordem é confinamento nestes dias, há milhares de almas para as quais o mundo se confinou primeiro.

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